Uma rede extremista investigada pela Polícia Civil do Distrito Federal planejava invadir e explodir prédios públicos na Esplanada dos Ministérios durante o período eleitoral. O Palácio do Planalto, sede do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, era o principal alvo. O local de um possível debate presidencial no segundo turno também aparecia entre os ataques discutidos.
Os detalhes do caso foram veiculados pelo programa Fantástico, da TV Globo, no domingo, 9. A reportagem teve acesso às conversas dos investigados e a um relatório produzido pelo Laboratório de Operações Cibernéticas do Ministério da Justiça e Segurança Pública.
O material mostra que não se tratava de bravata, provocação ou simples excesso de linguagem na internet. Os investigados compartilhavam mapas, plantas arquitetônicas e modelos tridimensionais de prédios públicos, avaliavam rotas de entrada e saída, calculavam a quantidade e o custo dos explosivos e procuravam integrantes dispostos a matar.
“Não eram práticas inocentes. O que estava ali sendo engendrado eram atentados sérios”, afirmou o ministro da Justiça e Segurança Pública, Wellington César Lima e Silva.
Ataques seriam realizados nas eleições
As conversas indicavam que as ações poderiam ocorrer em outubro, durante as eleições de 2026. Além do Planalto, o grupo armazenava informações sobre o Congresso Nacional, o Supremo Tribunal Federal (STF) e diferentes ministérios.
Uma das mensagens analisadas pelos investigadores mencionava explicitamente a intenção de explodir o edifício no qual seria realizado um debate entre os candidatos que avançassem ao segundo turno da disputa presidencial.
De acordo com a investigação, o objetivo não era apenas destruir prédios. A intenção era produzir, a partir de Brasília, uma mensagem violenta e antidemocrática para todo o país, atingindo símbolos da República e espaços centrais do processo eleitoral.
Grupo reunia mais de 600 pessoas
Os investigadores identificaram dois grupos utilizados pelos extremistas no Telegram. O primeiro reunia mais de 600 integrantes. As pessoas consideradas mais radicalizadas eram então levadas a um núcleo restrito, formado por 46 participantes.
Nesse segundo ambiente, circulavam instruções para fabricar explosivos e coquetéis molotov, além de conteúdos neonazistas, antissemitas e misóginos. O relatório do Ministério da Justiça classificou o material como de “elevado grau de periculosidade”.
Segundo o Ministério da Justiça e Segurança Pública, a rede também disseminava discursos de ódio contra mulheres em posições de autoridade e utilizava os ambientes digitais para recrutar novos integrantes.
O planejamento foi interrompido pela Operação Rede Interrompida, deflagrada em 4 de agosto pela Polícia Civil do Distrito Federal. Oito mandados de busca e apreensão foram cumpridos em São Paulo, Paraná, Pernambuco, Rio Grande do Sul e Santa Catarina.
A ação contou com o apoio das polícias civis dos estados, da Agência Brasileira de Inteligência, do Ministério da Justiça e do Ministério Público de Santa Catarina (MPSC). De acordo com o MPSC, a investigação apura ações com potencial risco à ordem pública e às instituições democráticas.
Computadores, celulares e outros materiais apreendidos serão submetidos à perícia para identificar novos envolvidos, possíveis conexões e o estágio de preparação dos ataques. A definição final dos crimes dependerá da conclusão do inquérito.
Violência não pode ser normalizada
A descoberta precisa ser tratada com toda a gravidade que carrega. Não há equivalência entre divergência política e planejamento de atentados. Compartilhar plantas de prédios, fabricar explosivos, recrutar pessoas para matar e atacar o processo eleitoral não é manifestação de opinião: é uma ameaça concreta à democracia e à vida.
O Brasil já conhece as consequências da tolerância com a radicalização antidemocrática. Em 8 de janeiro de 2023, as sedes dos Três Poderes foram invadidas e depredadas por golpistas que pretendiam romper a ordem constitucional. Em novembro de 2024, novas explosões atingiram a Praça dos Três Poderes, em frente ao STF e no estacionamento da Câmara.
Embora não haja indicação de uma ligação direta entre esses diferentes episódios e o grupo agora investigado, a repetição de planos e ações violentas demonstra que a ameaça não desapareceu. Como alertou o Conselho Nacional dos Direitos Humanos, relativizar atos antidemocráticos e permitir a impunidade pode alimentar um ciclo de violência política.
O secretário nacional de Comunicação do PT, Éden Valadares, destacou a atuação das forças de segurança na identificação e responsabilização dos envolvidos e alertou para a necessidade de preservar as instituições democráticas diante de grupos que, segundo ele, já demonstraram disposição para transformar a radicalização política em ações violentas.
“Em um país onde a extrema direita fomenta o ódio há anos, onde militares das mais altas patentes e um ex-presidente da República foram acertadamente julgados e presos por tentativa de golpe, e onde o candidato de oposição, filho deste mesmo ex-presidente preso, segue fazendo apologia a saídas autoritárias e atacando as urnas, as eleições e as instituições democráticas, todo cuidado é pouco”.
“A democracia é um bem, um valor e uma instituição que deve ser preservada com muito empenho. Essas células terroristas, esses criminosos já mostraram que não ficam apenas no campo das ideias. Eles agem, atentam, executam crimes efetivos para desestabilizar e derrotar a democracia”, afirmou Valadares.
A atuação preventiva das forças de segurança evitou que o país descobrisse, depois de uma tragédia, até onde os investigados estavam dispostos a chegar. Agora, é indispensável avançar nas investigações, responsabilizar os envolvidos e enfrentar as redes que transformam ódio, misoginia e neonazismo em projetos de violência.
A democracia exige vigilância permanente. Como afirmou Lula após os ataques golpistas de 8 de janeiro: “Não há perdão para quem atenta contra a democracia”.