Morto pela ditadura militar, Rubens Paiva é homenageado na ONU
Evento promovido pelo Comitê sobre Desaparecimentos Forçados, em Genebra, exigiu das autoridades brasileiras respostas para desaparecimento do deputado e de outras vítimas
Publicado em
O Comitê da Organização das Nações Unidas sobre Desaparecimentos Forçados prestou homenagem, nesta segunda-feira, 9, à família de Rubens Paiva, ex-deputado morto pela ditadura militar (1964-1985). O corpo dele nunca foi encontrado. O evento em Genebra serviu para pressionar as autoridades brasileiras a darem respostas aos crimes perpetrados pelo regime autoritário.
Em discurso emocionado, uma das filhas do político desaparecido, Beatriz Paiva Keller, cobrou punição. “Muitos dos militares responsáveis pela repressão da época não foram julgados nem condenados por seus crimes, devido à Lei de Anistia concedida na época entre os militares e o Parlamento”, apontou Beatriz.
“Até hoje, muitas famílias não sabem onde estão os corpos de seus entes queridos e não podem realizar funerais. Não temos corpos, não temos sepulturas, não temos cemitérios. Também se tornou muito difícil processar os líderes militares e as testemunhas, porque muitos já morreram”, completou.
Beatriz também falou do filme Ainda Estou Aqui, baseado no livro de Marcelo Rubens Paiva, filho do ex-deputado. Graças a ambas as obras, a Justiça se debruçou novamente sobre o caso. “Com a reabertura deste inquérito judicial, o Supremo Tribunal Federal volta a avaliar se o crime de homicídio e ocultação de cadáver de Rubens Paiva deve ser abrangido pela Lei de Anistia”, disse a filha de Paiva.
“O Tribunal argumentou que, como se trata de um crime cujos efeitos persistem até hoje, seria considerado um crime contra a humanidade e, nesse caso, a Lei de Anistia não se aplicaria mais. O Senado e a Câmara dos Deputados debatem atualmente a ratificação de um projeto de lei que definiria com mais precisão se o crime de desaparecimento forçado e ocultação de cadáver pode ser considerado um crime hediondo e imprescritível”, explicou.
Beatriz ainda mencionou a tentativa de golpe de Estado e a depredação da sede da Praça dos Três Poderes, em Brasília, dias após a posse do presidente Lula, em 2023. “Vimos o que quase aconteceu em 8 de janeiro de 2023, quando grupos de apoiadores do ex-presidente Bolsonaro invadiram e vandalizaram as sedes do Supremo Tribunal Federal, do Executivo e do Congresso”, recordou.
Outra filha de Paiva, Ana Lúcia garantiu saber quem são os assassinos de seu pai. “Eram cinco. Três deles continuam vivos, entre eles, o comandante. Ele se chama José Antônio Nogueira Belham”, afirmou. “Sabemos onde ele mora e nunca foi julgado, apesar das evidências e documentos.” Belham foi chefe do DOI-Codi do 1º Exército, no Rio de Janeiro, entre novembro de 1970 e maio de 1971.
Luta por justiça
Em apoio à família de Paiva, o presidente do Comitê, Juan Pablo Alban Alencastro, referiu-se à história de vida deles como um “testemunho da realidade dos desaparecimentos forçados”.
A perita Carmen Rosa Villa Quintana lamentou a dor de não se saber o paradeiro dos corpos dos desaparecidos. “Quando o poder do Estado se usa para desaparecer e matar, não apenas se viola da lei, mas se quebra a essência da sociedade, ou seja, a humanidade”, descreveu.
Quintana teceu elogios à esposa de Paiva, Eunice. “Ela se transformou em uma defensora dos direitos humanos. Lutou por décadas para confirmar a morte de seu esposo. Ela não descansou até que o estado reconhecesse o que negou por anos”, disse.
“A história mostra que ditaduras não duram para sempre. São as vítimas que abrem caminho à verdade. Mas, infelizmente, nem sempre os autores pagam por seus crimes. Por isso, quem administram a Justiça no Brasil têm uma função de investigar e julgar os responsáveis, punindo severamente”, concluiu a perita.
“Ainda Estou Aqui”
Dirigido por Walter Salles e estrelado por Fernanda Torres e Selton Mello, o longa Ainda Estou Aqui foi lançado em 2024 e representa um marco do cinema brasileiro. Até março de 2025, o filme havia sido assistido por quase seis milhões de espectadores.
Ainda Estou Aqui recebeu o Oscar de Melhor Filme Internacional em 2025. A obra também rendeu ao Brasil os prêmios de Melhor Filme Ibero-Americano no Prêmio Goya, além de outros quatro no Gold Derby Film Awards, incluindo Melhor Filme e Melhor Atriz para Fernanda Torres.
Da Rede PT de Comunicação, com informações da ONU.
