Gleisi: “Campo democrático tem de fazer disputa política para vencer a extrema direita”

Presidenta do PT afirmou, em entrevista ao UOL News, que discussão é importante para alertar o país para os riscos representados pelo bolsonarismo

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“É um absurdo o que aconteceu, porque os Bolsonaros estavam fazendo uma Gestapo, uma verdadeira agência particular de investigação para usar a seu interesse", disse Gleisi, sobre o escândalo da Abin

Os partidos do campo democrático precisam se preparar para o debate político com vistas a derrotar o bolsonarismo também nas eleições municipais deste ano. A afirmação foi feita nesta quarta-feira (7) pela presidenta do PT, deputada federal Gleisi Hoffmann (PR), em entrevista ao UOL News 2ª Edição. Conforme destacou, essa discussão é importante para alertar os eleitores sobre os riscos representados pela extrema direita para a democracia e o futuro do país.

Gleisi tratou do assunto depois de perguntada pelos jornalistas Diego Sarza e Leonardo Sakamoto sobre se Jair Bolsonaro ainda tem condições de influenciar os resultados das próximas eleições. Gleisi respondeu afirmativamente e disse que, por essa razão, o campo democrático deve estar unido e preparado para a disputa política.

“Nós precisamos nos preparar para fazer esse enfrentamento, para debater, para mostrar para as pessoas o que isso significa à luz da democracia, à luz das instituições”, afirmou a presidenta do PT.

“Nós precisamos defender nossa democracia, e é claro que eles vão usar e tentar usar essas forças para eleger prefeitos, prefeitas, vereadores, vereadoras. Cabe a nós, ao nosso campo, ao campo democrático, ao campo popular, ao campo progressista, também estar organizado, estar organizado para influenciar nas eleições municipais. É a disputa política que nós temos que fazer”, acrescentou.

Escândalo da Abin de Bolsonaro

Outro tema tratado na entrevista foi o escândalo do uso criminoso da estrutura da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), durante o governo Bolsonaro, para espionar parlamentares, magistrados e outras autoridades. Gleisi comparou a atuação do órgão à da Gestapo – a polícia secreta de Adolf Hitler – e defendeu punição severa aos responsáveis.

“É um absurdo o que aconteceu, porque os Bolsonaros estavam fazendo uma Gestapo, uma verdadeira agência particular de investigação para usar a seu interesse, a seu favor, enfim, da política que faziam”, afirmou a deputada.

“Isso é muito ruim. Eu acho que a gente precisa de uma grande reestruturação. Fez certo o presidente [Lula] ao demitir aquelas pessoas, e vamos esperar para ver como termina esse inquérito, porque, aí sim, você tem que tomar as providências com base nos resultados, nas investigações”, pontuou a Gleisi.

Perguntada sobre se o escândalo pode resultar na cassação do mandato do deputado federal Alexandre Ramagem, que chefiou a Abin durante o governo passado, a deputada disse que, certamente, por se tratar de um “crime”, o caso chegará ao Conselho de Ética e Decoro Parlamentar da Câmara.

“Com certeza levará a um processo na Comissão de Ética, porque é muito grave isso. Isso é um crime. É um crime que praticaram contra a democracia, contra o Congresso Nacional, contra os direitos das pessoas. Não pode ficar impune, não pode haver impunidade. Se isso for comprovado, tem que ter pena, não pode ficar impune, não tem como passar a mão na cabeça numa situação dessa, até para ser pedagógico e isso não voltar a acontecer”, enfatizou Gleisi.

Lava Jato na mira do STF

Outra investigação citada na entrevista foi a instaurada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal Dias Toffoli para apurar ilegalidades cometidas pela operação Lava Jato, entre as quais a tentativa do grupo de Sergio Moro e Deltan Dallagnol de se apoderar de R$ 2,3 bilhões provenientes de multas impostas no acordo de leniência de uma das empresas investigadas.

“Eu acho que a gente sempre tem que aprofundar as investigações em relação à Lava Jato, porque a gente já conhece os métodos que eles utilizaram e o que eles fizeram, a forma como eles fizeram. E isso não teve um impacto só para o PT, para o presidente Lula, para o nosso bloco de esquerda, não. Isso teve um impacto para o país, para as nossas empresas, para o emprego, para o desenvolvimento. Tivemos aí anos que vão nos custar caro em termos de avanço de desenvolvimento econômico e social”, disse Gleisi.

Possível cassação de Moro

A possível cassação do mandato do senador Sergio Moro pelo Tribunal Regional Eleitoral do Paraná (TRE-PR), por abuso de poder econômico nas últimas eleições, também foi tema da entrevista. Os jornalistas queriam saber se Gleisi pretende se lançar candidata ao senado pelo estado caso a cassação se confirme.

“Com certeza, se tiver uma eleição para o Senado no Paraná, na vaga do Moro, e eu espero que realmente o fim dele seja a cassação de mandato, por tudo que ele fez, pelo que ele representou para o país, de retrocesso, de atraso e de ilegalidade, o PT vai apresentar nome para a disputa”, disse.

“Eu gostaria de ser [candidata], meu nome está à disposição, mas é uma discussão que nós temos que fazer internamente no partido. Nós não abrimos essa discussão, porque eu acho que temos que esperar o processo de cassação do Moro. Ele sendo cassado, a gente vai abrir essa discussão. Então, tenho vontade sim, meu nome está à disposição, o PT vai apresentar a candidatura, é só uma questão de a gente discutir a nossa estratégia”, sublinhou.

Relação com a Câmara

Gleisi também foi questionada sobre as repercussões do discurso feito pelo presidente da Câmara, Arthur Lira, na sessão de abertura do ano legislativo, visto por muitos como uma ameaça ao governo Lula. A deputada afirmou que o que mais o Brasil precisa nesse momento é de uma relação equilibrada entre o Congresso e o Executivo.

“Eu acho que a gente tem que procurar ter uma relação com o Congresso para que possamos ter um clima e votar as propostas e os projetos que o governo precisa. Não é bom para o Congresso Nacional e não é bom para o país se a gente ficar com uma situação no Congresso de contraposição inofensiva total ao poder executivo. Não acredito que isso esteja acontecendo”, disse, acrescentando que o ponto central dessa discussão são as emendas parlamentares ao orçamento.

“Eu tinha feito já uma crítica, disse que acho demais, um ultraje, emendas de 53 bilhões de reais. Não que eu seja contra as emendas, eu sou a favor, o parlamento tem que emendar”, disse Gleisi, observando, no entanto, que as emendas parlamentares “têm que ser complementares ao projeto de desenvolvimento e aos programas do Executivo, que executa o orçamento; constitucionalmente esse é o seu papel”.

A deputada prosseguiu: “Porque se não nós vamos ter a aplicação dos recursos por demanda, e a demanda não é o melhor orientador de um projeto que faça um desenvolvimento integrado do país. É o Executivo que tem condições de avaliar como estão as regiões, os programas mais demandados, as necessidades de infraestrutura. Então minha crítica foi nesse sentido”.

Gleisi também foi perguntada sobre eventuais problemas entre o presidente da Câmara e o ministro de Relações Institucionais, Alexandre Padilha, e respondeu nunca ter presenciado uma manifestação agressiva do deputado contra o integrante do governo. Além disso, afirmou que Padilha está fazendo “um excelente trabalho” na articulação com o Congresso.

Gleisi disse esperar que “as coisas se acalmem, e a gente possa dar ao país os resultados que nós precisamos dar, enquanto Poder Executivo e enquanto Poder Legislativo”.

Da Redação

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