Edinho Silva diz que mudanças no PL antifacção “só favorecem bandidos”
Texto foi alterado pelo deputado Guilherme Derrite (PP) e ataca a autonomia da Polícia Federal no combate ao crime organizado no país
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Não tardaram as reações do Partido dos Trabalhadores (PT) e do governo Lula às mudanças feitas no Projeto de Lei (PL) Antifacção pelo relator, deputado federal Guilherme Derrite (Progressistas), na noite de segunda-feira (10). O bolsonarista decidiu esvaziar as atribuições da Polícia Federal (PF) no combate ao crime organizado, diferentemente do que constava no texto inicial. A proposta alterada será apresentada nesta terça (11), em reunião de líderes na Câmara.
O presidente nacional do PT, Edinho Silva, rebateu Derrite com firmeza. Por meio da rede social X, Edinho acusou o relator do projeto de facilitar o crime organizado. E ainda fez questão de rememorar que o deputado se licenciou da Câmara para servir ao governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos).
“As mudanças no relatório do PL Antifacção, divulgadas pelo Derrite, secretário de Segurança Pública do Tarcísio, continuam enfraquecendo a Polícia Federal; ataca sua autonomia, limita a instituição que mais tem condições de enfrentar o crime organizado e combater a corrupção”, condenou Edinho.
“Ter que comunicar governos estaduais das suas investigações limita a ação contra o crime e vai propiciar o vazamento de operações, o que só favorece bandidos”, acrescentou.
As mudanças no relatório do PL anti facção, divulgadas pelo Derrite, secretário de segurança pública do Tarcisio, continuam enfraquecendo a Polícia Federal; ataca sua autonomia, limita a instituição que mais tem condições de enfrentar o crime organizado, e combater a corrupção.…
— Edinho Silva (@edinhosilva) November 11, 2025
Ataque à PF
Também no X, a ministra-chefe da Secretaria de Relações Institucionais da Presidência da República (SRI), Gleisi Hoffmann, afirmou que Derrite está se prestando a “proteger a bandidagem” ao subverter completamente o PL remetido pelo governo federal.
“Isso é um presente para as facções que atuam em todo o país, inclusive no mercado financeiro, e que estão sendo enfrentadas com inteligência. As mudanças inviabilizam ações coordenadas contra a estrutura financeira das facções, como a Operação Carbono Oculto, e podem tumultuar os inquéritos e ações judiciais em andamento, porque alteram as competências da União e dos Estados, de forma inconstitucional”, criticou Gleisi.
As mudanças do relator Guilherme Derrite no Projeto de Lei Antifacção tiram a Polícia Federal do combate ao crime organizado. Isso é um presente para as facções que atuam em todo o país, inclusive no mercado financeiro, e que estão sendo enfrentadas com inteligência.
As mudanças…— Gleisi Hoffmann (@gleisi) November 10, 2025
Em uma segunda publicação, a chefe da SRI descartou qualquer negociação que pretenda enfraquecer a PF. “Não há e não haverá acordo que suprima as competências, atribuições e autonomia da Policia Federal. Encaramos com preocupação qualquer manobra para modificar o papel da PF no combate ao crime organizado.”
Não há e não haverá acordo que suprima as competências, atribuições e autonomia da Policia Federal. Encaramos com preocupação qualquer manobra pra modificar o papel da PF no combate ao crime organizado.
— Gleisi Hoffmann (@gleisi) November 10, 2025
Já o deputado federal Lindbergh Farias (RJ), líder do PT na Câmara, ironizou Derrite por querer “domesticar a PF”. “As alterações não mudam coisa alguma: ele continua atacando a Polícia Federal, tentando transformar um instrumento de Estado em refém de interesses políticos”, acusou.
“‘Algo deve mudar para que tudo continue como está’. A frase de Lampedusa descreve o truque: a PF só pode agir se houver solicitação estadual, ou — pasmem — se ‘agir por iniciativa própria’, precisa avisar antes, como se pedisse autorização. Estão com medo de uma operação surpresa?”, questionou o petista.
Por fim, Lindbergh criticou a equiparação das facções ao terrorismo. “Por trás disso, está o braço político do crime, interessado em proteger agentes, contratos e emendas que a Operação Carbono Oculto começou a revelar”, apontou.
Acaba de sair o novo parecer do relator Derrite sobre o PL Antifacção. As alterações não mudam coisa alguma: ele continua atacando a Polícia Federal, tentando transformar um instrumento de Estado em refém de interesses políticos. É um texto feito para domesticar a PF e isso é…
— Lindbergh Farias (@lindberghfarias) November 11, 2025
“Retrocesso”
A própria PF precisou se manifestar a respeito. A corporação classificou as mudanças sugeridas por Derrite de “retrocesso”. “A Polícia Federal reafirma que continuará defendendo suas atribuições constitucionais e a preservação da sua autonomia funcional, a fim de garantir o cumprimento da lei e a defesa da sociedade brasileira”, diz a nota divulgada na segunda (10).
Saiba mais – Lindbergh denuncia “ataque frontal” à PF em relatório de Derrite ao projeto de Lei Antifacção
“Pelo relatório apresentado, o papel institucional histórico da Polícia Federal no combate ao crime — especialmente contra criminosos poderosos e organizações de grande alcance — poderá sofrer restrições significativas. A execução de operações pela Polícia Federal dependeria de solicitação do governo estadual da região investigada, o que constitui um risco real de enfraquecimento no combate ao crime organizado”, critica.
Insegurança jurídica
Em entrevista à Agência Brasil, o professor de Direito da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Rodrigo Azevedo considerou temerários os substitutivos definidos pelo relator.
“Esse parágrafo cria uma dificuldade, um entrave, tanto que essa atuação da Polícia Federal vai depender de uma provocação do governador […] Então não há como garantir com isso a mínima segurança jurídica em relação a essa previsão de para quais situações isso se coloca”, explicou.
Azevedo avalia que as mudanças na proposta estão no sentido contrário daquilo que o governo Lula tem sinalizado para o enfrentamento ao crime organizado.
“Hoje, não precisa dessa provocação prévia do governador, ou mesmo do Ministério da Justiça. Quando há um delito que tem essa repercussão interestadual ou transnacional, automaticamente a competência para isso é remetida para a Polícia Federal e para a Justiça Federal. E aí ela vai atuar em coordenação com as polícias estaduais, como tem acontecido já normalmente”, concluiu.
Da Redação, com informações de Agência Brasil e Polícia Federal
