Por Tássia Rabelo e Gabriel Ribeiro (*)
A crise é múltipla. A etapa atual do capitalismo combina colapso ambiental, desemprego estrutural, precarização do trabalho e guerras permanentes. Essa acumulação de catástrofes aprofunda a sensação de insegurança e a descrença nas soluções coletivas. No Brasil, isso se expressa no sentimento crescente de que a política não oferece respostas concretas para os problemas da vida cotidiana. Muitos brasileiros e brasileiras passam a enxergar o futuro mais como ameaça do que como horizonte de transformação, e a extrema-direita cresce precisamente nesse terreno.
Pesquisas mostram que, para grande parte da população, a possibilidade de melhoria de vida depende de Deus, do esforço individual e da sorte, e não da ação coletiva ou das instituições públicas. Isso não surge do nada. Nos territórios periféricos, o Estado historicamente esteve ausente ou apareceu por meio do aparato repressivo voltado à proteção do patrimônio das elites, e não da vida da população.
Esse cenário de abandono é capturado pela extrema direita, que cria “espantalhos” como responsáveis pelos problemas sociais, oferece respostas autoritárias e simplificadoras e transforma medo, ódio e violência em instrumentos de mobilização política. É também nesse terreno que prosperam, de forma combinada, propostas salvacionistas e a lógica do empreendedorismo como saída individual.
Nosso desafio é fazer da política uma experiência concreta de participação popular e ação coletiva. Para nós, democracia não é apenas representação formal, mas a capacidade concreta do povo de participar das decisões sobre sua própria vida e de transformar direitos declarados em realidade material.
O 8º Congresso do PT aprovou a construção de um programa de governo que combine participação popular organizada e elaboração técnica. Os saberes produzidos nos territórios, nas comunidades, nos locais de trabalho e estudo precisam ter centralidade na formulação política. O povo conhece os problemas concretos e também produz soluções. O papel dos especialistas não é substituir essa experiência, mas dialogar com ela e ajudá-la a ganhar forma programática. A aprovação unânime da emenda em plenário (veja abaixo), que a princípio não havia sido consenso na comissão de sistematização, mostrou que o debate coletivo segue sendo nossa principal ferramenta de síntese política e construção de unidade.
Propomos que esse processo seja iniciado em junho de 2026, por meio da realização de centenas de plenárias populares presenciais e híbridas. Não como eventos superficiais, mas como atos concretos de elaboração política, escuta e organização coletiva. Essas plenárias podem acontecer em bairros periféricos, locais de trabalho, espaços de estudo, comunidades, acampamentos, sindicatos, associações de moradores, praças e em todos os locais onde conseguirmos reunir pessoas para compartilhar experiências sobre suas condições de vida, formular propostas e construir coletivamente respostas para os problemas enfrentados em seus territórios. Mais do que produzir contribuições para o programa de governo, essas plenárias podem formentar formas permanentes de organização popular, impulsionando núcleos e comitês de base para além do período eleitoral. Simultaneamente, uma plataforma online permitiria que quem não puder participar das plenárias também contribua com propostas e sugestões.
As contribuições produzidas nesse processo seriam encaminhadas ao Grupo de Trabalho do Programa de Governo, que reunirá representantes dos partidos da Frente Lula 2026, à luz da experiência construída em 2022. O grupo contará também com especialistas de diferentes áreas, responsáveis por sistematizar e fundamentar teoricamente as propostas, sem perder de vista as demandas construídas nos territórios.
Aqui está o ponto decisivo: transformar apoio eleitoral em força social organizada. Lula e o PT seguem mobilizando milhões de brasileiros nas urnas, mas vitórias eleitorais, sozinhas, não bastam. É preciso ampliar a presença organizada do nosso campo nos territórios e transformar apoio difuso em participação política permanente.
As plenárias podem funcionar como porta de entrada para essa construção. Quem participa percebe que sua experiência concreta importa e que a ação coletiva é capaz de produzir respostas para problemas comuns. A partir daí, a participação pode abrir caminho para formas permanentes de organização política, fortalecendo sujeitos coletivos capazes de atuar no período eleitoral e também na sustentação das transformações sociais.
