‘Nem blogueira, nem influencer’: Kari Santos e o enfrentamento à desinformação

Em seu 1º mandato, vereadora do Recife com quase meio milhão de seguidores defende regulamentação das redes sociais e diz que influenciar é pensar no coletivo

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Kari Santos, vereadora do Recife, defende a regulamentação das redes sociais

Terrivelmente petista. É assim que a vereadora mais nova da história do PT no Recife, Kari Santos 32 anos, se define. Com quase meio milhão de seguidores no Instagram, ela está em seu primeiro mandato e declara que influenciar é pensar no coletivo. “Quem trabalha vendendo o jogo do tigrinho ou fazendo propaganda do Banco Master pratica a ‘desinfluência’”.  

De origem periférica, nascida no bairro da mangueira, zona oeste da capital pernambucana, uma das áreas de maior vulnerabilidade social da cidade, Kari diz que é filha de quase todas as políticas públicas criadas pelo Partido dos Trabalhadores, tendo sido beneficiada por programas como o Prouni e Pronatec, por exemplo. “Cursei Engenharia, mas no 8º período decidi mudar de caminho e seguir a Pedagogia, uma paixão desde sempre.”

Para a vereadora, que se descobriu militante na adolescência, a política está no sangue. “Nunca escondi a estrelinha”, avisa. 

Em entrevista à Rede PT de Comunicação, a parlamentar também aborda questões como violência política de gênero, participação das mulheres na política, etarismo, enfrentamento às fake news e a regulamentação das redes sociais. “Liberdade de expressão não é discurso de ódio.  A gente quer que aquilo que seja crime fora do ambiente das redes sociais também seja crime dentro do ambiente das redes sociais.”

Rede PT: Como você começou sua trajetória política? 

Kari Santos: Na escola, durante o movimento estudantil. Eu tinha uns 17 anos e esse processo de conscientização se deu por conta dos professores. Eu não tinha noção sobre o que era ser de esquerda ou de direita, mas na época todo mundo da escola dizia que eu era de esquerda. Também tinha uma banda na minha comunidade, que era a banda Palafita, que problematizava muito as questões do Brasil e eu passei a ter um entendimento político a partir das letras. Eu sou do Bairro da Mangueira, zona oeste do Recife, uma área pobre e vulnerável. Nasci e me criei num bairro que demorou a ter saneamento básico e a gente veio construindo isso através das políticas públicas do PT durante a gestão na cidade do Recife.

Sou militante, estive ao lado do PT nos piores momentos, 2013, 2016, no impeachment da presidenta Dilma, em 2018 e quando o presidente Lula foi preso. Engravidei naquele ano e tinha prometido ao presidente que eu colocaria o nome dele no meu filho, que chamei de Inácio. Queria colocar o Luiz, mas meu chefe de gabinete queria ter um filho e chamou de Luiz. Hoje a gente brinca que, quando os dois se encontram, chamamos Luiz e Inácio (risos). Fui votar em Haddad com Inácio no colo e me lembro que quando o Bolsonaro ganhou as eleições eu fiz uma foto amamentando.  

Sempre estive ao lado do PT, nunca escondi a estrelinha. Sou filha de quase todas as políticas públicas do PT. Eu me lembro que eu não tinha acesso a máquina de lavar. O fogão da gente só pegava duas bocas e não tinha forno. A geladeira da gente dava choque, borracha folgada e a gente amarrava a porta da geladeira com um pano de prato. Quando o presidente Lula fez a redução do imposto na linha branca [de eletrodomésticos] eu me lembro da minha mãe chegando e dizendo que comprou uma geladeira. Pra muita gente pode parecer besteira, mas o fato de você ter uma geladeira, uma máquina de lavar, um fogão, muda a rotina. Depois, tem um sistema de cotas, aí eu passo no Prouni para Engenharia Civil com bolsa 100%, faço Pronatec e a minha vida é tocada pelo PT. 

O que te levou a iniciar a comunicação nas redes sociais?

KS: O PT conduziu todo o meu processo de formação enquanto uma pessoa humanista e também com consciência de classe. A partir de 2016, durante o processo de impeachment da presidenta Dilma, comecei a ocupar as redes sociais. Eu ocupava para desabafar, como se fosse meu divã. A minha primeira grande repercussão, me lembro, foi quando o jornalista Paulo Henrique Amorim falou sobre um vídeo meu e isso fez com que eu fosse conhecida nas redes sociais. Na época era o Facebook, depois eu migrei para o TikTok e para o Instagram.  

E como surgiu a ideia de ser vereadora?

