‘Vamos conversar com quem não vota em nós’

A sindicalistas, o presidente nacional do PT, Edinho Silva, diz que só a esquerda é capaz de oferecer uma agenda de transformação verdadeira a uma sociedade indignada

Isa Conzi

Edinho Silva falou a sindicalistas e representantes de movimentos sociais sobre a necessidade de ampliar os diálogos.

A uma plateia de sindicalistas e representantes de movimentos sociais, num encontro para debater o futuro do país, o presidente nacional do PT, Edinho Silva, fez uma retrospectiva histórica para avaliar o cenário a ser enfrentado nas eleições de 2026, em que a maior parte da população brasileira alimenta um sentimento de insatisfação e indignação com o sistema político atual. Numa fala com provocações à esquerda, ele disse que é preciso compreender as decepções globais da sociedade para dialogar com o campo que não vota no Presidente Lula e no PT, furando a bolha da polarização. 

“Se nós representarmos a indignação do povo brasileiro com propostas concretas, eu tenho certeza que nós vamos furar essa bolha da polarização. Eu tenho certeza que nós vamos conversar hoje com quem não vota em nós, e eu tenho certeza que se nós capturarmos esse sentimento de insatisfação, o presidente Lula vence as eleições no primeiro turno”, avaliou. O encontro foi realizado em São Paulo, na quarta-feira, 11.

Edinho avaliou que a eleição de 2018 foi um sinal de resistência da sociedade, e que em 2022 “lavamos a nossa honra e a nossa alma reconduzindo o presidente Lula ao Palácio do Planalto”. Ele repetiu que o partido, a militância e os movimentos sindicais e sociais precisam compreender essa disputa eleitoral dentro de um contexto histórico, que está relacionado ao esgotamento e colapso do capitalismo, que ganha força a partir da crise financeira de 2008 nos Estados Unidos. Como consequência, se viu a ascensão da extrema direita, que soube explorar esse sentimento de frustração generalizada com a vida e a política.

“Só a esquerda pode apresentar uma bandeira de transformação. Só a esquerda é a verdadeira Nós somos os verdadeiros interlocutores que tem uma proposta de transformação. Só a esquerda pode capturar esse sentimento de insatisfação por uma agenda de transformação, não de ódio e não de tolerância”, repetiu o presidente do PT.

A crise de 2008 intensifica os processos de concentração da renda. “O mundo está mais pobre. A economia global não consegue ter um ciclo virtuoso que impere neste momento, portanto, o mundo entrou num processo de empobrecimento.” Como consequência, o nacionalismo aflora cada vez mais, com ascensão de processos sociais cada vez mais excludentes. 

“Se o mundo está mais pobre, é a Alemanha para os alemães, a Inglaterra para os ingleses, os Estados Unidos, os americanos, Portugal para os portugueses… e assim por diante. Ou seja, se o mundo tá mais pobre, eu quero a riqueza que é produzida para mim.” A agenda fascista, de homofobia, negacionismo, xenofobia, as pautas conservadoras, é a agenda da direita, frisou. E essa não é a agenda da esquerda, disse Edinho.

Portugal é um alento

A vitória socialista em Portugal, disse, dá à esquerda um “alento”. Porém, é neste cenário adverso, afirmou ele, que se dará a disputa presidencial de 2026. “Se a gente vota e o mundo não melhora, isso que está aí não me serve. Porque esse modelo que tá organizado não não garante a melhora da minha vida. Então, por que eu vou participar disso? E nós estamos vendo crescer no mundo o movimento antissistema. Mas quem capitaliza esse movimento no mundo? A direita”, explicou.

Neste mundo antissistema, a esquerda deve fazer política ciente das condições dadas na realidade: “A gente tem que começar a perguntar quais as propostas que nós podemos elaborar que renovem o sistema político do Brasil”.

A comparação entre o governo Lula e o governo Bolsonaro deve ser feita, disse Edinho, mas o PT precisa mostrar uma agenda concreta de propostas transformadoras para o futuro. Essa agenda precisa propor uma reforma da renda, na segurança pública, mudanças no sistema eleitoral, o fim da jornada 6×1, a tarifa zero do transporte público, reforma do Judiciário e reforma do sistema eleitoral.

“Temos que disputar agora em 26 algo que o presidente Lula teve coragem de fazer. Que é a reforma da renda. É um desafio global, não só do Brasil”, afirmou Edinho. A reforma do Judiciário é necessária, mas defendendo a instituição, pois “é o Poder Judiciário que zela pelo aparato legal da democracia”. Também cabe à esquerda, disse ele, apresentar com clareza ações e propostas de combate à corrupção e de mudanças no sistema político. “O PT não pode abrir mão do voto em lista, uma bandeira histórica, porque só o voto em lista coloca o partido, o programa partidário, como o centro. Portanto, ninguém vota em indivíduos, as pessoas têm que votar no programa do partido, é na proposta do partido na sociedade.”

A esquerda também precisa enfrentar o debate das emendas impositivas, que tiram da União R$ 62 bilhões. 

Dialogar com os que usam farda

Sobre a segurança pública, o PT e a esquerda precisam deixar claro que modelo defendem. “Não concordamos é que a segurança pública seja igual à polícia que mata. Isso não é concepção de segurança pública. A filha e o filho da mãe trabalhadora e do pai trabalhador, que sai de casa para estudar ou por lazer, tem o direito de voltar para casa com vida.”

Para fazer esse debate, é preciso dialogar com os policiais, que são trabalhadores precarizados e vulneráveis. “A gente dá de barato que todo mundo que veste farda não conversa com a gente. Nós queremos conversar com eles sim. Queremos uma segurança pública que valorize o trabalhador da segurança, o trabalhador da polícia, que adote tecnologia.”

Edinho encerrou dizendo ter a certeza de que o movimento sindical da esquerda e os movimentos sociais têm plenas condições de criar comitês para fazer esse debate diretamente nos territórios, nas bases sociais.

Da Rede PT de Comunicação.

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