A história de Dark Horse já não cabe mais na categoria de “filme sobre Bolsonaro”. O que surgiu como uma cinebiografia do ex-presidente se transformou em uma teia de suspeitas envolvendo políticos da extrema direita, empresários, uma produtora sem trajetória compatível com uma superprodução internacional, entidades beneficiadas por dinheiro público, contrato milionário de Wi-Fi em São Paulo, emendas parlamentares e uma rota financeira que atravessa os Estados Unidos.
No centro do mapa está a própria obra: Dark Horse, antes chamada de Capitão do Povo, uma produção dedicada a reconstruir a trajetória de Jair Bolsonaro sob uma narrativa favorável ao bolsonarismo. Em torno dela, quatro núcleos passam a se sobrepor: o núcleo do filme, o ecossistema de Karina Gama, o núcleo financeiro e a rede de Eduardo Bolsonaro nos EUA. A existência desses núcleos foi explicitada e fundamentada na notícia-crime que o PT protocolou no Supremo Tribunal Federal, Ministério Público Eleitoral e na Polícia Federal.
Dark Horse é apresentado como uma cinebiografia de Jair Bolsonaro, com direção de Cyrus Nowrasteh e protagonismo do ator Jim Caviezel. Mas, no mapa das suspeitas, o filme funciona como ponto de convergência: é para ele que chegam as linhas da produção, da produtora, do financiamento e da estrutura internacional.
A narrativa bolsnarista reconstrói episódios da campanha de 2018, a facada em Juiz de Fora (MG) e a ascensão política de Bolsonaro. Para a disputa eleitoral de 2026, um filme com essa carga não seria apenas entretenimento: poderia funcionar como peça eleitoral do grupo que tenta voltar ao poder.
O bolsonarismo tenta vender Dark Horse como iniciativa privada e cultural. Mas a escala dos valores, o calendário político, a presença de integrantes da família Bolsonaro e as conexões empresariais em torno do projeto indicam algo maior: uma operação de comunicação política com potencial de interferir no ambiente eleitoral.
Mário Frias, roteiro e política
O primeiro núcleo é o da concepção da obra. Mário Frias aparece como uma figura-chave: ex-secretário especial de Cultura do Governo Bolsonaro, deputado federal pelo PL e um dos nomes ligados ao roteiro e à produção. Ou seja, não se trata de um profissional do audiovisual distante da política. Trata-se de um aliado direto do grupo.
Frias não aparece apenas como apoiador ideológico. Ele está ligado à origem criativa da obra, à narrativa sobre Bolsonaro e à articulação com a produtora. É a primeira linha do mapa: do núcleo político-cultural do bolsonarismo até o centro da produção.
A conexão entre Frias e Karina é uma das chaves do caso. De um lado, Frias, parlamentar do PL e autor da narrativa bolsonarista. Do outro, Karina Ferreira da Gama, empresária ligada à Go Up Entertainment, produtora responsável por Dark Horse, e a entidades que aparecem em diferentes frentes de investigação. A relação entre os dois ajuda a explicar como o filme sai do campo da propaganda política e entra em uma rede de CNPJs, contratos e recursos públicos.
A produtora e as entidades ao redor
O segundo núcleo é o ecossistema de Karina Gama. Ele reúne a Go Up Entertainment, o Instituto Conhecer Brasil, a Academia Nacional de Cultura e estruturas como Conhecer Brasil/GO7. No mapa, esse bloco aparece como a ponte entre a produção do filme e uma rede de entidades que receberam ou tentaram receber recursos públicos.
A Go Up é a produtora que aparece ligada a Dark Horse. Mas, ao redor dela, surgem entidades associadas a Karina em contratos, projetos culturais e emendas. É aí que o caso muda de escala: a suspeita deixa de ser apenas sobre financiamento privado e passa a envolver dinheiro público, também com uso de emendas parlamentares.
