‘Desconfiança sobre o sistema eleitoral é estratégia política’
Em entrevista à Rede PT de Comunicação, professor da UnB, Joscimar Silva, diz que uma organização sistemática, com atores políticos, espalha a desinformação
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Pode-se dizer que dúvidas são legítimas no sistema democrático. Mas a narrativa que levanta suspeitas em série sobre o processo eleitoral e a lisura das urnas eletrônicas no Brasil não é inocente. Segundo o professor Joscimar Silva, do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB), trata-se de uma estratégia disseminada no Brasil e em muitos países do mundo que tem também como objetivo deslegitimar as instituições.
A desconfiança gerada no sistema, diz ele, começou a aparecer de forma mais organizada no Brasil nas eleições de 2014. A narrativa é intencional e tem objetivos claros: “Usar a desconfiança sobre o sistema eleitoral para se apresentar como herói, como alguém capaz de unificar ou evitar um mal que viria das instituições”, disse ele em entrevista exclusiva à Rede PT de Comunicação. Essa estrutura política organizada atua nas redes digitais e consegue espalhar o clima de desconfiança. O resultado é perigosíssimo.
“Quando uma liderança política ataca o sistema político, uma instituição ou o processo eleitoral, ela não está apenas descredibilizando um opositor, mas o próprio sistema. Isso pode levar os eleitores a não comparecerem às urnas, a não se engajarem politicamente, a desconfiarem de todos os candidatos e a perderem o interesse em política. É um efeito estrutural.”
Veja os principais trechos da entrevista:
Rede PT de Comunicação: Nos últimos anos, temos visto uma estratégia recorrente de questionamento do sistema eleitoral pela extrema direita. Esse tipo de comportamento é novo ou já faz parte de um padrão histórico nas democracias?
Joscimar Silva: A possibilidade de questionamento e de apresentar dúvidas quanto ao sistema é algo comum no processo democrático. Esse debate apareceu, por exemplo, no início dos anos 2000 sobre a qualidade da urna, e foi superado com as provas de urnas, verificações e testes que o TSE sempre faz. No entanto, há um processo mais recente, que não está acontecendo só no Brasil, onde lideranças políticas questionam os resultados eleitorais. Isso começou a aparecer no Brasil em 2014, mas ocorre em vários países da América Latina, Europa e Estados Unidos. O interessante é que não são apenas os líderes que perdem as eleições; muitas vezes, os que ganham também tentam deslegitimar o resultado. Parece haver uma estratégia de usar a desconfiança sobre o sistema eleitoral para se apresentar como herói, como alguém capaz de unificar ou evitar um mal que viria das instituições. Ou seja, lideranças políticas reforçam a desconfiança sobre o próprio sistema institucional que as ajudou a se tornarem líderes. Embora, por exemplo, [Jair] Bolsonaro não tivesse questionado diretamente sobre as urnas, feito uma live inteira sobre fraude nas urnas, ele citava indiretamente em outras frases sobre fraude nas urnas e fazia com que as pessoas se mobilizassem ainda mais. Então, na hora que ele citava, a rede começava a se inflamar como se fosse uma confirmação de veracidade daqueles boatos.
É possível afirmar que há uma atuação sistemática de deslegitimação das eleições? Como isso se organiza e quais são os objetivos políticos?
JS: Sim, é possível afirmar que há uma organização sistemática para isso. Atores políticos soltam aleatoriamente informações que geram desconfiança sobre o sistema, e uma rede já estruturada amplifica essas narrativas, produzindo enquadramentos informativos para dizer que há um grande problema. Essa rede, muitas vezes, cria laudos técnicos para alegar fraude, como ocorreu nas eleições de 2022. Não se trata de uma desconfiança espontânea, mas intencionalmente produzida por líderes políticos para atingir o eleitorado. A análise de vídeos desinformativos mostra que, primeiro, uma liderança política faz um discurso, e depois a rede replica e amplifica esse discurso. Ou, às vezes, a rede produz um discurso sobre desinformação eleitoral e a liderança política solta um “gatilho” para confirmar isso e captar esse eleitorado já desconfiado para sua base. Normalmente se constrói que a liderança política adversária é um monstro. Bolsonaro, por exemplo, sempre falou que o Partido dos Trabalhadores (PT) estava dentro de todas as instituições e era preciso, então, romper com aquele sistema, preparando uma narrativa de golpe muito antes do 8 de janeiro, e assim faz parecer que o oponente é um monstro.
Em anos eleitorais, há um aumento significativo na circulação de desinformação?
JS: Sim, há aumento da desinformação porque ela é usada como estratégia eleitoral. Antes, a estratégia era a campanha negativa contra o oponente. Hoje, migrou para uma campanha desinformativa, e a “bomba” não é mais contra o oponente, mas contra a instituição. Atacar a legitimidade das urnas e do TSE vira parte da estratégia de campanha. Isso aparece nas narrativas de lideranças e, principalmente, em suas redes, que fazem parecer que a desinformação vem da sociedade civil, mas é uma estrutura política articulando uma rede digital para circular intencionalmente a desinformação.
Quais são os riscos que a disseminação de desinformação sobre as urnas eletrônicas traz para a democracia brasileira?
