Federados PSOL e PT em 2026?

Em artigo, deputada petista do RS enfatiza importância da unidade para enfrentar a extrema direita e construir uma saída soberana para o Brasil

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Deputada Laura Sito diz que formação de federação não é rendição, mas passo concreto para fortalecer um Brasil soberano e democrático.

Por Laura Sito (*)

“Não vivemos em normalidade democrática. O atual estágio do capitalismo, marcado pela ascensão da extrema direita em escala global, impõe à esquerda brasileira uma tarefa que vai além da mera disputa eleitoral. Como nos ensinou Antonio Gramsci, a crise consiste justamente no fato de que o velho está morrendo e o novo não pode nascer. Neste interregno, surgem os fenômenos mais mórbidos. É aí que se nascem ameaças de Trump à América Latina, o avanço do fascismo e a disposição dos setores entreguistas de subordinar o Brasil aos interesses geopolíticos dos Estados Unidos e do capital financeiro internacional.

Diante deste cenário, a prioridade absoluta da esquerda brasileira e dos setores que defendem a soberania nacional é a reeleição do presidente Lula. Mas essa tarefa não pode ser compreendida apenas como um feito eleitoral; trata-se de uma batalha de hegemonia, na qual é preciso aglutinar forças para dirigir este processo histórico.

O mundo vive uma aceleração dos conflitos imperialistas. A disputa estratégica entre Estados Unidos e China reconfigura alianças e recoloca a América Latina como território em disputa. As tensões envolvendo o Irã e o risco de uma conflagração mais ampla no Oriente Médio escancaram a fragilidade de um sistema multilateral em frangalhos. É nesse caldo que figuras como Donald Trump retornam à cena com ameaças explícitas ao Brasil e à região, flertando com intervenções econômicas e políticas que visam desestabilizar governos progressistas e garantir a hegemonia estadunidense sobre recursos estratégicos como o petróleo, o lítio e a biodiversidade amazônica.

Nesse contexto, um partido isolado torna-se incapaz de incidir sobre as grandes questões nacionais. A construção de uma vontade coletiva nacional-popular exige a superação do corporativismo e a formação de um bloco histórico capaz de unir diferentes camadas sociais em torno de um projeto comum.

Lula e os Brics: a alternativa multipolar

 O papel do presidente Lula na diplomacia internacional é, hoje, um dos poucos contrapesos à ofensiva imperialista. Sua capacidade de articular o Sul Global, reativar a cooperação com a África e fortalecer os Brics como bloco geopolítico e econômico oferece ao Brasil uma margem de manobra fundamental para escapar da subordinação total aos ditames de Washington.

Os Brics não são apenas um fórum de discussão; representam a possibilidade concreta de construção de uma ordem multipolar, com mecanismos financeiros alternativos (como o Novo Banco de Desenvolvimento) e rotas comerciais que diminuam a dependência do dólar e das instituições de Bretton Woods. Defender a reeleição de Lula é, portanto, defender a inserção soberana do Brasil no mundo. É garantir que o país tenha assento à mesa das negociações globais, e não apenas figure como peça no tabuleiro alheio.

Qual será a escolha do papel do Psol frente a história?

 É aqui que a discussão sobre a federação com o PT ganha sua dimensão estratégica. Dentro do PSOL, há resistências compreensíveis, ancoradas na defesa da autonomia programática e no temor da diluição política. No entanto, é preciso fazer uma leitura gramsciana da realidade: o partido não é um fim em si mesmo, mas um instrumento para a transformação.

O risco concreto, em 2026, não é a diluição automática — que pode ser evitada com clareza política e manutenção das direções autônomas, já que a federação preserva a identidade e o controle sobre o fundo partidário. O risco real é de fragilizar sua relevância frente ao período histórico.

Um PSOL que não atinja a cláusula de barreira observará um retrocesso frente suas conquistas como instrumento de disputa institucional. E num momento em que a extrema-direita avança, o enfraquecimento da esquerda no Congresso é uma tragédia. Por exemplo, no Rio Grande do Sul a Federação PT/PCdoB/PV elegeu 7 deputados federais e 12 estaduais, enquanto o Psol/Rede elegeu 1 federal e 2 estaduais. Se já estivéssemos federados em 2022, teríamos 9 deputados federais e 15 estaduais. Já que as sobras são redistribuídas pela maior média, beneficiando listas maiores.

A unidade como método

 A federação não é uma rendição tática. É uma aposta na construção de uma frente de esquerda capaz de dirigir uma coalizão ainda mais ampla em defesa do Brasil.

Inspirando-nos na Frente Ampla do Uruguai, podemos vislumbrar um bloco político que una desde o anticapitalismo até o centro democrático, tendo como eixo a defesa da soberania nacional, dos direitos sociais e da paz mundial.

O campo lulista é, hoje, o campo de disputa real da sociedade brasileira. Fora dele, só há o isolamento ou a subordinação à direita. É preciso coragem para compreender que a unidade não apaga as diferenças, mas as potencializa quando colocadas a serviço de um objetivo maior. A batalha das ideias só se vence quando se é capaz de transformar a própria organização em um bloco histórico vivo, em movimento.

Em 2026, o Brasil enfrentará não apenas uma eleição, mas um confronto entre dois projetos de país: um que nos quer colônia, outro que nos quer soberanos. A ampliação da nossa Federação é um passo concreto para fortalecer a luta por um Brasil democrático e soberano.

(*) Deputada Estadual pelo PT do Rio Grande do Sul

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