Governo Lula quer garantir descanso sem prejudicar volta de caminhoneiros para casa

Ministro Renan Filho diz que proposta de flexibilização deve ser apresentada esta semana. Ideia é que caminhoneiros não precisem parar se estiverem perto de casa

Fábio Rodrigues Pozzebom - Agência Brasil

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva prepara novas medidas para fortalecer os caminhoneiros autônomos, com foco direto em uma das principais demandas da categoria: o direito a um descanso digno. A proposta, construída a partir de diálogo direto com os trabalhadores, prevê a flexibilização excepcional da parada obrigatória quando o profissional já estiver retornando para casa após concluir o frete. O governo tem dialogado também para evitar que o conflito no Oriente Médio e um eventual impacto no preço do diesel possa levar a uma paralisação da categoria.

A iniciativa sobre o descanso foi detalhada pelo ministro dos Transportes, Renan Filho (MDB-AL), durante o programa Bom Dia, Ministro, exibido pela Empresa Brasil de Comunicação (EBC). Segundo ele, uma definição pode ocorrer ainda nesta semana.

O Governo Lula quer preservar o direito ao descanso, uma conquista histórica da categoria, sem ignorar a realidade de quem passa dias longe de casa. “Queremos encontrar um meio termo. Por exemplo, quando o caminhoneiro está retornando para sua casa e tem de parar, às vezes estando a poucas horas de casa”, explicou o ministro Renan Filho.

A medida busca corrigir distorções práticas da legislação atual, que, embora seja importante para garantir a segurança nas estradas, pode penalizar o caminhoneiro em situações específicas. Hoje, a regra exige descanso a cada 11 horas de direção, mas parte desse dispositivo já foi considerada inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal (STF), abrindo espaço para ajustes.

Renan Filho reforçou que o descanso segue sendo prioridade, mas destacou a necessidade de sensibilidade nas regras. “Mas não se pode obrigá-lo a parar quando, ao retornar do frete, estiver a uma hora e meia de casa, por exemplo, com sua esposa esperando.” A avaliação é que, além do impacto emocional, a obrigatoriedade pode gerar custos desnecessários, já que muitos motoristas precisam pagar por locais de parada mesmo estando próximos de casa.

Preço mínimo do frete

O olhar mais humano sobre a rotina dos caminhoneiros faz parte de uma estratégia mais ampla do governo federal, que tem atuado em várias frentes para valorizar a categoria. Entre elas, está o reforço ao piso mínimo do frete.

Para Renan Filho, garantir uma remuneração justa é essencial para equilibrar a relação entre grandes empresas e trabalhadores autônomos. “Tem que haver um equilíbrio entre o frete que o caminhoneiro que só tem um caminhão recebe e a grande companhia, porque ela transforma o esmagamento do caminhoneiro em margem de lucro”.

O ministro complementou ainda que as medidas têm forte caráter social: “Não é só você [grande empresa] que é importante, o caminhoneiro do Brasil também é importante, assim como o trabalhador que ganha salário mínimo é importante”.

Renan Filho rebateu críticas de que a medida poderia encarecer produtos ao consumidor final, argumentando que, na prática, o que ocorria era o aumento das margens de lucro das grandes companhias às custas dos caminhoneiros. “Grandes companhias não pagavam o preço mínimo do frete para ampliar o lucro. Não vira preço. Companhias como na área da celulose, empresa de bebida, de distribuição de proteína animal, essas grandes empresas, elas não botam isso no preço, porque elas não conseguem”.

Tecnologia e fiscalização

Para garantir o cumprimento das regras, o governo também aposta em tecnologia e fiscalização eletrônica. O uso obrigatório do Código Identificador da Operação de Transporte (CIOT), integrado a sistemas fiscais e operado com inteligência artificial, permitirá bloquear pagamentos abaixo do piso antes mesmo que a operação seja concluída.

“Não haverá falha porque a fiscalização é eletrônica e faz uso de inteligência artificial para barrar pagamentos abaixo do valor mínimo do frete em todo o país”, afirmou Renan Filho.

O endurecimento das punições também é parte central da estratégia. Empresas que descumprirem a tabela poderão sofrer desde suspensão até cancelamento do registro, além de multas que podem chegar a R$ 10 milhões por operação.

Assista à entrevista:

Da Rede PT de Comunicação, com informações da Agência Brasil e da Agência Gov.

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