Lula reage a Trump e defende soberania em entrevista nos EUA: “Tarifa’ é absurda”
À emissora PBS NewsHour, presidente defende diálogo e respeito às democracias e rechaça sanções ao Brasil: “Não aceitamos que nenhum país no mundo interfira em nossa democracia e nossa soberania”
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Em entrevista concedida à jornalista Amna Nawaz, do programa “News Hour” – uma emissora americana –, na segunda-feira (22), o presidente Lula abordou temas cruciais que afetam a relação entre Brasil e Estados Unidos, a integridade da democracia brasileira e o papel do país no cenário global. Às vésperas do discurso histórico proferido na Assembleia Geral da ONU, nesta terça (23), Lula não hesitou em confrontar a política externa americana e defender a soberania do Brasil.
O ponto central abordado na entrevista foi a imposição de uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros pelo presidente Donald Trump. Lula classificou a medida como “equivocada e ilógica” e “absurda” em relação ao Brasil. Para o presidente, a justificativa para a sanção econômica– apresentada como penalidade pela condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro – é “inacreditável”. “A explicação de uma tarifa de 50% devido ao julgamento de um ex-presidente, isso não é explicação para a opinião pública mundial”, declarou Lula, lembrando que Bolsonaro tentou dar um golpe de Estado e planejou a morte de autoridades brasileiras.
Questionado sobre sua relação com Trump, Lula foi direto: “Nós nunca conversamos. Nós nunca conversamos antes porque ele fez uma escolha. Na minha opinião, foi um erro. Ele fez uma escolha de um relacionamento, construindo um relacionamento com Bolsonaro ao invés de uma amizade com o povo brasileiro.” Lula defendeu que é preciso construir relações civilizadas entre chefes de Estado, sobretudo pelo fato de Brasil e EUA serem “as maiores democracias das Américas” e “as maiores economias das Américas”.
Retaliação e defesa do Judiciário
“Posso garantir uma coisa a você. Estamos tentando fazer as coisas com a maior tranquilidade possível. Eu não tomo decisões com raiva”, afirmou Lula, sobre a possibilidade de o Brasil invocar a Lei de Reciprocidade no caso do tarifaço. Lula reiterou que o Brasil está pronto para negociar. Mas lamentou a falta de disposição americana para o diálogo: “Não há ninguém do lado dos EUA. Toda vez que tentamos falar sobre comércio com alguém dos EUA, eles dizem, isso não é comigo. Não, isso não é uma questão comercial. Isso é uma questão política.”
Lula também fez uma defesa firme do sistema judicial e eleitoral brasileiro. Em resposta às alegações de perseguição política contra Bolsonaro e à insinuação de que isso poderia minar futuras eleições, o presidente foi enfático: “Duvido que qualquer outro país no mundo tenha tido um caso judicial mais democrático que garantiu à pessoa que estava sendo acusada a presunção de inocência como fizemos no Brasil.” Ele destacou o respeito internacional pelo sistema judicial brasileiro e a independência dos poderes. “Se ele tivesse feito no Brasil o que aconteceu no Capitólio, ele também estaria sendo julgado, porque a lei brasileira é para todos”, pontuou o presidente.
Lisura do processo eleitoral e multilateralismo
Sobre as eleições de 2026, Lula descredenciou qualquer dúvida sobre a idoneidade do processo eleitoral brasileiro. “O Brasil tem urnas eletrônicas que são o sistema mais perfeito do mundo”, e usou sua própria trajetória como exemplo: “Se pudéssemos fazer qualquer fraude em uma cédula eletrônica, Lula nunca teria sido eleito presidente três vezes no Brasil.”
O líder brasileiro também expressou profunda preocupação com o enfraquecimento do multilateralismo e a erosão do papel dos EUA como líder democrático global. Ele criticou a posição dos Estados Unidos de se colocarem como donos do mundo e deu um recado claro sobre a diplomacia brasileira: “Não aceitamos que nenhum país no mundo interfira em nossa democracia e nossa soberania.”
Da Redação, com PBS News
