Avanço das bets pressiona o SUS e impacta a saúde mental
Ministério da Saúde revela aumento de atendimentos por ludopatia, vício em apostas online; partido e Governo Lula defendem regulação das plataformas de jogo
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Na primeira aposta, o servidor público José (nome fictício) gastou R$ 50. Após ganhar R$ 250, passou a acreditar no chamado “dinheiro fácil”. Hoje recuperado do vício de apostas online, após uma longa trajetória, ele concordou em dar um depoimento à Rede PT de Comunicação, desde que mantido o anonimato. José diz que começou a apostar atraído pela promessa de ganhos rápidos e pela sensação de controle. Com o tempo, o comportamento se transformou em compulsão. As dívidas, que começaram em torno de R$ 30 mil, chegaram a valores entre R$ 600 mil e R$ 700 mil. A percepção de que se tratava de uma doença veio tarde demais. “É muito gasto para problemas graves e problemas crônicos de saúde que vão consumir recursos, a gente já viu dados aí do INSS, que aumentou as licenças por causa de ludopatia”, relatou.
Casos como o de José se espalham pelo Brasil. O crescimento das apostas online no Brasil já impacta diretamente a rede pública de saúde e reforça a necessidade de políticas de regulação, prevenção e cuidado em saúde mental. Entre janeiro de 2018 e maio de 2025, foram registrados 10.553 atendimentos no Sistema Único de Saúde (SUS) relacionados ao jogo patológico e à mania de jogo e aposta, segundo dados do Ministério da Saúde.
Do total, 4.316 atendimentos foram ambulatoriais, incluindo aqueles realizados pelos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), e 6.237 ocorreram na Atenção Primária à Saúde (APS).
O próprio Ministério da Saúde alerta que o quadro pode ser ainda maior, em razão da subnotificação. Parte da demanda não acessa a rede de serviços em função do estigma associado ao transtorno e de sua relação com ambientes digitais.
Além disso, é frequente que os casos cheguem aos serviços com múltiplos sofrimentos psíquicos, o que dificulta a identificação do transtorno do jogo como diagnóstico principal. Reconhecida pela Organização Mundial da Saúde desde 2018 como ludopatia, a dependência em jogos e apostas pode provocar ansiedade, depressão, endividamento, conflitos familiares e risco de suicídio, se tranformando em um problema de saúde pública.
Ao comentar o avanço das apostas e cassinos virtuais no país, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou a facilidade de acesso às plataformas digitais e os impactos sociais desse fenômeno. “Desde pequeno, eu ouço os religiosos dizerem e eu também processava o mesmo discurso de que o Brasil não poderia ter cassino. Aliás, nem jogo de bicho o Brasil podia ter. O jogo do bicho é contravenção”, afirmou.
Para Lula, o cenário mudou radicalmente com a popularização das apostas online. “O cassino entrou dentro da casa da gente, para criança de 10 anos pegar o telefone do pai e jogar com essa quantidade de bets que foram criadas aí, que estão tomando conta do futebol, tomando conta da publicidade e tomando conta da corrupção desse país”, completou. Lula e parlamentares do PT defendem a regulação das bets. O governo federal também se empenhou na taxação das bets, com apoio da bancada do PT no Congresso.
Guia de Cuidado
Como parte desse enfrentamento, o Ministério da Saúde lançou o Guia de Cuidado para Pessoas com Problemas Relacionados a Jogos de Apostas, documento que orienta profissionais do SUS no acolhimento e tratamento das pessoas afetadas pela ludopatia.
O guia reconhece que a expansão das apostas está associada às transformações tecnológicas, ao acesso facilitado por dispositivos móveis e à publicidade intensa, que estimula o consumo contínuo. O material destaca que os impactos do jogo extrapolam o âmbito individual, gerando consequências sociais e econômicas que exigem uma resposta integrada do Estado.
De acordo com o guia, os problemas relacionados às apostas podem desencadear insônia, estresse crônico, ansiedade, depressão, conflitos familiares, endividamento e perda de renda, além de estarem frequentemente associados ao uso abusivo de álcool e outras drogas. Estudos internacionais citados no documento indicam que até 75% das pessoas com problemas com apostas apresentam algum outro transtorno mental, o que amplia a complexidade do cuidado e reforça a
necessidade de uma abordagem integral.
O material orienta que o atendimento ocorra no âmbito da Rede de Atenção Psicossocial (Raps), envolvendo a Atenção Primária à Saúde, os CAPS (Centros de Atenção Psicossocial), serviços hospitalares e equipamentos comunitários, com foco no acolhimento humanizado, na redução de danos, no apoio familiar e na
reinserção social.
Quem ganha com o vício?
José, que tente reorganizar a vida, afirma que as apostas não agregam valor ao país e que o dinheiro gerado por elas vai para “empresários do vício”. “Quem tem uma empresa de apostas, ganha dinheiro com o vício dos outros”, defende. Ele afirma que, se o dinheiro fosse investido em cultura ou esportes, o benefício para a sociedade seria muito maior.
O servidor público afirma que o acolhimento profissional e o apoio da família foram fundamentais para iniciar o tratamento e alerta para a importância de interromper o ciclo do jogo o quanto antes. “Pare o quanto antes. Se você está jogando ainda, pare o quanto antes, porque você provavelmente vai se afundar ainda mais”, recomenda.
Ele também chama atenção para os impactos do vício na saúde mental e na vida cotidiana. “Você trocaria seu sono por fazer umas apostas, perder dinheiro e ter uma dopamina rápida? As pessoas precisam se perguntar antes de
correr o risco.”
José ressalta ainda a importância de iniciativas como o Guia de Cuidado para conscientizar e auxiliar pessoas com problemas relacionados a jogos de apostas. Ele acredita que o guia pode ajudar as pessoas a entenderem que a ludopatia é uma doença e a buscarem tratamento antes que o problema se agrave. José defende que a informação é o melhor remédio para combater o vício, assim como no caso das drogas. “O mais importante é levar a informação e despertar o doente, o viciado antes que ele esteja afundado em dívidas e tenha sido engolido pelo problema”, alerta.
Como incentivo para manter o tratamento e um lembrete para jamais ceder novamente ao vício, José criou um contador chamado “Eu escolhi parar. Eu consigo parar”. Neste mês de fevereiro, a soma já ultrapassa 200 dias sem
apostar.
Ramíla Moura, para a Rede PT de Comunicação.
