(*) Por Camila Moreno
A derrota de Jorge Mssias no Senado, na disputa por uma vaga no Supremo Tribunal Federal, não pode ser lida como um episódio isolado, nem como um revés circunstancial do governo Lula. Ela revela algo mais profundo. É um sintoma do descompasso estrutural entre o projeto político eleito pelo povo brasileiro nas urnas ao votar em Lula e a correlação de forças existente nas instituições. Em outras palavras: o Brasil escolheu, nas urnas, um caminho de reconstrução democrática, de inclusão social e de retomada da soberania. Mas esse projeto ainda não se expressa de forma majoritária no Congresso Nacional. E isso tem consequências profundas, como vimos ontem.
A eleição no Senado evidenciou, mais uma vez, que o Congresso Nacional permanece atravessado por interesses que nem sempre correspondem aos anseios da maioria da população. Trata-se de um espaço onde operam, de forma intensa, o poder econômico, as dinâmicas clientelistas e uma lógica de fragmentação que dificulta a construção de projetos nacionais até de curto prazo, quanto mais de longo prazo.
Esse cenário não é fruto apenas da conjuntura. Ele é resultado de um desenho institucional que, ao longo do tempo, consolidou distorções profundas no funcionamento da democracia brasileira.
Entre essas distorções, destaca-se o papel assumido pelo sistema de emendas parlamentares, que, especialmente nos últimos anos, passou a concentrar poder orçamentário de forma desproporcional e pouco transparente.
Ter o orçamento público capturado pelas emendas não é apenas um problema de gestão fiscal, mas também uma alteração substantiva no equilíbrio entre os Poderes que fragiliza o planejamento público e desloca o centro da decisão política para dinâmicas que escapam ao controle democrático.
Quando parcelas significativas do orçamento são distribuídas de forma pulverizada, orientadas por interesses localizados e, muitas vezes, desarticuladas de uma estratégia nacional, o resultado é um Estado menos capaz de induzir desenvolvimento, reduzir desigualdades e responder de forma estruturada às necessidades do povo.
Nesse contexto, derrotas como a de Jorge Messias deixam de ser exceções e passam a ser expressão de um padrão. Por isso, é fundamental afirmar com nitidez: o problema não é apenas conjuntural. Ele é estrutural. E problemas estruturais exigem respostas estruturais.
A primeira delas é política. Não haverá transformação profunda sem alterar a composição do Congresso Nacional. Isso significa que a disputa de 2026 não pode se limitar à reeleição do presidente Lula, por mais central que essa tarefa seja. É necessário eleger um conjunto de parlamentares comprometidos com um projeto de país. Um time capaz de sustentar, no Legislativo, as mudanças que a sociedade brasileira demanda. Sem isso, o risco é evidente: um governo eleito com apoio popular, mas permanentemente tensionado por um Congresso que opera em outra direção.
Mas a disputa pela correlação de forças não se esgota no interior das instituições, ela se constrói, antes de tudo, na sociedade. É na presença viva nas ruas, na mobilização popular, na formação política permanente e na disputa de ideias, nas redes, nas ruas e no cotidiano, que se forma uma maioria social capaz de sustentar um projeto transformador. Isso exige presença constante nos territórios, enraizamento na vida concreta das pessoas e capacidade real de dialogar com suas experiências, medos e esperanças.
Sem esse trabalho persistente de organização, convencimento e construção coletiva, não há correlação de forças capaz de sustentar mudanças profundas nem de se traduzir em maioria política nas instituições. Sem povo organizado não há maioria duradoura no Congresso, nem força suficiente para enfrentar privilégios históricos.
É preciso disputar valores, narrativas e expectativas, fortalecer vínculos coletivos e reconstruir a confiança na política como instrumento de transformação. É dessa dinâmica social, enraizada e mobilizada, que pode emergir uma nova correlação de forças capaz de transbordar para as instituições e abrir caminho para as mudanças estruturais que o Brasil precisa.
A história brasileira demonstra que avanços democráticos e sociais sempre estiveram associados à capacidade de organização do povo, à presença ativa nas ruas e à disputa de consciência na sociedade. É na mobilização popular que se constrói a legitimidade necessária para enfrentar privilégios, deslocar consensos e viabilizar mudanças mais profundas. Sem povo organizado, não há reforma estrutural possível. E é exatamente aí que emerge a necessidade de um novo ciclo de reformas.
A reforma política ocupa lugar central nesse processo. É preciso enfrentar o poder excessivo do dinheiro nas eleições, fortalecer os partidos enquanto instrumentos programáticos, ampliar mecanismos de participação popular e reduzir a fragmentação que compromete a governabilidade democrática. Mas essa agenda precisa ir além.