Uma das frentes mais graves é o contrato do Instituto Conhecer Brasil com a Prefeitura de São Paulo no programa Wi-Fi Livre SP. A investigação apura irregularidades em um contrato de R$ 108 milhões para instalação e manutenção de pontos de internet gratuita em comunidades. A operação mira notas fiscais, execução do serviço e possíveis desvios.
Entram nesse bloco, ainda, as emendas parlamentares destinadas a entidades ligadas à rede de Karina. Parte dessas emendas saiu de parlamentares do campo bolsonarista. A coincidência política dos destinadores, a proximidade com a produtora de Dark Horse e a falta de clareza sobre a execução de alguns projetos reforçam a necessidade de seguir o dinheiro até o fim.
Núcleo financeiro: Flávio, Vorcaro e Banco Master
O terceiro núcleo é o financeiro. Aqui aparecem o senador Flávio Bolsonaro (PL), o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, o Banco Master, a Entre Investimentos e a rota de recursos que teria passado pelo fundo Havengate.
Reportagens revelaram mensagens e documentos indicando que Flávio Bolsonaro negociou com Daniel Vorcaro valores milionários para bancar Dark Horse. O valor total negociado teria chegado a US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões à época. Parte dos recursos efetivamente movimentados teria alcançado US$ 10,6 milhões, em torno de R$ 61 milhões.
A dimensão dos valores é decisiva. Não se trata de uma vaquinha, de um patrocínio comum ou de apoio informal. São quantias capazes de financiar uma superprodução ou, se desviadas de sua finalidade declarada, uma estrutura paralela de promoção política.
A dúvida cresce porque reportagens sobre os bastidores da produção apontaram dificuldades, cortes, problemas trabalhistas, restrições operacionais e suspeitas de irregularidades. Se havia tanto dinheiro, por que a produção teria enfrentado sinais de aperto? Se o orçamento era tão alto, onde estão os contratos, os registros, a estrutura de distribuição, os seguros, as licenças e os documentos compatíveis com uma operação internacional dessa magnitude?
A rota Vorcaro-Havengate
A quarta linha do mapa é uma das mais sensíveis: a rota Vorcaro–Havengate. Ela conecta o núcleo financeiro à rede de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.
Segundo as apurações jornalísticas, parte do dinheiro relacionado ao filme teria sido transferida por estruturas associadas à Entre Investimentos para o Havengate Development Fund LP, no Texas. O fundo aparece ligado a Paulo Calixto, advogado próximo a Eduardo Bolsonaro e nome recorrente nas estruturas empresariais citadas nas reportagens.
Essa rota desloca a pergunta central. Não basta saber se Daniel Vorcaro financiou ou tentou financiar o filme. É preciso saber quem controlou os recursos nos Estados Unidos, quem eram os beneficiários finais, quais contratos justificaram as transferências e se a estrutura americana serviu apenas à produção audiovisual ou também a outros interesses políticos e patrimoniais do bolsonarismo.
A linha “rota Vorcaro–Havengate” mostra justamente isso: o dinheiro não aparece como uma seta simples entre um investidor e uma produtora. Ele passa por intermediários, fundos, empresas e operadores que precisam ser identificados com precisão.
Rede de Eduardo Bolsonaro nos EUA
O quarto núcleo é a rede de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. Ela reúne Braz Global, Instituto Liberdade, Paulo Generoso, André Porciúncula, Paulo Calixto, Havengate e estruturas como Mercury/Calixsan.
Eduardo aparece nas reportagens como personagem relevante na articulação internacional de Dark Horse. Documentos apontam sua presença em contratos e tratativas, inclusive com poder sobre decisões ligadas ao projeto. A rede nos EUA também é importante porque Eduardo passou a atuar politicamente a partir daquele país, em contato com setores da extrema direita internacional.
A suspeita não é apenas que Eduardo tenha apoiado uma obra sobre o pai. A questão é se a rede americana serviu como estrutura para captar, receber, administrar ou redirecionar recursos sob a justificativa formal de financiar Dark Horse.