KS: Foi também a partir das redes sociais. Depois da eleição do presidente Lula, comecei a fazer mais vídeos e as pessoas me pediam para ser vereadora. Eu queria ser ministra da educação, eu queria ser igual a Haddad. Aí, toquei engenharia para a licenciatura, conversei com o PT e o pessoal disse: chegou a hora de você vir. Eu não tinha sobrenome, não tinha infraestrutura, não tinha dinheiro, não tinha nenhum ‘padrinho político’. Não tinha nada para me favorecer naquele processo eleitoral e a única coisa que eu tinha era lealdade ao PT, ao presidente Lula e foi isso que fez com que eu 9.321 votos na minha primeira eleição. Sou a vereadora mais jovem da história do PT na cidade do Recife. 

A esquerda sabe se comunicar? 

KS: Essa coisa das redes sociais é bem curiosa, né? Porque existe um senso comum dizendo que a esquerda não sabe se comunicar pelas redes. Eu não acredito nisso e a prova viva é o presidente Lula. A gente deve se comunicar com as pessoas da mesma forma que a gente se comunica na fila do pão, na fila do ônibus, no supermercado, na igreja, na escola, na faculdade, na família. A  diferença é que vai estar você segurando o celular, mas falando de algo que toca a realidade do povo. Na minha opinião a esquerda sempre se comunicou e a gente sempre se comunicou tentando vencer forças externas. No Brasil a gente nunca dominou o sistema de comunicação. Isso sempre ficou concentrado na mão daqueles que tinham os grandes monopólios e a gente não tinha condições de enfrentar.

Você acha que a desinformação tem aumentado? 

KS: Eu acredito que a propagação de fake news vem aumentando no Brasil. A gente tem muito acesso à informação,mas as  pessoas não têm acesso a formação. Hoje com as redes sociais, com inteligência artificial, termina prejudicando. 99% do povo brasileiro está no whatsapp e é justamente esse campo que é mais afetado pela propagação de fake news,  é uma forma de alienar a população, para que a população venha a desacreditar da política ao ponto de estimular. A desinformação atrapalha o processo político do Brasil. 

Na minha opinião a comunicação da esquerda é até melhor do que a direita, porque a gente trabalha com a verdade, a gente não engana o povo, a gente tem compromisso e a nossa comunicação é voltada para combater fake news, mas a gente precisa hoje gastar nossa energia para falar para o povo brasileiro, mostrando o que o Governo Lula 3 está fazendo pelo Brasil, com todas as dificuldades, com o congresso nacional, com a extrema direita, com o avanço do fascismo, a gente veio avançando muito e eu acho que é importante que a gente reconheça que a esquerda ela sabe fazer a comunicação.

Qual seria a vacina contra as fake news? 

KS: Eu acredito que a regulamentação das redes sociais é fundamental, aprovando o PL 2630/2020 para que a gente possa entender que não é uma questão de censura, muito pelo contrário, a gente precisa garantir a transparência para entender para onde o algoritmo está disparando conteúdo, para que a gente também possa combater os crimes que acontecem nas redes sociais. 

Com a internet não regulamentada, a gente viu um episódio na época onde estava tendo vários ataques estimulados nas escolas no Brasil e que a gente teve que entrar com ação judicial para poder pedir a Meta para retirar esse conteúdo. Então, quem é que ganha com a mentira? Quem é que ganha com o discurso de ódio? A regulamentação é importante para que a gente possa trazer transparência.

A mídia não é neutra, ela trabalha com o viés político e ideológico e a gente sabe que não está com a esquerda e não está com o povo trabalhador. Então, a regulamentação é fundamental para que a gente possa garantir a liberdade de expressão, levando em consideração que liberdade de expressão não é discurso de ódio. A gente quer que aquilo que seja crime fora do ambiente das redes sociais também seja crime dentro do ambiente das redes sociais.

Qual é o papel do Partido dos Trabalhadores, nos 46 anos, num tempo em que a comunicação é peça fundamental?

KS: A política é pautada pela comunicação. Disputa de narrativa, projeto político e poder passam pela comunicação, mas eu creio que não existe comunicação sem escuta.  Acho que a gente tem que escutar a nossa população. Qual é a preocupação da juventude hoje? A redução da jornada de trabalho. Qual a preocupação hoje do povo trabalhador? A tarifa a zero. Qual foi uma das maiores demandas que a gente trabalhou durante o governo do presidente Lula? A redução do imposto de renda. 