Para que essa metodologia seja exitosa, será necessário formar militantes capazes de convocar, conduzir e sistematizar as plenárias articulando educação popular, escuta territorial e elaboração política coletiva, o que só será possível em ambientes políticos em que todas as pessoas se sintam acolhidas para participar.
Tal como estamos fazendo com os Polos Territoriais do Nova Primavera, diretórios zonais, municipais e estaduais do PT, locais de trabalho com presença nossa, universidades, e até casas de militantes podem passar a abrigar encontros do programa Lula 2026. Não é campanha eleitoral, mas é mobilização. É povo debatendo, se organizando, se esquentando para o trabalho que vem.
Lutamos contra a extrema direita todos os dias. Lutamos contra a desesperança e a desinformação. Lutamos para que a política seja o espaço onde o povo trabalha junto para transformar. Esse programa de governo pode ser uma arma nessa luta.
A tarefa colocada para o PT no próximo período é conquistar novamente maioria eleitoral e transformá-la em força social organizada, capaz de derrotar a extrema direita e o neoliberalismo, construir o melhor governo da nossa história e aprofundar a democracia a partir da participação popular.
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Tássia Rabelo, Secretária Nacional de Formação Política do PT e delegada ao 8° Congresso.
Gabriel Ribeiro, ex-coordenador da equipe da Escola Nacional de Formação Política do PT e delegado ao 8° Congresso.
Veja a emenda aprovada por unanimidade no plenário do 8° Congresso do PT:
EMENDA: MÉTODO DE CONSTRUÇÃO DE PROGRAMA
Parágrafo 1 E 2 – Construção Popular e Organização:
Para que este Programa de Governo seja verdadeiramente popular e enraizado nas experiências concretas do povo brasileiro, o Congresso do PT encaminhar à Executiva Nacional a realização de um amplo processo de construção participativa do Programa Lula 2026. Tal processo será operacionalizado através da realização de plenárias populares presenciais em todo o país, realizadas em bairros, locais de trabalho, espaços de estudo, comunidades e setores diversos. Essas plenárias funcionarão simultaneamente como: (1) espaço de elaboração programática participativa que supere a lógica tradicional de gabinetes; (2) ferramenta de reorganização de base que fortaleça comitês populares e núcleos de militância; e (3) instrumento de mobilização que coloque a o nosso campo em movimento ainda na pré-campanha. A Executiva Nacional do PT deve definir, até maio de 2026, o método de construção do programa que combine participação presencial com plataforma online de construção do programa, replicando a experiência de 2022, garantindo que os saberes locais e as demandas territoriais sejam integralmente representados e incorporados ao programa de governo.
Este processo de construção do Programa Lula 2026 não é apenas exercício consultivo ou ritual democrático. É uma organização política concreta que combina força eleitoral com mobilização popular permanente. Cada plenária realizada em um bairro, local de trabalho ou espaço comunitário gerará como resultado não apenas sugestões para o programa, mas participantes já podem se organizar núcleos de base que continuarão estruturados para o período eleitoral e além dele. A construção participativa do programa torna-se, assim, primeira etapa de fortalecimento da presença territorial do PT e aliados, criando as condições para que a vitória eleitoral de 2026 seja consolidada com poder social capaz de sustentar e aprofundar as transformações propostas.
Parágrafo 3 — Diálogo Multipartidário e Método do Programa:
A experiência de 2022 demonstrou a eficácia de um método de construção do Programa que envolvesse representantes de todos os partidos da frente Lula Presidente 2002, garantindo consenso amplo e capacidade de diálogo entre diferentes forças políticas. Esse modelo orientou a transição de governo nos últimos meses de 2022, criando linhas de continuidade que facilitaram a implementação de políticas nos primeiros meses. O Congresso do PT reafirma a importância de que este processo se repita em 2026: o PT deve convocar todas as forças que integram a frente democrática para indicar representantes para a construção de um programa comum entre esses partidos, a partir das milhares de contribuições das plenárias populares, sintetizem uma proposta programática e transformadora, mantendo nitidez e autonomia do programa partidário enquanto se abre espaço para contribuições dos aliados. Nesse processo também é fundamental a participação dos setoriais e secretarias para construção de um programa conectado com os movimentos populares. O Congresso do PT reafirma a construção do Programa de Governo como tarefa partidária.

