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‘Não podemos aceitar tratamento dado pelos EUA ao Brasil’, afirma Lula

Lula: "Há brasileiros fomentando essa briga na perspectiva de que se ele taxar a gente, ele vai prejudicar uma candidatura a presidente da República"

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou, nesta quarta-feira, 3, durante a abertura da reunião ministerial no Palácio do Planalto, que o Brasil não aceitará ser tratado como país subordinado por nenhuma potência estrangeira. “Nós somos muito grandes, temos muita história e não podemos aceitar o tratamento que os Estados Unidos deu ao Brasil esta semana”, disse. A fala ocorre após o governo norte-americano propor uma tarifa de 25% sobre bens importados, além de 12,5% por uma suposta falha na fiscalização de mercadorias produzidas com “trabalho forçado”.

Lula relatou ter ficado surpreso com a nova ofensiva norte-americana porque, em sua avaliação, a última reunião com Donald Trump havia aberto espaço para uma relação mais equilibrada. Lula disse que conversou por cerca de três horas com o presidente dos Estados Unidos, entregou documentos sobre temas de interesse do Brasil e propôs prazo de 30 dias para que ministros dos dois países avançassem nas negociações comerciais.

“Eu saí de lá convencido de que a gente estava estabelecendo uma nova lógica no relacionamento democrático e civilizado entre Brasil e Estados Unidos. E confesso a vocês que fui pego de surpres com a decisão deles”, disse.

O presidente lembrou que, desde a primeira manifestação pública de Trump sobre tarifas contra o país, o governo brasileiro buscou construir uma resposta baseada no diálogo, na diplomacia e na defesa da verdade.

“Ninguém pode dizer que o Brasil se negou a negociar com os Estados Unidos. [Tentamos negociar] desde o primeiro tuíte do presidente Trump, que é um comunicado avesso aquilo que a democracia e a civilidade exige, é que um presidente telefone pro outro ou um presidente manda uma carta oficial pro outro. Eu fiquei sabendo da taxação primeiro pelo Twitter”, disse.

O presidente também criticou o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio.

Esse Marco Rubio não gosta da América Latina e muito menos do Brasil. Ele é um latino-americano frustrado. Ele não sabe que esse país foi vítima de golpe em 1964 e naquele tempo articulado por embaixadores americanos no Brasil. Nós sabemos disso. Então, é importante que eles saibam que nós conhecemos a história”, afirmou.

Apesar das críticas, Lula reforçou que o Brasil não busca confronto. “Nós não queremos guerra. Queremos construir a narrativa verdadeira de uma relação que já dura 201 anos, que, portanto, é uma relação nova e que nós queremos fortalecer a nossa relação institucional com os Estados Unidos”, declarou.

Bolsonaristas contra o Brasil

Sem citar nomes, Lula criticou setores da extrema direita brasileira que, segundo ele, estimulam a crise com os Estados Unidos por cálculo eleitoral.

“O que é triste é que tem brasileiros, que eu não vou citar nome aqui, brasileiros fomentando essa briga na perspectiva de que se ele taxar a gente, ele vai prejudicar uma candidatura a presidente da República. O imbecil não percebe que quem é prejudicado é o povo, não é o Lula”, disse.

O presidente criticou a tentativa de usar uma punição econômica ao Brasil para obter vantagem política. “Pedir uma punição ao país na perspectiva de derrotar uma candidatura ou de levar vantagem é de uma grosseria que eu não posso encontrar outro nome”, afirmou.

E completou: “Em qualquer outro país do mundo, em qualquer outro momento histórico, isso seria chamado de traição da pátria. Isso seria chamado de traição da pátria”.

Lula voltou ao tema mais adiante e orientou ministros a defenderem publicamente a soberania brasileira. Segundo ele, não há disputa eleitoral que justifique agir contra os interesses nacionais.

“Estão tentando trair o Brasil com interesses mesquinhos, com interesses rasteiros de uma disputa eleitoral. Não há disputa eleitoral em qualquer país do mundo que possa dar valor a alguém que trai a pátria, alguém que é capaz de vender o seu país por interesses mesquinhos deles”, declarou.

ONU, paz e multilateralismo

Lula ampliou a crítica à relação entre Brasil e Estados Unidos para uma defesa do multilateralismo e da reforma das instituições internacionais. O presidente afirmou que não cabe a nenhum líder agir como autoridade suprema sobre outros países.

“Eu fui eleito pelo povo brasileiro. Eles têm que respeitar o voto do povo brasileiro. Eu não fui eleito imperador da América Latina e muito menos o Trump foi eleito imperador do mundo”, afirmou.

O presidente cobrou responsabilidade dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU (Estados Unidos, China, Rússia, França e Reino Unido) e questionou se o papel dessas potências é preservar a paz ou alimentar guerras.

“O que eu espero e estou implorando já há algum tempo é que os cinco membros do Conselho de Segurança da ONU […] tenham a capacidade de se reunir e discutir qual é o papel deles. Se é para manter a paz ou para fomentar a guerra”, afirmou.

Lula defendeu a ampliação do Conselho de Segurança, com a entrada de novos membros permanentes, incluindo países como Brasil, Alemanha, Japão e Índia, além de representantes da América Latina e da África.

“A geopolítica de 1945 não é a mesma de 2026. Se a ONU não está funcionando hoje, não é destruindo a ONU que a gente vai consertar o mundo. É fortalecendo a ONU”, destacou.

Entregas do governo

Lula também cobrou organização dos ministros para acelerar entregas do governo federal antes do período de restrições eleitorais. O presidente lembrou que, a partir de 3 de julho, o governo terá limitações para firmar convênios e inaugurar obras.

“Agora é entregar o que já foi pensado”, afirmou Lula, ao pedir que os ministérios concentrem esforços em concluir ações já planejadas.

O presidente também orientou ministros a coordenarem inaugurações e entregas com a Casa Civil, para garantir unidade na comunicação das ações do governo federal. Segundo Lula, é fundamental que a população saiba “quem é que fez, quanto custou, por que foi feito” e qual é a participação do governo federal em cada obra ou programa.

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