A gente precisa estar nos territórios, nas redes sociais, escutando as pessoas, entendendo qual é o sentimento do que se tem. De onde vem a raiva? De onde vem o rancor? De onde vem o descontentamento com a política? A gente vai ter que disputar a juventude, vai ter que disputar os trabalhadores precarizados, disputar os empreendedores. A gente vai ter que disputar a narrativa junto com as mulheres mães solo que têm que acordar todos os dias para poder trabalhar. Então, a comunicação precisa tocar as pessoas. É quase que uma transformação cultural. 

O presidente Lula tem falado que o PT precisa ter uma postura antissistêmica. A sua fala sobre escuta tem relação com essa ideia?

KS: Sim! O presidente Lula é um nordestino retirante que venceu o flagelo da fome, o primeiro operário da história do Brasil a virar presidente da república. O próprio presidente Lula, na sua construção de personalidade, de luta política, já mostra que ele é antissistema. O PT é um partido antissistema, é um partido socialista que vem trabalhando para romper com o sistema que está hoje no Congresso Nacional representado pela direita e pela extrema-direita. Nós do PT, nós somos o antissistema junto com o presidente Lula e isso é origem de classe. O Brasil precisa do PT. 

Você é uma comunicadora com quase meio milhão de seguidores. Como você define seu papel nas redes sociais? 

KS: A gente parte do pressuposto que é preciso construir a nossa formação enquanto indivíduo e ser humano a partir da coletividade. Você vê que esses influenciadores do Banco Master são os mesmos que divulgam o jogo de Tigrinho em casas de apostas. São pessoas que não influenciam. É a chamada desinfluência. A gente precisa de fato combater esse tipo de influência negativa e responsabilizar. Eu acredito que a regulamentação das redes sociais também vai punir esse tipo de desinfluência. 

Estou vereadora da cidade do Recife e sou comunicadora popular. Eu não sou jornalista porque não fiz faculdade e respeito muito a profissão. Muita gente chegava para mim quando não acreditava nas redes sociais para tentar diminuir. Me chamava de influencer, de blogueira. Eu trabalho com política. Você não me vê vendendo maquiagem, roupa, passagem de avião, fazendo dancinha para o TikTok ou fazendo propaganda para Jogo de Tigrinho, ou fazendo propaganda para o Banco Master. 

Quando eu ocupei as redes sociais foi para falar de política, para falar da realidade do povo, para poder falar dos projetos sociais do PT, para poder cobrar o Congresso Nacional que volte pautas, que transformem a vida do povo trabalhador. Tenho muito orgulho de dizer que eu tenho muita responsabilidade enquanto vereadora, mas o que eu sou mesmo é comunicadora popular. Nem blogueira, nem influenciadora. Eu sou uma pessoa que trabalha com política nas redes sociais e eu acho que isso é importante e a gente tem uma onda de vários comunicadores populares que trabalham conteúdos políticos.  A diferença é que eu sou bem terrivelmente PT, então você vai sempre me ver defendendo o PT em tudo que é lugar.

Como é ser vereadora do Recife, no corpo que você ocupa, com o seu recorte de classe?

KS: O local que eu ocupo é muito caro, as pessoas não têm dimensão. O que eu passo para que estar hoje no local que eu ocupo? Eu dedico a minha vida, o meu tempo, a minha integridade física, mental, o meu corpo para defender um projeto popular democrático para a minha cidade. Existe o preconceito pelo fato de ser jovem, então tem o etarismo. As pessoas falam tanto de renovação, mas ou você está jovem demais, ou você está velha demais. Questionam qual é a experiência que eu teria e a minha experiência de militante, de vida, de saber o que é pegar um transporte público lotado, o que é morar em quase todas as ruas do seu bairro porque seu pai não tinha dinheiro para pagar aluguel que você era expulsa. 

Tem o fato da misoginia, que é o que eu mais sofro, é violência política de gênero. Quando eu tento falar alto para que as pessoas me escutem, eu sou taxada de louca, de raivosa, mas estou tentando me impor para que essa sociedade machista entenda que eu sou uma mulher vereadora da cidade do Recife, eleita com quase 10 mil votos. 

Aí tem um preconceito também porque eu sou jovem mãe e que as pessoas questionam se eu vou ter tempo para me dedicar para a política e eu abro mão da minha família, do meu filho, do meu pai, da minha mãe, do meu cachorro, para trabalhar de domingo a domingo, para me dedicar ao povo da minha cidade. 

O maior desafio que eu encontro hoje na política, com certeza, é a violência política de gênero.  E venho enfrentando para que a gente possa combater isso, para que outras mulheres possam estar na política. É tempo de mulheres, a gente precisa renovar os espaços e a gente precisa colocar mulheres na política porque só nós sabemos onde é que o nosso calo aperta.

Germana Accioly, para a Rede PT de Comunicação.

 

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