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BolsoMaster: documentos reforçam suspeitas sobre dinheiro para filme de Bolsonaro

Planilhas, contratos e comprovantes bancários revelados pelo Intercept expõem novos detalhes do financiamento de Dark Horse

Foto: Arte: Intercept Brasil

Novas revelações sobre o financiamento do filme “Dark Horse” podem complicar ainda mais a situação da família Bolsonaro. Nesta terça-feira, 9, o portal The Intercept Brasil divulgou planilhas, contratos, comprovantes bancários e registros financeiros que permitem compreender parte do caminho percorrido pelo dinheiro supostamente destinado a bancar a produção sobre a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Há pouco menos de um mês, mensagens obtidas pelo mesmo Intercept expuseram o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República, pedindo R$ 134 milhões ao banqueiro Daniel Vorcaro, ex-dono do Master, preso preventivamente desde março. Após as conversas se tornarem públicas, os argumentos apresentados pelo senador para o episódio não convenceram nem seus próprios aliados.

Para piorar, as mais recentes evidências confirmam o teor dos diálogos entre Flávio e Vorcaro. O primeiro documento é uma planilha intitulada “Funding Schedule”, descrita nas conversas como o cronograma de financiamento de “Dark Horse”. Ela detalha tanto os valores previstos quanto os efetivamente recebidos pela produção do filme. No arquivo, consta uma operação de quase US$ 24 milhões, o equivalente a R$ 134 milhões na cotação da época.

O cronograma previa 14 pagamentos entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026. As duas primeiras parcelas, de US$ 2 milhões cada, estavam agendadas para 20 e 25 de janeiro de 2025, mas foram efetivamente quitadas em 13 de fevereiro e em 24 de março, conforme a planilha. As outras 12 parcelas, fixadas em US$ 1,66 milhão de dólares cada, totalizaram US$ 10,6 bilhões.

A tabela de pagamentos foi remetida pelo empresário Thiago Miranda, em 7 de agosto de 2025, ao dono do Master. “Duas [parcelas] em atraso e está para vencer a terceira agora em agosto”, esclarece Miranda. Vorcaro lhe responde horas depois: “Segunda fazemos as duas”.

Zettel e o caminho do dinheiro 

O Intercept também trouxe conversas entre Vorcaro e seu cunhado, Fabiano Zettel, pastor evangélico preso pela Polícia Federal (PF) por suspeita de envolvimento no escândalo “BolsoMaster”. O banqueiro encaminhou a Zettel cronograma semelhante em 12 março de 2025. Vorcaro chega a fazer recomendações ao pastor: “Precisa me ajudar controlae [sic] isso” e “tem que pagar a segunda e a terceira”.

“Vou pra cima do Mineiro. Passei o fluxo pra ele. Achei que ele tava fazendo”, responde Zettel. O “Mineiro” a que ele se refere seria Antônio Carlos Freixo Júnior, executivo ligado à Entre Investimentos e Participações, empresa que fez a transferência bancária.

 

Em fevereiro de 2025, de acordo com registros obtidos pelo Intercept, Zettel perguntou a Vorcaro se poderia “pedir pro Minas” logo após o banqueiro sugerir operação “via entre”. O número de Freixo foi salvo na agenda de contatos de Vorcaro como “Mineiro”.

Fundo Havengate

O Intercept divulgou ainda o comprovante da primeira transferência internacional de toda essa operação, emitido pelo sistema Swift e datado de 13 de fevereiro de 2025. O documento atesta a remessa de US$ 2 milhões ao Havengate Development Fund LP, controlado por Paulo Calixto, advogado de imigração do ex-deputado Eduardo Bolsonaro.

Segundo o comprovante, a operação teve como remetente a Entre Investimentos e Participações Ltda. O pagamento foi processado pelo Banco BS2 e destinado a uma conta do Havengate vinculada ao JPMorgan Chase Bank. O documento contém os códigos de identificação da transferência, os dados das instituições envolvidas, as referências da operação e os registros de liquidação exigidos pelo sistema financeiro internacional.

O comprovante consta de uma série de mensagens trocadas entre Zettel e Vorcaro sobre as dificuldades para concluir a operação. Em 5 de fevereiro, Zettel diz ao banqueiro que o câmbio do Master estava criando obstáculos para a transferência. Ambos deliberaram alternativas para viabilizar o envio dos recursos ao exterior e acabam decidindo recorrer à estrutura da Entre Investimentos e Participações Ltda.

Menos de dez dias depois, em 14 de fevereiro, Zettel encaminha a Vorcaro o comprovante emitido pela rede Swift acompanhado de uma única palavra: “Filme!”. A mensagem foi enviada um dia após a transferência de US$ 2 milhões ao fundo Havengate, exatamente a operação que vinha sendo discutida nas conversas anteriores.

Eduardo Bolsonaro mudou-se para o Texas, nos Estados Unidos (EUA), em março de 2025, onde tem agido para pleitear tarifas sobre exportações e sanções contra autoridades brasileiras. A PF suspeita de que o dinheiro pedido por Flávio no intuito de financiar o “Dark Horse” seja, na verdade, para bancar o irmão nos EUA.