Lula critica guerras e governantes: ‘Não teria fome se houvesse bom senso’

Em Conferência da FAO, presidente pede resposta da ONU sobre conflitos e que líderes de países do Conselho de Segurança imponham freio à corrida armamentista

Ricardo Stuckert/PR

Lula criticou, em Conferência da FAO, envolvimento de países com guerras, enquanto miséria e fome persistem.

O presidente Lula condenou duramente, nesta quarta-feira (4), na abertura da 39ª Conferência da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), em Brasília, os gastos exorbitantes dos países desenvolvidos com guerras enquanto milhões de seres humanos encaram a fome e a miséria no mundo. “As pessoas importantes do planeta, que deveriam estar preocupadas com a fome, estão preocupadas com guerra”, apontou. O presidente pediu paz no mundo e que os líderes de todos os países integrantes do Conselho de Segurança da ONU (EUA, Inglaterra, França, Rússia e China) imponham freio à corrida armamentista, deixando de negligenciar a erradicação da fome.

“Eu fico muito emocionado de saber que a fome mexe muito pouco com o coração dos governantes do mundo. Mexe com muitos seres humanos, individualmente, mexe com ONGs, mexe com igrejas, mas não sensibiliza muito o coração dos governantes”, lamentou o petista.

“Porque as pessoas que passam fome, na maioria dos países do mundo, são tratadas como se fossem invisíveis. As pessoas não as querem enxergar”, prosseguiu.

Lula argumentou que se todo o orçamento militar dos países em 2025, cerca de US$ 2,7 trilhões, fosse distribuído aos mais de 630 milhões de indivíduos que passam fome no mundo, cada um receberia quase US$ 4,3 mil.

“Vocês percebem que não precisaria ter fome se houvesse o bom senso dos governantes?”, questionou.

O petista ainda foi aplaudido ao mencionar Cuba e ao pedir o fim do embargo desumano à ilha. “Pasmem: Cuba não está passando fome porque não sabe produzir, Cuba não está passando fome porque não sabe construir a sua energia, Cuba está passando fome porque não querem que Cuba tenha acesso às coisas que todo mundo deveria ter direito.”

Papel da ONU

Em um tom crítico e de lamento, Lula afirmou que “a ONU está ficando desacreditada” e não está cumprindo o seu papel como está previsto na Carta de 1945. “A ONU está cedendo ao fatalismo dos senhores das guerras e não tem espaço pra os senhores da paz.” Sem citar especificamente o recente ataque dos Estados Unidos e Israel ao Irã, Lula questionou por que a ONU ainda não convocou uma conferência global para discutir os conflitos recentes.

“Vocês acham normal o presidente [Donald] Trump todo dia ficar dizendo: eu tenho o maior navio do mundo, eu tenho o maior exército do mundo? Por que ele não fala: eu tenho a maior capacidade de produção de alimento do mundo?”, provocou o presidente Lula.

Ele mencionou a guerra da Rússia com a Ucrânia, que se arrasta por mais de quatro anos, mesmo que todos já saibam o seu desfecho. E os líderes seguem incapazes de negociar um acordo, reagiu o presidente.

América Latina: zona de paz

Lula pregou a união latino-americana e a libertação dos povos da região da constante exploração por parte dos mais ricos. Ele lembrou que a América Latina é uma ‘zona de paz’, em meio a ânimos acirrados e belicosos.

“Nós não queremos submissão. Nós não queremos viver de favor. Nós queremos, de forma soberana, dar alimentação para o nosso povo, e qualquer país da América Latina, do Caribe, pode dar alimentação ao nosso povo”, afirmou.

“Aqui no Brasil, nós fizemos a opção de não possuir armas nucleares na nossa Constituição. Porque, há muito tempo, a gente chegou à conclusão de que aquele ditado ‘quem quer paz se prepara para guerra’ é para quem quer fazer guerra. Nós queremos paz”, completou Lula.

Presente à 39ª Conferência Regional da FAO, o ministro de Relações Exteriores, chanceler Mauro Vieira, por sua vez, ponderou que a América Latina é notabilizada pela produção de alimentos e que a erradicação da fome depende apenas de decisões políticas.

“Somos uma potência agroalimentar inovadora, profundamente conectada à terra, às águas e às florestas”, exaltou Vieira. “Somos a primeira região a assumir o compromisso coletivo de erradicar a fome, mas também sabemos, como nos ensinou o brasileiro Josué de Castro, que a fome não é um fenômeno natural, mas uma criação humana”, concluiu.

Heroína contra a fome

Durante a cerimônia da FAO, a primeira-dama, Janja, recebeu da organização o título de “Campeã Especial da Boa Vontade Contra a Fome” por suas ações em todo o Brasil. Ela reafirmou o compromisso de erradicação da fome, principalmente tendo como foco as mulheres e meninas em condição de vulnerabilidade.

“A força da experiência brasileira na luta contra a fome é histórica e conhecida mundialmente, graças ao trabalho do presidente Lula, que tirou nosso país novamente do mapa da fome. Um dos nossos maiores orgulhos é o Programa Nacional de Alimentação Escolar [Pnae], do qual tenho a honra de ser embaixadora”, elogiou Janja.

Da Rede PT de Comunicação, com informações da FAO. 

Tópicos: