‘O carnaval foi ruim pra Lula? A rua como território político’

Em artigo, a secretária adjunta de Comunicação do PT reflete sobre a narrativa construída pela grande mídia. O carnaval de Lula foi simbólico, político e vibrante, diz

Arquivo pessoal

Camila Moreno, dirigente do PT

Por Camila Moreno (*)

“Parte da grande mídia se apressou em construir uma narrativa de que o carnaval teria sido um período ruim para o presidente Lula. Mas de onde nasce essa conclusão? Em que momento presença nas maiores festas populares do país, recepção calorosa nas ruas passaram a ser sinais de desgaste? Antes de aceitar a manchete pronta, vale perguntar: estamos falando de fatos ou de uma narrativa construída? Vamos combinar: há uma diferença enorme entre o que alguns editoriais desejam que aconteça e o que de fato acontece nas ruas do Brasil.

Estamos falando do presidente que, aos 80 anos, começou o sábado de carnaval em Recife, no Galo da Madrugada, o maior bloco do país, junto de uma multidão que não cabe em estatística apressada nem em análise enviesada. Ali, no coração do frevo, Lula não apenas apareceu: foi disputado politicamente. Estava entre dois palanques, o da governadora Raquel Lyra, do PSD, e o do prefeito João Campos, do PSB, também candidato ao governo estadual. Foi saudado, aplaudido, abraçado.

Usava a camisa do Pitombeiras, simbolicamente reafirmando, mais uma vez, seu compromisso histórico com o cinema nacional e com a cultura brasileira. Depois dos tempos em que vivemos de destruição do Ministério da Cultura e de tentativas de asfixia cultural do país, a escolha estética também é escolha política.

À noite, Lula já estava em Salvador, no circuito Campo Grande. E fez história: foi o primeiro presidente da República em exercício a participar oficialmente do carnaval de rua da capital baiana. Os trios elétricos puxaram “Sem Anistia”. O povo cantou “Olê, Olê, Olá, Lula, Lula”. A cena desmontou, diante das câmeras e dos celulares, a narrativa da extrema direita de que o presidente “não pode sair na rua”. Pode. Sai. E é reconhecido.

Houve um momento particularmente simbólico. Um jovem violinista tocou “Lula Lá” e contou que seu primeiro violino foi recebido por meio de um programa federal de incentivo à cultura. Ali estava condensada uma política pública inteira: acesso, oportunidade, mobilidade social. O menino que teve o instrumento graças a uma política pública criada por Lula agora tocava para o presidente que criou as condições para que ele sonhasse.

Quando Lula pulou ao som da BaianaSystem, que puxava o coro de “Sem anistia!”, o recado foi ainda mais claro: o carnaval é festa, mas é também memória e posicionamento. O Brasil que dança é o mesmo que exige justiça. Não há contradição entre alegria e firmeza democrática.

No domingo, o presidente seguiu para o Rio de Janeiro. Mais um marco: foi o primeiro presidente em exercício homenageado na Marquês de Sapucaí. A Acadêmicos de Niterói levou para a avenida um samba emocionante, assinado por nomes como Fred Camacho, Teresa Cristina, exaltando a trajetória do retirante nordestino, metalúrgico, sindicalista que enfrentou a fome, a perseguição judicial, a prisão injusta, e que nunca deixou de acreditar na democracia.

Eu estava lá. Tive a honra de desfilar por essa escola corajosa. E, para não romantizar, ouvi uma leve vaia vinda do camarote do governador Cláudio Castro. Democracia é isso: dissenso existe. Mas o som que ecoava na Sapucaí, dos setores populares aos camarotes, era vibração. Era o povo cantando o samba, era a história de Lula sendo celebrada em forma de enredo.

A escola acabou retornando ao Grupo de Acesso, como acontece com quase todas que sobem ao Grupo Especial pela primeira vez. Mas o resultado competitivo é secundário diante do que se viu na avenida. O recado da Sapucaí foi o mesmo das ruas de Recife e Salvador: Lula não só sai na rua, ele é da rua. Ele é o povo Brasil da Silva.

Há algo de profundamente simbólico nesse roteiro carnavalesco. O presidente que a extrema direita tenta pintar como isolado percorreu três das maiores festas populares do país em menos de 48 horas. Foi abraçado por governadores e prefeitos de partidos diferentes, aplaudido por multidões, homenageado por artistas, celebrado por jovens beneficiários de políticas públicas. E antes mesmo que o carnaval acabasse, foi pra mais uma missão, dessa vez cumprindo compromissos internacionais na Índia, buscando parcerias e investimentos para o Brasil.

O carnaval é, historicamente, espaço de crítica social, de inversão simbólica, de afirmação popular. Foi no samba que o Brasil negro contou sua própria história quando os livros oficiais o silenciavam. Foi nos blocos que a democracia respirou em tempos autoritários. E é na rua que se mede a vitalidade de um projeto político.

Quando a imprensa pergunta se “o carnaval foi ruim para Lula”, talvez esteja olhando para a festa com a régua errada. Carnaval não é pesquisa qualitativa de gabinete. Carnaval é termômetro social, é contato direto, é pulsação coletiva.

Há quem prefira medir a política apenas pelos algoritmos e pelos cortes de vídeo nas redes. Mas a política brasileira ainda se faz no corpo a corpo, no olho no olho, no abraço suado de frevo, no coro da avenida.

A extrema direita apostou na ideia de que Lula estaria “acuado”, “rejeitado”, “impedido de circular”. O que se viu foi o contrário: um presidente que, aos 80 anos, percorre o país em pleno carnaval, enfrenta calor, multidão, críticas pontuais, aplausos massivos, e segue adiante.

Carnaval triste é o de quem está preso ao ressentimento, à mentira e ao golpismo. O carnaval de Lula foi político, simbólico e vibrante. Foi o carnaval de um Brasil que dança, mas que também sabe o que está em jogo. Foi o carnaval de um presidente que não se esconde e que entende que governar também é ocupar as ruas.”

(*) Professora, Doutoranda em Educação e Secretária Nacional Adjunta de Comunicação do PT.

Tópicos: