Evolução célere de IA é obstáculo para regulação
Coordenador do NetLab explica que uso da tecnologia teve impacto no marketing político eleitoral, barateando custos. Ele defende mais transparência nas eleições
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O avanço célere das ferramentas de Inteligência Artificial tem se configurado como um obstáculo para o debate regulatório, ainda muito imaturo no Brasil e no mundo, observa Bruno Mattos, coordenador de projetos do NetLab, o Laboratório de Estudos de Internet e Redes Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ele afirma que é preciso haver mais transparência de publicidade e conteúdos gerados por IA durante o processo eleitoral deste ano. Na Índia, durante a Cúpula de Impacto de Inteligência Artificial, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pediu um empenho global para regulação das novas tecnologias.
Em entrevista à revista Focus Brasil, da Fundação Perseu Abramo, Mattos explicou que a discussão sobre IA precisa avançar em todo o mundo. “O material vai ficando exponencialmente mais refinado e isso faz com que mais e mais conteúdos passem, conteúdos gerados por IA, manipulados por IA, passem despercebidos pelas ferramentas e métodos que hoje existem de detecção”, disse o coordenador. O NetLab formulou recomendações ao Tribunal Superior Eleitoral sobre o uso da Inteligência Artificial em propagandas eleitorais.
“Nossa principal recomendação vai justamente nesse sentido de ter maior transparência dos conteúdos que são gerados, entendendo que esse não é um papel só do usuário de declarar, mas também da plataforma de etiquetar esse conteúdo depois que ele é publicado, delas assumirem esse papel.” Ele alerta também sobre os repositórios das plataformas, que são fontes para estudo e investigação. “Muitas dessas ferramentas performam muito abaixo do que deveriam e poderiam para que esse tipo de investigação ocorresse da melhor forma possível. As plataformas não cumprem com esse papel de transparência de forma tão ativa quanto elas dizem que fazem”, afirma Mattos.
Ele afirma, ainda, que a publicidade política disfarçada é outro problema. “Há muitas plataformas que dizem que não veiculam, que não permitem que seja veiculada publicidade política, mas quando o usuário acessa essa plataforma, ele é inundado por propagandas veladas, por anúncios velados.”
Custos das campanhas
Para o pesquisador, o uso da IA tem grande efeito na política porque trouxe impacto nos custos. “A gente acompanhou a propaganda eleitoral ficando progressivamente mais cara de eleição para eleição. Mega produções de publicidade eleitoral, contratações dos melhores marqueteiros de publicidade eleitoral para rodar algumas campanhas específicas. E hoje o que a gente tem é um movimento na direção contrária. A gente tem essa disseminação em massa de modelos de Inteligência Artificial que no fim servem justamente para tornar todo esse mercado muito mais barato do que ele um dia já foi”, explica.
A economia financeira com o uso de IA é substancial no marketing político, sustenta Mattos. “Você não precisa mais se preocupar com questões de organização, de contratar locação, atores, figuração, fechar espaços. Temos visto muitos partidos e alguns políticos explorando esses recursos desde o ano passado. Inclusive, a gente tá falando aqui das plataformas, mas a televisão já tem sido inundada em algum nível por produções de publicidade geradas por Inteligência Artificial, publicidades políticas. Eu acho que a principal janela de oportunidade que os partidos, as coligações e federações enxergam é justamente essa questão dos custos.”
Porém, observa o pesquisador, o grande problema é que a população não tem discernimento sobre o que é real e o que é produzido por IA. “Agora as produções já estão se tornando cada vez mais imperceptíveis. Há dois anos, uma peça gerada por IA era muito diferente do que uma mesma peça gerada por IA hoje. A fronteira do que é real e do que não é realmente acabou ficando borrada. Apesar desse uso, que podemos chamar de legítimo, isso abre portas para pessoas mal intencionadas”, alerta.
Modelo de regulação europeu
Bruno Mattos cita a regulação europeia, o AI Act, como uma referência importante para a América Latina e o Brasi. Agora, observa, a Europa está debatendo “formas de fazer isso valer e tornar o uso da Inteligência Artificial generativa mais transparente”. Uma das questões discutidas é o uso de marca d’água que todos os provedores de modelos de inteligência artificial teriam que colocar nos conteúdos gerados a partir desses modelos. “Só que como que isso vai ser feito? Vai ser uma marca d’água visível para todos os usuários? Isso ainda não se sabe.”
As discussões, salienta Mattos, ainda são bastante embrionárias em todo o mundo. Como as tecnologias avançam rapidamente, e o ritmo da legislação e das regras é outro, é normal que hajam lacunas. “O debate regulatório deve ser feito com muita calma para que ele não precise ficar passando por atualizações recorrentes nos próximos anos, o que é sempre um risco, quando a gente está regulando novas tecnologias.” Os momentos de transição, ainda sem regulação e com uso desenfreado da tecnologia, como ocorre hoje, são os mais difíceis, conclui.
Da Rede PT de Comunicação, com informações da Fundação Perseu Abramo.
