A proposta de instalação da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do Banco Master ganhou tração nas redes sociais depois da nova fase da Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal (PF), na semana passada, para apurar o envolvimento do senador Ciro Nogueira (PP), ex-ministro-chefe da Casa Civil do Governo Jair Bolsonaro, na organização criminosa que lesou o sistema financeiro. Evidências apontam que ele recebia mesadas de R$ 500 mil de Daniel Vorcaro, ex-dono do Master, preso preventivamente desde março. Até a operação da PF, Ciro Nogueira era tido como o “vice dos sonhos” pelo senador Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato à Presidência da República.
A Bancada do Partido dos Trabalhadores (PT) na Câmara dos Deputados assinou o requerimento de criação da CPMI apresentado pelas deputadas federais Fernanda Melchionna (PSOL-RS) e Heloísa Helena (Rede-RJ). Para o PT, o elo de Vorcaro com o bolsonarismo, o que passou a ser chamado de escândalo “BolsoMaster”, está cada vez mais evidente e precisa ser apurado.
Além de Ciro Nogueira, há ainda outras figuras sob investigação que sustentam o elo entre o bolsonarismo e o escândalo Master. São elas: o pastor evangélico Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro e fundador da Igreja Batista da Lagoinha; Ibaneis Rocha (MDB), ex-governador do Distrito Federal (DF); Roberto Campos Neto, ex-presidente do Banco Central (BC); e Cláudio Castro (PL), ex-governador do Rio de Janeiro.
Banco Master e o bolsonarismo
1) Ciro Nogueira e a ligação direta com Bolsonaro
Homem de confiança de Jair Bolsonaro nos momentos mais delicados do governo do ex-presidente, Ciro Nogueira assumiu a Casa Civil em 2021 com a missão de garantir sustentação política e consolidar a aliança com o Centrão. Desde então, tornou-se um dos principais defensores do bolsonarismo no Congresso e passou a ser apontado publicamente como nome estratégico para compor uma eventual chapa presidencial encabeçada por Flávio Bolsonaro em 2026. O fato de o senador agora figurar no centro das investigações representa um duro golpe na tentativa da extrema direita de se desvincular do escândalo.
As suspeitas de que o senador recebia pagamentos mensais de R$ 500 mil de Daniel Vorcaro reforçam a conexão entre o escândalo financeiro e o núcleo político bolsonarista.
O avanço da PF sobre Ciro também produziu efeitos imediatos no tabuleiro da extrema direita. A operação atingiu justamente um nome que vinha sendo tratado como peça de articulação nacional do bolsonarismo para 2026, com trânsito no Centrão e relação direta com a família Bolsonaro. A crise, portanto, não se limita a uma suspeita individual: ela alcança um dos principais operadores políticos do governo anterior e amplia a pressão pela instalação da CPMI do Banco Master.
2) Fabiano Zettel, doador de campanha de Bolsonaro
Assim como Vorcaro, o pastor evangélico Fabiano Zettel está preso desde março. Segundo a PF, ele recebeu R$ 190,2 milhões em lucros e dividendos do Fundo de Investimento em Participações (FIP) Kairós entre 2023 e 2024. O fundo é apontado como parte de uma estrutura de lavagem de dinheiro ligada à organização criminosa associada ao Banco Master. Os valores foram declarados pelo pastor à Receita Federal (RF) e obtidos pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Crime Organizado. Em 2022, Zettel doou R$ 3 milhões à campanha de Jair Bolsonaro à reeleição.
A presença de Zettel no caso reforça outra frente de conexão do escândalo com o bolsonarismo: o financiamento político. Além de ser ligado ao entorno de Vorcaro, o pastor aparece como doador milionário da campanha de Bolsonaro em 2022, o que coloca sob suspeita a origem e o circuito de recursos que transitaram entre estruturas financeiras investigadas e personagens próximos ao projeto de poder da extrema direita.
3) BRB, Ibaneis e os empréstimos de Flávio Bolsonaro
No Distrito Federal (DF), o ex-governador Ibaneis Rocha (MDB) tentou usar o Banco de Brasília (BRB) para comprar o Master. Vorcaro admitiu à PF tratativas diretas com Ibaneis. O BRB adquiriu, desde julho de 2024, mais de R$ 30 bilhões em carteiras de crédito do Master, muitas delas fraudulentas. Bolsonarista de primeira hora, o ex-governador é pré-candidato ao Senado pelo DF.
Além da tentativa de aquisição do Master, o BRB também se tornou conhecido por operações de crédito envolvendo Flávio Bolsonaro, o que reforça os laços entre o banco público do DF e o grupo político do ex-presidente.
A gravidade do caso aumentou depois que investigações apontaram que o BRB teria comprado carteiras de crédito fraudulentas do Banco Master, provocando forte impacto nas contas da instituição pública.
4) A autorização do Banco Central, com Roberto Campos Neto
Roberto Campos Neto, ex-presidente do Banco Central (BC), foi indicado à chefia da autarquia por Jair Bolsonaro. Foi ele quem autorizou a compra do Master por Vorcaro em 2019. Campos Neto também mantém relações estreitas com o governador de São Paulo e candidato à reeleição, Tarcísio de Freitas (Republicanos). Chamado a depor na CPI do Crime Organizado, o banqueiro nunca compareceu.
A autorização concedida pelo Banco Central foi decisiva para a ascensão de Daniel Vorcaro no sistema financeiro e hoje está sob escrutínio das investigações.
No Senado, a CPI do Crime Organizado aprovou requerimento para ouvir Roberto Campos Neto sobre o caso. O próprio requerimento lembra que, em 2019, o Banco Central autorizou Vorcaro a assumir o controle do antigo Banco Máxima, depois transformado em Banco Master, e cita a Operação Compliance Zero, que investiga se servidores da autarquia agiram ilegalmente para proteger interesses da instituição financeira.
5) Os desvios no Rio e o ex-governador Claudio Castro
O ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro (PL) está no centro de uma investigação envolvendo o Master e o fundo de pensão dos servidores estaduais, o Rioprevidência. Investigações e denúncias apontam que a administração de Castro destinou recursos significativos para a instituição financeira, que acabou liquidada pelo Banco Central em novembro de 2025. Recentemente, o bolsonarista foi declarado inelegível por oito anos pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
A Polícia Federal deflagrou a Operação Barco de Papel para apurar aplicações do Rioprevidência em títulos do Banco Master, com suspeita de operações financeiras irregulares que expuseram o patrimônio de aposentadorias e pensões dos servidores do Rio a risco elevado. A investigação mirou aportes de R$ 970 milhões entre novembro de 2023 e julho de 2024; já o TCE apontou exposição ainda maior, de R$ 2,6 bilhões em títulos ou fundos ligados ao conglomerado Master.

