‘Tudo se resolve por guerra? Quando é que vamos dizer que isso não é normal?’
Em discurso na Celac-África, Lula cobra reação dos países do Sul Global e critica passividade do Conselho de Segurança da ONU ao ver o mundo ser destruído
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“Como ser humano, como democrata e como presidente do Brasil”, Luiz Inácio Lula da Silva afirmou, em discurso no 1º Foro de Alto Nível da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) – África, na Côlombia, estar “indignado com a passividade” dos países que integram o Conselho de Segurança das Nações Unidas (ONU) que assistem ao mundo ser destruído por guerras no Irã, Iraque, em todo o Oriente Médio, na Faixa de Gaza, na Líbia e na Ucrânia.
Árduo defensor da paz, da diplomacia e do multilateralismo, Lula tem apelado, em discursos recentes, para o bom senso dos governantes mundiais. “Quando é que a gente vai tomar uma atitude para não permitir que os países mais poderosos se achem donos dos países mais frágeis?”, afirmou no sábado, 21, sem mencionar nomes de chefes de Estado, como Donald Trump, que lidera uma nova fase geopolítica de dominação sob o uso da força.
Lula voltou a cobrar um movimento global por uma renovação urgente da ONU e da Organização Mundial do Comércio, algo que precisa ser organizado também a partir de uma coesão do Sul Global, defendeu. Ele também cobrou a realização de uma reunião extraordinária dos países para que se discuta o papel dos membros do Conselho de Segurança. “Por que não se renova? Por que não se colocam mais países representando o Conselho de Segurança da ONU?”, provocou.
Ao citar exemplos de intermediações diplomáticas das quais participou como presidente, inclusive em diálogo com o Irã em 2010 sobre armas nucleares, Lula instou os países a reagir ao cenário geopolítico atual: “Tudo se resolve por guerra? Ou seja, quem tem mais canhão, quem tem mais navio, quem tem mais avião, quem tem mais dinheiro, se acha dono do mundo? Quando é que nós vamos dizer que isso não é normal? Quando é que nós vamos dizer que nós queremos voltar a ter uma relação civilizada entre as nações, que nós não vamos permitir o fim do multilateralismo e que a gente vai garantir que somente a paz é que pode fazer com que o mundo pobre possa se desenvolver?”.
O presidente brasileiro não escondeu seu incômodo diante de governos que contabilizam mortos e assistem ao mundo ser destruído. “E quando é que nós vamos reagir?”
Segundo Lula, a reforma da Organização Mundial do Comércio, hoje presidida pela nigeriana Ngozi Okonjo-Iweala [Ingozi Ôconjo Iuêala], “é imprescindível e urgente”. Se os países do Sul Global não agirem de forma coesa, disse o petista, a OMC poderá “cristalizar um cenário de paralisia que joga contra o comércio baseado em regras multilateralmente estabelecidas”.
Conexão América Latina e África
Lula lembrou o Dia Internacional pela Eliminação da Discriminação Racial, 21 de março, para celebrar a união entre os continentes sul-americano e africano. “O Brasil, a América Latina e o Caribe integram a 6ª região da União Africana. 153 milhões de afrodescendentes vivem em nossos países”, citou o presidente.
Lula afirmou que o Brasil “ainda está longe de pagar sua dívida com a África por 350 anos de escravidão”, mesmo tendo desenvolvido diversas políticas públicas para promoção da igualdade racial. Ele disse aguardar como um próximo passo a realização da Cúpula de líderes da CELAC e da África.
Essa conexão deve se dar a partir de uma agenda futura, disse Lula, que engloba os seguintes eixos: combate à fome, enfrentamento à mudança do clima e a preservação do meio ambiente, investimentos em infraestrutura digital e salta tecnológico, com uso de IA, além de trocas comerciais e fluxos de investimento que conferem lastro às relações políticas entre os países.
“Compartilhamos a responsabilidade de cuidar das duas maiores florestas tropicais do mundo: a Floresta Amazônica e a do Congo”, mencionou o presidente.
Lula pontuou que os dois continentes, juntos, “congregam quase a metade dos países do mundo e um quarto da população mundial”. “Mas ainda somos penalizados por uma ordem desigual, estabelecida enquanto o colonialismo e o apartheid prevaleciam em muitas partes do mundo. Não faz sentido que a América Latina e a África não tenham representação adequada no Conselho de Segurança da ONU”, enfatizou o brasileiro.
Rede PT de Comunicação.