É necessário também reequilibrar o sistema de funcionamento do Estado brasileiro, enfrentando distorções como o atual modelo de execução das emendas parlamentares. Acabar com a lógica que transformou parte significativa do orçamento público em instrumento de negociação fragmentada não é apenas uma medida administrativa, mas uma condição para recuperar a capacidade de planejamento do Estado e recolocar o interesse público no centro das decisões.
Da mesma forma, é fundamental avançar em reformas que articulem desenvolvimento econômico, soberania nacional e justiça social. A reconstrução iniciada pelo governo Lula aponta caminhos importantes, mas o próximo período exigirá maior profundidade nas transformações.
Nesse sentido, a reeleição do presidente em 2026 é mais que estratégica, é vital. Não se trata apenas de continuidade administrativa, mas da possibilidade concreta de consolidar um ciclo mais avançado de mudanças estruturais, capaz de reposicionar o Brasil no cenário internacional e, sobretudo, de melhorar de forma duradoura as condições de vida do povo brasileiro.
Mas essa travessia não será automática. Ela dependerá da capacidade de organização política, de mobilização social e de construção de uma maioria consciente e ativa na sociedade. Cada militante, cada dirigente, cada apoiador terá papel decisivo nesse processo.
A derrota de Jorge Messias, portanto, deve ser compreendida como um alerta. Um alerta de que não há atalhos para quem ousa enfrentar a lógica do sistema. Mas também um alerta de que os limites não estão apenas fora, mas também atravessam a estratégia adotada.
A estratégia de governabilidade baseada na ampliação de alianças e na construção de consensos teve papel importante em ciclos anteriores e foi fundamental para viabilizar avanços significativos e humanitários para o Brasil. No entanto, o contexto atual coloca novos desafios, que exigem atualização e aprofundamento dessa estratégia. A defesa da democracia diante do avanço da extrema direita segue sendo central, mas precisa estar articulada a um enfrentamento mais consistente das desigualdades estruturais produzidas pelo neoliberalismo.
Isso implica avançar para além dos limites impostos pela lógica da austeridade e fortalecer um projeto de desenvolvimento que combine crescimento, distribuição de renda e soberania. Também exige enfrentar, com maior centralidade, temas como o sistema de juros e a dinâmica rentista, que impactam diretamente a capacidade de investimento do Estado e o financiamento de políticas públicas. Ao mesmo tempo, é fundamental incorporar de forma mais estratégica a disputa contemporânea nas redes sociais e nos ambientes mediados por algoritmos, ampliando a capacidade de diálogo com a sociedade e, especialmente, com a juventude.
Mais do que responder ao presente, trata-se de afirmar com nitidez um horizonte de futuro. Um projeto de país que dialogue com as novas demandas sociais, enfrente as desigualdades e seja capaz de mobilizar amplos setores da sociedade em torno de transformações estruturais. Um projeto que deixe claro que não somos a expressão do sistema tal como ele está organizado hoje.
Não somos a defesa da concentração de riqueza, da exclusão social e da lógica rentista que limita o desenvolvimento do país. Ao contrário, somos a força política comprometida em transformar essas estruturas, ampliar direitos e construir um novo padrão de desenvolvimento, mais justo, democrático e soberano.
É essa diferenciação nítida, acompanhada de propostas concretas e capacidade de mobilização social, que pode reconectar a política com a esperança e afirmar um caminho de futuro para o Brasil.
Por isso, o alerta é duplo: não basta vencer eleições. É preciso transformar as estruturas que limitam a própria democracia. E, sobretudo, é preciso elevar o horizonte do possível. A lição está posta: ou avançamos na transformação do sistema político e na construção de uma nova correlação de forças, com ambição histórica e capacidade de enfrentamento, ou permaneceremos diante de um cenário em que o Congresso segue travando as mudanças que o país precisa. A história não está dada. Ela será decidida, mais uma vez, pela capacidade do povo brasileiro de se organizar, lutar e construir o seu próprio futuro.
No tempo das encruzilhadas, é preciso apontar caminhos. Lula não é apenas um nome, é a expressão de um projeto que ousou colocar o povo no centro da história e o único que pode, mais uma vez, abrir caminho para um novo ciclo de esperança. Mas nenhum projeto transformador se sustenta sozinho diante de um Congresso que, em sua maioria, ainda responde a interesses distantes da vida real do povo brasileiro. Por isso, a tarefa do nosso tempo é maior: é reconstruir a política como ação coletiva, afirmar um caminho que enfrente as desigualdades e supere os limites do modelo neoliberal, e mobilizar, nas ruas, nas redes e nos territórios, uma maioria viva e consciente. Porque o futuro não será concedido, ele será conquistado!
(*) Secretária adjunta de Comunicação do PT nacional, membro da Direção Executiva Nacional do PT e Doutoranda em Educação pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro – UniRio

