O papel do PT num mundo em ruptura
Em entrevista à Rede PT de Comunicação, o chanceler Celso Amorim diz que o partido precisa defender as regras internacionais que barrem o uso da força
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“A democracia é como o ar. Só quando ela falta é que a gente dá verdadeiramente valor a ela.” O chanceler Celso Amorim soltou a frase logo no início da conversa com a Rede PT de Comunicação, em seu gabinete, no Palácio do Planalto. O lamento exprime o cenário de um “mundo muito complexo”, como define o assessor especial da Presidência da República e ex-ministro das Relações Exteriores do governo Lula de 2003 a 2010.
No passado, quando o PT ainda nem existia, o jovem Celso tinha receios do que enxergava como “democracia burguesa”. “Mas quando houve o golpe de 64, eu senti, passei a sentir muita falta da democracia burguesa”, recorda o embaixador, descontraído. Passadas décadas da redemocratização brasileira, a ameaça paira no ar. Ou melhor, paira no mundo.
Celso Amorim acha que cabe ao Partido dos Trabalhadores, aos 46 anos de idade, ser mais “radical” que o governo na defesa do multilateralismo, ou seja, no apoio intransigente às regras internacionais que balizam o comportamento dos países e barram o uso da força.
“Acho que talvez uma das principais coisas que o partido deveria defender internacionalmente, para além da solidariedade com outros partidos que têm a mesma linha, é a defesa do multilateralismo. Isso é o que está mais ameaçado. A gente precisa de regras.”
O governo, por ser de coalizão, precisa ter mais cautelas diplomáticas, explica o chanceler. Já o PT tem a liberdade e a capacidade de ser mais “radical”.
As regras, isoladamente, não bastam, observou o ex-ministro. “Têm que ser regras multilateralmente aceitas, não são regras impostas. E eu acho que esse é o principal desafio do no mundo de hoje, e afeta a todos. Porque afeta o governo, afeta o partido e afeta os partidos. Nós estamos vivendo um momento em que a regra é a força. É isso não é bom”, lamentou Amorim.
“Talvez o grande desafio do partido, em geral, é a defesa da democracia, com todos os aspectos sociais que ela tem, de igualdade, combate à desigualdade, etc. Hoje em dia também combinando um pouco a questão do meio ambiente, do clima, de gênero, enfim, uma série de outras questões.”
Neste mundo complexo, continua o embaixador, “hoje em dia ser democrático já é ser de esquerda”. A defesa da democracia é primordial para a construção de consensos externos, diz ele, explicando que é isso que o presidente Lula tem perseguido ao dialogar com governos de direita, desde que tenham claros compromissos com a democracia e as instituições.
Questionado sobre a dificuldade de compreensão do conceito de soberania, e como seduzir a juventude para que se interesse sobre esse tema tão atual, Celso Amorim faz uma associação simples e didática. “No fundo, no fundo, a soberania é um pouco assim o que é a liberdade individual no pessoal.” Soberania, acrescenta, é “ você poder fazer as suas escolhas, o país poder fazer suas escolhas, não ter que pedir licença externamente para você ter uma política, como no caso do meio ambiente, de política externa. É se relacionar com quem te interessa.”
Se soberania é liberdade, multilateralismo tem equivalência com democracia, explica o chanceler: “O multilateralismo, mal comparando também, é o que é a democracia no plano interno. Quer dizer, você respeitar regras, respeitar leis e não tomar decisões arbitrárias e pela força.”
Veja no Canal do PT no YouTube trechos da entrevista:
