O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que é candidato a um quarto mandato porque acredita que é necessário dar um “salto de qualidade no Brasil”. “Eu me pergunto toda noite: por que que eu preciso de um quarto mandato? […] Porque eu acho que nós temos que dar um salto de qualidade no Brasil. Eu agora quero levar o Brasil ao padrão dos países altamente desenvolvidos. E começa pela educação”, declarou o presidente em entrevista aos podcasts Não Inviabilize e As Cunhãs nesta sexta-feira, 14.
Lula se comprometeu a terminar o próximo mandato “com todo o país tendo escola em tempo integral”, e pediu desculpas por não ter colocado isso como prioridade em seu “primeiro dia de mandato”. Para ele, a medida terá impactos no acesso das crianças à cultura e outros conhecimentos desde cedo, defendendo a escola como um espaço para também se trabalhar temas como igualdade, combate à violência contra a mulher e educação ambiental.
O presidente insistiu que a soberania, a defesa da educação, dos recursos naturais e da ciência e tecnologia serão prioridades de um próximo governo, se for reeleito. Para o presidente, essas são áreas cruciais para aproximar o Brasil do “padrão dos países altamente desenvolvidos”.
“A segunda coisa que eu quero fazer é colocar a questão da soberania e da defesa nacional no topo. Porque o mundo está muito nervoso, tem muita encrenca no mundo e o Brasil tem muitos minerais críticos e terras raras”, afirmou.
Ao fazer uma longa retrospectiva de seus três mandatos e do tempo em que ficou preso injustamente, Lula deixou claro, mais uma vez, seu desejo genuíno de melhorar a vida das pessoas, sobretudo dos mais vulneráveis.
“A gente tem que compreender: governar não é você fazer uma coisa achando que o povo vai te pagar com o voto. Não é assim que funciona e eu não trabalho assim. Eu quero que o povo aprenda e entenda por que que as coisas têm que acontecer para ele.”
Legado de três mandatos
Enquanto explicava sua decisão de disputar um quarto mandato, o presidente citou diversos feitos de suas três gestões, como a expansão das universidades e dos institutos federais, a criação de programas como Pé-de-Meia, Brasil Sorridente e Minha Casa, Minha Vida.
Também relembrou a retirada do Brasil do mapa da fome duas vezes e a realização de obras históricas, como a transposição do Rio São Francisco.
O combate à fome é uma agenda que, para Lula, se mistura à sua própria história. “Sabe quando é que eu fui comer pão pela primeira vez na minha vida? Com sete anos de idade. Eu comia o quê? Farinha e café”, contou, reafirmando seu compromisso com a garantia de segurança alimentar.
Lembrando Paulo Freire, Lula disse que, além de dar prioridade à educação, é preciso também se preocupar com o acesso a alimentação de qualidade e moradia a todos os estudantes, “porque de bucho cheio todo mundo é inteligente, […] mas com fome, ninguém fica nada”.
Inocência na Lava-Jato e Lulinha
Lula se emocionou ao relembrar sua trajetória política, e destacou os 580 dias em que ficou preso na Polícia Federal, em Curitiba, como parte da história de seu terceiro mandato. O presidente afirmou que atravessou o período convencido de que conseguiria provar sua inocência e de que, depois de tudo, tentaria voltar a ocupar a Presidência da República.
“Eu estava tão convicto da minha inocência, eu estava tão convicto da canalhice que fizeram comigo, do juiz e dos procuradores, que eu estava apenas lá, esperando.”
Para ele, a volta à Presidência com o reconhecimento da população representa uma das maiores felicidades de sua história. “Eu acho que não tem gratificação maior para um ser humano do que o reconhecimento do seu povo de que você era inocente”, declarou.
Lula afirmou que essa história é exemplo para seu filho, Fábio Luís, que atualmente enfrenta investigações no âmbito das fraudes no INSS, sem que nenhuma prova contra ele tenha sido apresentada. No entanto, o presidente, mais uma vez, ressaltou o seu compromisso com a independência da Polícia Federal e das autoridades e defendeu a continuidade das investigações.
“Meu filho sabe o que eu passei na vida, viu a mãe dele morrer [Marisa Letícia] por conta da Lava-Jato. Ele sabe que não pode fazer nada errado. Ele jura por tudo que não tem nada a ver com isso, e eu acredito nele. Mas já disse aos advogados: ninguém vai pedir fechamento de processo do meu filho. Eu quero que ele seja investigado. Se ele é inocente, vá à luta; se for culpado, pague. Eu estou muito tranquilo”, declarou o presidente.
Lula relembrou que desde o seu primeiro mandato são divulgadas mentiras tentando relacionar seu filho a esquemas de corrupção. Disse acreditar que Fábio, como ele, enfrentará os acusadores de cabeça erguida: “As únicas coisas que eu tenho para enfrentar eles são a minha inocência, o meu caráter e a minha altivez. Eu aprendi isso com uma mulher analfabeta chamada Dona Lindu” – sua mãe.
Ciência Sem Fronteiras
O presidente também afirmou que vai recriar o programa de intercâmbio acadêmico Ciência Sem Fronteiras, criado no governo da ex-presidente Dilma Rousseff e extinto por Michel Temer. “Nós queremos recriar isso para determinadas áreas, como inteligência artificial, matemática, engenharia… Precisamos fazer coisas para preparar este país para a revolução tecnológica que nós temos que fazer”, declarou.
Lula celebrou que o Brasil tenha hoje 25 milhões de trabalhadores com diploma universitário, em comparação com os 5 milhões de quando ele assumiu o governo pela primeira vez, em 2003. “São 5 vezes mais! E eu quero chegar a 10 vezes mais!”, afirmou.
“Eu tenho orgulho porque eu estou fazendo tudo que a elite brasileira devia ter feito e não fez. A elite brasileira queria que o país fosse governado para 35% da população”, concluiu.
Violência contra a mulher
O presidente celebrou as 11 leis já aprovadas em 8 meses desde a criação do Pacto Contra o Feminicídio: “Já fizemos coisas extraordinárias que estão funcionando.” Contudo, reforçou que a questão vai além da punição e demanda uma mudança profunda na sociedade, que passa pela participação dos homens, “porque eles é que são violentos”, e pela educação.
“O que vai resolver definitivamente é a gente colocar isso no currículo escolar, é uma coisa educacional. A gente vai transformar isso numa coisa que vai dar resultado”, declarou Lula. Ele também aconselhou as meninas que estudem para ter uma profissão e ser independentes.
O presidente também voltou a dizer que não quer o voto de agressores: “Eu não quero voto de homem que bate em mulher! Pode votar neles, a mim não interessa.”
Bets e desestruturação social
Lula afirmou que, se depender de sua “vontade pessoal”, as casas de apostas on-line vão “acabar”. “Se ninguém me mostrar uma razão social para as bets continuarem, nós vamos acabar com elas”, reforçou.
Ele disse reconhecer que aumentar as restrições às apostas será uma tarefa difícil de negociar com o Congresso e enfrentar os lobistas das plataformas. “Mas é uma briga que nós vamos ter que fazer, porque a sociedade não pode ser desestruturada por conta de uma coisa que a gente pode controlar”, concluiu.
Segurança pública
O presidente reafirmou sua intenção de criar o Ministério da Segurança Pública. Disse que era um objetivo de seu terceiro mandato, mas que não foi possível ao assumi-lo, porque Flávio Dino, primeiro ocupante da pasta em 2023, “achou imprudente criar o ministério sem ter previsão orçamentária e sem estar previsto na Constituição qualquer participação nossa na segurança pública”.
Por isso, o governo passou a condicionar a criação do órgão à aprovação da PEC da Segurança Pública, que redefine as atribuições da União, dos estados e dos municípios nessa área e estabelece garantias orçamentárias para o tema.
“O Senado está com essa PEC. Na hora que o presidente Davi Alcolumbre quiser colocar em votação, ela sendo votada, vai sair o Ministério da Segurança Pública”, prometeu.
Futuro da esquerda e líderes nacionais
Questionado sobre quem assumirá a liderança do campo progressista a partir de 2030, quando ele não for mais candidato, Lula disse que há vários bons quadros na esquerda, mas que eles ainda são figuras locais e precisam “percorrer o país e falar com o povo”. Para se tornar uma liderança nacional, disse Lula, a pessoa precisa ser escolhida.
O presidente citou os petistas Camilo Santana (CE), Rui Costa (BA), Rafael Fonteles (PI) e Fernando Haddad (SP), e também nomes de outros partidos, como João Campos (PSB-PE) e Guilherme Boulos (PSOL-SP), como lideranças do campo democrático progressista que podem se fortalecer nos próximos anos.
“O Brasil historicamente não tem o hábito de criar lideranças nacionais; as lideranças costumam ser regionais. Liderança nacional recente fomos eu e o Bolsonaro. Mas temos muitos quadros excelentes surgindo. […] O que eu digo a eles é: precisam sair do gueto e viajar pelo Brasil. Percorrer o país, falar com o povo. O líder não se impõe, ele é escolhido pelos liderados por sua sabedoria, serenidade, caráter e capacidade de compartilhar e ter afeto”, declarou.
“Causo” do palito com Fidel
O presidente lembrou no começo da entrevista que o ex-presidente cubano Fidel Castro, que morreu em 2016, completaria 100 anos na última quinta-feira, 13, e contou um episódio curioso que ocorreu durante uma visita dele.
“Em homenagem ao Fidel, eu vou contar um causo. Em 1989, o Fidel veio ao Brasil. Eu tinha perdido as eleições para o Collor. O Fidel veio na posse do Collor, ficou um dia e resolveu ir almoçar em São Bernardo”, contou Lula. Ele diz que comprou “tudo que era possível” em um restaurante famoso da cidade para receber o cubano em sua casa.
“E tinha um bife a rolê. Sabe aquele bife que vem com palito? […] Daqui a pouco, eu vejo o Fidel colocando o bife inteiro na boca e se engasgando com o palito. Ele deu uma engasgada, tirou o palito, mas foi uma coisa assustadora, porque você imagina se acontecesse uma desgraça, se o Fidel tivesse morrido na minha casa?”, contou Lula.
Apesar do susto, segundo ele, o líder da Revolução Cubana “riu muito”: “Ele deu uma risada. Os americanos pelejando para matar o Fidel e ele ia morrer com um palito.”

