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Na Folha, Haddad avalia desgoverno Bolsonaro na política externa do país

“Não vamos falar de invasão, não estamos bem de armamento, nós não podemos fazer frente a ninguém”.

Essa foi a resposta do nosso atual comandante em chefe das Forças Armadas quando perguntado se cumpriria a ameaça feita pelo clã durante as eleições de entrar em conflito armado com a Venezuela.

Limitado pelas circunstâncias materiais e sem apoio externo, Bolsonaro deixava claro que só não partia para a briga porque realmente não podia, num gesto resignado.

Algo semelhante se passou com a promessa de transferência da embaixada brasileira de Tel Aviv para Jerusalém. Sabe-se o quanto essa questão é cara a cristãos, judeus e muçulmanos. Jerusalém é considerada a “capital” das três religiões monoteístas.

Diante da ameaça feita pela Liga Árabe de reagir à medida, inclusive comercialmente, Bolsonaro afirmou: “nós talvez abramos agora um escritório de negócios em Jerusalém”.

Outra bravata foi a provocação à China. Querendo cutucar dragão com vara curta, aparente mal de família, Bolsonaro, depois de atacar nosso maior parceiro comercial, visitou Taiwan, afrontosamente.

Num recado do próprio governo da República Popular, o jornal chinês Global Times disse que Bolsonaro precisaria de “algum tempo para se familiarizar com a política externa”.

Sandices à parte, Bolsonaro voltou ao jogo nas últimas semanas. Num primeiro momento, cancelando acordo secreto feito com o governo paraguaio sobre Itaipu.

Presentes todos os ingredientes de um escândalo, envolvendo o suplente do senador Major Olímpio (PSL-SP) e o grupo Léros (que explora nióbio), o objetivo do distrato foi tentar “salvar” o mandato do presidente Benítez e, talvez, o seu próprio.

Agora, Bolsonaro tenta influenciar as eleições argentinas, chamando o vitorioso nas primárias de “bandido”, desconhecendo que a vantagem até aqui do peronismo, pelo menos em parte, deve-se a seu apoio a Macri.

O mais importante, contudo, continua submerso. Enquanto Bolsonaro arruma confusão com Alemanha e Noruega acerca da Amazônia, desdenhando apoio internacional pela sua preservação, no que conta com apoio de generais bolsonaristas e sua tosca visão de soberania, Guedes cuida do que realmente importa: a Amazônia Azul, nosso mar territorial.

É aí que se encontram as reservas petrolíferas do pré-sal. E é a Petrobras que detém a tecnologia para explorá-las a preços competitivos. Segundo Guedes, Bolsonaro está cada vez mais sintonizado com a agenda de privatização e cobrou pressa. “Já já chega na Petrobras”, assegurou.

Fernando Haddad
Professor universitário, ex-ministro da Educação (governos Lula e Dilma) e ex-prefeito de São Paulo.

Artigo publicado originalmente na Folha de S. Paulo

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