JS: Quando uma liderança política ataca o sistema político, uma instituição ou o processo eleitoral, ela não está apenas descredibilizando um opositor, mas o próprio sistema. Isso pode levar os eleitores a não comparecerem às urnas, a não se engajarem politicamente, a desconfiarem de todos os candidatos e a perderem o interesse em política. É um efeito estrutural que afeta a confiança nas instituições e o engajamento político, não se limitando ao processo eleitoral.
Como esse tipo de narrativa afeta a confiança da população em instituições?
JS: Se as pessoas acreditam em fraude nas eleições, elas tendem a crer em um sistema corroído, em corrupção generalizada nas instituições, e que estas não podem cumprir seu papel. Isso leva à descrença na importância do voto e da participação política. As pessoas deixam de confiar nas instituições democráticas e passam a acreditar em lideranças com discurso autoritário. O ataque às instituições visa destruir as garantias da democracia para instituir um regime autoritário, ou seja, uma ruptura institucional.
Quais são as fake news mais recorrentes sobre as urnas eletrônicas no Brasil?
JS: As fake news mais recorrentes são que as urnas são fraudadas, que ministros do TSE têm pacto com partidos políticos, e a distribuição de vazamento de dados de urna ou depoimentos de pessoas que alegam ter digitado um número e aparecido outro. Isso produz efeito porque essas notícias não aparecem isoladamente, mas em uma rede de distribuição de conteúdo falso que se reafirma mutuamente. Uma declaração distorcida de um ministro, uma foto de um líder político com um membro do TSE, ou a alegação de fraude no código-fonte da urna são exemplos de como diferentes conteúdos tentam reafirmar a mesma narrativa.
Quais são os principais mecanismos que garantem a segurança e a auditagem das urnas?
JS: Primeiro, o TSE convoca técnicos, representantes de partidos, da sociedade civil e de universidades para o teste público da urna, que é aberto. Segundo, o processo eleitoral é fiscalizado por membros de todos os partidos em cada seção eleitoral. Além disso, o sistema de justiça eleitoral organiza todas as eleições com o mesmo padrão, e o processo é aberto a observadores nacionais e internacionais. Isso impede a fraude, pois há observadores de todos os grupos que precisam dar o veredito final.
Como o sistema eleitoral brasileiro se compara a outros países em termos de segurança, transparência e confiabilidade?
JS: Um dos principais avanços do nosso sistema é a unificação das eleições e a concentração em uma única estrutura do Judiciário, o TSE. Temos o mesmo procedimento e legislação eleitoral em todo o Brasil, o que gera transparência e facilidade de entendimento. Diferente de países como México e Estados Unidos, que têm regras eleitorais estaduais diversas, o Brasil possui um sistema unificado e maduro. Isso nos dá mais condições de combater crimes eleitorais e fiscalizar o processo, com muito menos possibilidade de fraude do que a maioria das democracias mundiais.
Qual é a importância das ações do TSE no combate às fake news e na proteção do processo eleitoral?
JS: O TSE tem um papel essencial, especialmente nas eleições de 2018, 2020 e 2022, ao punir a circulação de desinformação e derrubar conteúdos. As ações preventivas, que trazem informação antes da desinformação circular, são cruciais. A literatura mostra que a educação midiática e política é mais eficaz do que a punição posterior. Ao informar sobre o funcionamento do sistema e a natureza da disputa política, o TSE cria resistência no eleitorado contra notícias falsas.
Campanhas informativas e a educação midiática e política são mais eficazes do que a punição posterior. Ao informar sobre o funcionamento do sistema e a natureza da disputa política, o TSE cria resistência no eleitorado contra notícias falsas. Isso é mais importante do que apenas derrubar uma notícia falsa, pois a checagem de fatos nem sempre atinge a todos. A melhor forma é “inocular” a desinformação, como uma vacina. Quanto mais se investir em educação midiática e para a cidadania, mais as pessoas terão resistência à desinformação.
Qual é o papel da imprensa e da sociedade civil no enfrentamento à desinformação eleitoral?
JS: A imprensa tem um papel muito importante, sendo um dos primeiros campos a se organizar com a checagem de fatos. No entanto, a mídia também deve atuar na educação midiática preventiva, mostrando como o sistema eleitoral funciona e sua maturidade. Dar visibilidade aos processos de fiscalização e abertura dos códigos-fonte da urna ajuda a “circular essa vacina”. O fact-checking é uma alternativa posterior. A sociedade civil tem um papel central no controle da informação. A desinformação, mesmo que circule por veículos de mídia, depende das pessoas para chegar a outras. A influência de círculos pessoais (família, amigos, grupos sociais) é crucial. Trazer informação correta e prevenção em grupos pessoais é importante.
O Brasil está mais preparado hoje para enfrentar o ecossistema de desinformação do que nas eleições anteriores?
JS: Institucionalmente, estamos mais preparados, com judicialização, regulação e novas regras do TSE para uso de inteligência artificial. A sociedade civil também está mais consciente. No entanto, enfrentamos um novo desafio: a crescente sofisticação da desinformação. Não podemos mais confiar em vídeos ou prints de WhatsApp, pois a IA pode gerar conteúdos cada vez mais realistas. As pessoas não estão preparadas para identificar vídeos gerados por IA. É fundamental educar as pessoas sobre esses novos tipos de desinformação antes que circulem, como uma vacina. Embora tenhamos estrutura para combater a desinformação de eleições anteriores, estamos menos preparados para os novos tipos, especialmente os relacionados à IA.
Rede PT de Comunicação.
