‘O fim da escala 6×1 e a disputa sobre o Brasil que queremos construir’
Neste artigo, a secretária de Planejamento e Finanças do PT, Gleide Andrade, afirma que defender redução da jornada é defender o direito ao tempo e à vida
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Por Gleide Andrade (*)
O debate sobre o fim da escala 6×1 ultrapassa, em muito, a discussão sobre a organização da jornada de trabalho. Ele toca em uma questão central para qualquer projeto de país: que valor o Brasil atribui à vida de quem trabalha. Em um cenário marcado pelo aumento do adoecimento mental, pela precarização das relações de trabalho e pela naturalização da exaustão, discutir a jornada é discutir o modelo de desenvolvimento que se pretende sustentar.
A escala 6×1 — seis dias de trabalho para apenas um de descanso — não é fruto do acaso nem de uma suposta necessidade técnica da economia. Ela é resultado de escolhas políticas históricas que colocaram a maximização do lucro acima da dignidade humana. Ao longo do tempo, consolidou-se no Brasil a ideia de que trabalhar mais horas seria sinônimo de progresso, ainda que isso custasse saúde, convívio social e qualidade de vida à classe trabalhadora.
Os efeitos desse modelo são visíveis. O crescimento dos afastamentos por transtornos mentais, o esgotamento físico e emocional e a dificuldade de conciliar trabalho, estudo, cuidado e vida familiar não são fenômenos isolados. Eles compõem um quadro estrutural de um país que organiza o trabalho a partir da lógica da exaustão. A escala 6×1 se insere exatamente nesse contexto: ela reduz o tempo de descanso ao mínimo e transforma o cotidiano em uma rotina de sobrevivência.
Defender o fim da escala 6×1 é, portanto, defender o direito ao tempo. Tempo para descansar de forma real, e não apenas sobreviver entre um turno e outro. Tempo para cuidar da saúde, fortalecer vínculos, participar da vida comunitária e exercer plenamente a cidadania. O tempo livre não é luxo nem privilégio; é condição básica para uma sociedade democrática e socialmente saudável.
Ao contrário do que afirmam setores conservadores, a redução da jornada de trabalho não representa atraso econômico. Experiências internacionais demonstram que jornadas mais equilibradas aumentam a produtividade, reduzem o adoecimento e melhoram a qualidade do trabalho. O que está em disputa não é a viabilidade da mudança, mas quem arca com os custos do modelo atual: hoje, eles recaem quase exclusivamente sobre quem vive do próprio trabalho.
É nesse ponto que o debate se conecta diretamente ao projeto político em curso no país. O governo Lula, ao recolocar o trabalho, a dignidade e a justiça social no centro da agenda pública, reabre uma discussão que foi deliberadamente abafada durante os anos de desmonte dos direitos trabalhistas. Falar sobre o fim da escala 6×1 não é uma pauta isolada, mas parte de um esforço maior de reconstrução do Estado e de valorização da classe trabalhadora.
A resistência ao tema revela muito. Quando setores empresariais e forças políticas tratam a redução da jornada como ameaça, o que defendem, na prática, é a manutenção de um sistema que socializa o cansaço e privatiza os lucros. Um sistema que aceita o adoecimento coletivo como preço do crescimento econômico. Questionar a escala 6×1 é questionar essa lógica profundamente desigual.
Há também um aspecto histórico que não pode ser ignorado. O Brasil carrega heranças escravocratas e autoritárias que moldaram sua relação com o trabalho. Jornadas extensas, baixa remuneração e pouca proteção social sempre foram impostas às maiorias. Enfrentar a escala 6×1 é, de certa forma, romper com essa herança e afirmar que desenvolvimento não pode continuar sendo sinônimo de exploração.
O país que queremos construir passa, necessariamente, pela forma como organizamos o trabalho e o tempo de viver. Um projeto nacional comprometido com a democracia e com a justiça social não pode aceitar que milhões de pessoas sigam exaustas e adoecidas, sem tempo para existir para além do trabalho.
O fim da escala 6×1 é, no fundo, uma escolha política. Ele expressa a decisão entre dois caminhos: seguir sustentando um modelo que adoece para crescer ou construir um Brasil que cresce cuidando de sua gente. Essa disputa está colocada — e não pode mais ser adiada.
(*) Secretária Nacional de Planejamento e Finanças do Partido dos Trabalhadores
