A desinformação e o ódio às mulheres: discursos que violentam e difamam
Segundo a OMS, esse tipo de violência é uma das crises de direitos humanos mais persistentes e negligenciadas do mundo, aponta Eliara Santana
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Por Eliara Santana (*)
“A internet se tornou um grande espaço de potencialização do ódio às mulheres no Brasil. Os mais variados formatos – discurso explícito de ódio nos grupos, memes que ridicularizam, vídeos ensinando como reagir se ela disser não, difamação nas redes – incitam e dão suporte a reações violentas e de desprezo contra o público feminino. A prática de violência contra as mulheres não é, de fato, uma novidade: de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), esse tipo de violência é uma das crises de direitos humanos mais persistentes e negligenciadas do mundo.
No entanto, o que pesquisas e estudos estão escancarando é o papel crucial do ambiente digital e sua estrutura de desinformação para potencializar essa violência. A internet foi transformada num espaço de cultivo, produção e disseminação do ódio às mulheres. As plataformas se tornaram espaços tóxicos que abrigam grupos masculinos tóxicos que se alimentam do desprezo pelas mulheres, da desumanização do gênero feminino, da construção de uma cultura de eliminação e ódio, muito ódio.
Segundo pesquisa desenvolvida pelo Observatório da Indústria da Desinformação e Violência de Gênero nas Plataformas Digitais, projeto fruto de parceria entre o NetLab, da UFRJ, e o Ministério da Mulheres do Governo Federal, há um crescimento expressivo de circulação de manifestações misóginas no ambiente digital, com campanhas deliberadas de disseminação de misoginia tornando-se recorrentes. Nas discussões apresentadas no relatório, finalizado em 2024, a misoginia é descrita como uma ideologia que tem como base o desprezo, o ódio, o controle e a aversão às mulheres e está ligada à naturalização da ideia de uma superioridade masculina. Pensar o conceito ao pé da letra é muito importante para entender certas reações de políticos influentes, como veremos mais adiante.
O estudo conduzido pelo NetLab propôs identificar os assuntos e as comunidades predominantes na chamada “machosfera” no YouTube no Brasil e analisar as estratégias de disseminação de discurso misógino na plataforma. Ele destaca o papel das redes sociais como “espaços de disseminação de misoginia”, o que levou ao conceito mais específico de “misoginia em rede”, ou online.
A “machosfera” levada em conta pela pesquisa é um ambiente definido como “uma rede de sites, blogs, fóruns, canais e páginas em redes sociais onde homens se reúnem para discutir assuntos ligados a temas como masculinidade, desenvolvimento pessoal masculino e relacionamentos com mulheres”. Os resultados mostrados no relatório da pesquisa revelaram que todos esses grupos têm grande apelo para formação de comunidades, engajamento e monetização, sendo que “há uma parte dessa rede que adota uma perspectiva reacionária, defensora dos valores patriarcais e é, por vezes, misógina. Seus participantes defendem a superioridade masculina e uma suposta necessidade de se proteger contra mulheres manipuladoras e narcisistas, além de criticarem movimentos feministas”.
Nesse ambiente, as principais correntes, de acordo com o relatório, são: MGTOW (Men going their own way – Homens seguindo seu próprio caminho); Celibatários Involuntários (Incel); Pick Up Artists (PUA, ou “artistas da pegação”, em tradução livre); e “Red Pill”, grupo que, na visão da machosfera, como apresentado pela pesquisa, afirma que os “os homens que consomem a ‘pílula vermelha’ tomariam consciência de uma suposta dominação social exercida pelas mulheres e dos perigos do feminismo na sociedade ocidental; de acordo com esta visão de mundo, os homens seriam os verdadeiros subjugados devido ao seu gênero, pois a sociedade estaria organizada de maneira a beneficiar as mulheres”.
A misoginia online
A desinformação alimenta e instrumentaliza o ódio, com a disseminação de mentiras e de discursos agressivos que diminuem, rechaçam, criticam e desumanizam as mulheres. E isso ganha contornos ainda mais expressivos quando falas de autoridades reproduzem o machismo, fazem circular e naturalizam afirmações violentas como “Só não te estupro porque você é feia”, dita pelo então deputado Jair Bolsonaro à também deputada Maria do Rosário.
No mundo digital, a misoginia ganha corpo pelos discursos de ódio, com a disseminação de conteúdos que incitam a violência e a ameaça contra as mulheres, o que é empoderado pelo crescimento de grupos e comunidades que integram chamada “machosfera”, que espalham a misoginia e ainda lucram com esse ódio. Nesse sentido, cabe ressaltar que as plataformas dão um retorno muito insignificante em relação à moderação e à eliminação desse tipo de conteúdo e desses grupos – vários desses canais continuam ativos e espalhando ódio contra as mulheres em nome de uma distorcida “liberdade de expressão”. Aliado a esse contexto, há o cenário assustador de comunidades com esse perfil – como a rede Discord – que atraem adolescentes cada vez mais novos.
Recentemente, um exemplo perturbador ilustra esse cenário. É a trend “Treinando caso ela diga não”, uma série de vídeos que viralizou na rede TikTok. Nesses vídeos, adolescentes e jovens simulam como reagiriam caso a mulher dissesse não a um pedido de namoro ou casamento: eles simulam reações muito violentas, com socos, tapas, pontapés, armas apontadas, golpes de faca. E riem de tudo. Depois da repercussão negativa, a plataforma retirou os vídeos de circulação – mas o estrago já estava feito.
O ódio às mulheres é lucrativo, e as big techs, que abrigam esses grupos e esses discursos, têm um importante papel no ecossistema da misoginia digital. Não é de se espantar, portanto, que o Brasil viva, atualmente, uma explosão de casos de feminicídio e de violência contra as mulheres.
Misoginia e extrema direita
No dia 24 de março, o Senado aprovou, por unanimidade, o PL 896/2023, que tipifica a misoginia como crime e a equipara ao racismo. De acordo com a proposta, misoginia é definida como ódio ou aversão às mulheres, e o projeto aprovado prevê penas de dois a cinco anos de reclusão e multa. O texto vai para análise da Câmara dos Deputados.
Um avanço, sem sombra de dúvida. Mas parte da extrema direita não gostou. No mesmo dia, o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) chamou de “aberração” o projeto de lei e iniciou, nas redes, uma campanha feroz para barrar a aprovação da proposta na Câmara.
A reação foi tão feroz e nociva quanto o ódio que é direcionado a nós mulheres diariamente. E claro, a mobilização suscitou engajamento e um grande aumento de menções ao deputado – nem todas positivas, importante salientar. Em sua mobilização feroz, Nikolas também criticou a base aliada e afirmou que a proposta fere a liberdade de expressão e cria uma guerra cultural.
Os senadores Flavio Bolsonaro (PL-RJ) e Damares Alves (Republicanos-DF) votaram a favor da proposta, e a extrema direita se viu rachada em relação ao tema. Apesar da visibilidade de Nikolas, a repercussão não foi apenas positiva – o que se viu nas redes foi o eco de vozes masculinas tóxicas aplaudindo o posicionamento do deputado, e, por outro lado, muitos posicionamentos contrários a Nikolas. Segundo levantamento da Nexus, “usuários do X subiram a expressão ‘ABERRAÇÃO É NIKOLAS’, que foi vista na 9ª colocação dos Trending Topics Brasil das últimas 24 horas, em recorte às 9h de hoje (26/03)”.
O projeto teve grande visibilidade nas redes, mostrando que o tema é importantíssimo e consegue furar bolhas. Ainda segundo o levantamento da Nexus, “o Projeto de Lei permaneceu entre os temas de maior relevância nas buscas. Na lista das últimas 4 horas, o termo “lei misoginia crime” figurou na 2º posição, com mais de 500 pesquisas em 40 minutos. Já na lista das últimas 48 horas, “misoginia” debuta em 1º lugar, buscada mais de 100 mil vezes”.
Diante do cenário de violência física e psicológica que abate mulheres, como explicar que um jovem deputado federal como Nikolas refira-se ao PL que institui uma punição específica para os crimes de misoginia como “aberração”? Talvez, como pano de fundo da inusitada reação esteja a concepção entronizada, naturalizada, assimilada da tal “superioridade masculina”, assim como o medo da tal “dominação social exercida pelas mulheres”.
A pauta moral levada adiante pela extrema direita encobre um antifeminismo religioso e valores patriarcais completamente ultrapassados que penalizam ainda mais as mulheres. E talvez por isso, o debate sobre misoginia – um conceito até difícil de entender – esteja furando todas as bolhas.
Os dados do ódio
– Mulheres têm 27 vezes mais chances de serem assediadas ou atacadas em ambientes digitais do que os homens (Fonte: ONU Mulheres, 2020);
– No Brasil, 84,5% das pessoas têm pelo menos um tipo de preconceito contra mulheres (Fonte: ONU);
– 88% das mulheres já sofreram violência psicológica, e grande parte dos casos ocorre na presença de crianças (Fonte: Pesquisa DataSenado 2025);
– 40% das testemunhas adultas não tomam nenhuma atitude para ajudar no momento da agressão (Fonte: Pesquisa DataSenado 2025);
– 90% dos canais que disseminam discurso misógino continuam ativos no YouTube, somando mais de 130 mil vídeos. Esses conteúdos, muitas vezes ligados à “machosfera” ou à cultura “red pill”, geram lucro para influenciadores (Fonte: Estudo da UFRJ, 2026);
– Em 2025, o Brasil registrou país registra 1.547 casos de feminicídio; atualmente, são registrados quatro feminicídios por dia (Fonte: dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública);
– De 2019 a 2025, houve um crescimento de quase 600 vezes no envio de conteúdo misóginoem comunidades virtuais (Fonte: levantamento do Desinfo.pop, da Fundação Getúlio Vargas , com monitoramento de 85 comunidades virtuais de redes de ódio);
– Nos últimos anos, houve um crescimento expressivo da “machosfera” e do volume de conteúdos potencialmente misóginos no YouTube; os 137 canais com conteúdo misógino somam 3,9 bilhões de visualizações, e 80% dos canais misóginos contam com alguma estratégia de monetização. (Fonte: Observatório da Indústria da Desinformação e Violência de Gênero nas Plataformas Digitais – NetLab);
– Mulheres que têm alguma atuação pública – como, por exemplo, políticas, jornalistas, influenciadoras digitais, artistas, atletas e pesquisadoras – são os principais alvos de discurso de ódio e violência psicológica baseados no gênero (Fonte: Observatório da Indústria da Desinformação e Violência de Gênero nas Plataformas Digitais – NetLab).
(*) Jornalista, com pós-doutorado em estudos da desinformação pelo Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência (CLE) da Unicamp, doutora e mestre em Linguística e Língua Portuguesa. É pesquisadora do Observatório das Eleições. Sua tese de doutorado sobre o Jornal Nacional discute as estratégias de construção da narrativa do telejornal do impeachment de Dilma Rousseff à eleição de Jair Bolsonaro. Organizou e coordenou, com Leonardo Avritzer, o livro “Eleições 2022 e a reconstrução da democracia no Brasil” (Autêntica). Em 2024, com Avritzer e Marisa Von Büllow, organizou o livro “Democracy Under Attack” (Editora Springer).