‘O voto evangélico não está decidido’
Quase metade desse eleitorado ainda não definiu o voto, o que indica uma disputa política ainda aberta, afirma Luís Sabanay neste artigo
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Por Luís Sabanay (*)
“Pesquisas apresentam números. Manchetes frequentemente destacam interpretações desses dados. A distinção entre essas duas dimensões ajuda a compreender o debate recente sobre o voto evangélico no Brasil.
Nas últimas semanas circularam manchetes afirmando que uma pesquisa do instituto Datafolha indicaria ampla vantagem de Flávio Bolsonaro sobre Luiz Inácio Lula da Silva entre eleitores evangélicos. Algumas publicações chegaram a afirmar que o candidato teria “o dobro” das intenções de voto nesse segmento.
A formulação chama atenção, mas não corresponde com precisão ao significado político dos dados quando observados em seu conjunto.
Segundo levantamento do Datafolha realizado entre 3 e 5 de março de 2026, com 2.004 entrevistas em 137 municípios e margem de erro de dois pontos percentuais, Flávio Bolsonaro aparece com cerca de 30% das intenções de voto entre eleitores que se declaram evangélicos, enquanto Lula registra aproximadamente 23%. A diferença estimada entre os dois candidatos é, portanto, de cerca de sete pontos percentuais.
O problema da interpretação
A expressão “o dobro”, utilizada em algumas manchetes, pode ampliar a percepção pública da vantagem eleitoral. Em termos numéricos, porém, 30% contra 23% representa uma vantagem moderada, não uma diferença equivalente ao dobro de votos.
Outro dado relevante da mesma pesquisa aparece com menor destaque nas manchetes. Entre eleitores evangélicos, a soma de indecisos, votos brancos e nulos varia entre 45% e 47%. Isso significa que quase metade desse eleitorado ainda não definiu sua escolha.
Considerando que os evangélicos já representam aproximadamente um terço do eleitorado brasileiro, esse contingente pode corresponder a algo entre 20 e 25 milhões de eleitores ainda indefinidos — número muito superior à diferença atual entre os candidatos.
Liderança em pesquisa não é vitória eleitoral
Os dados indicam que Flávio Bolsonaro lidera entre evangélicos neste momento. No entanto, liderança em um recorte específico de pesquisa não significa necessariamente vantagem eleitoral consolidada, especialmente quando uma parcela significativa do eleitorado ainda não definiu o voto.
Pesquisas capturam preferências em determinado momento. Resultados eleitorais dependem da evolução dessas preferências ao longo da campanha, da capacidade de mobilização política, das alianças políticas e da avaliação das condições de vida da população.
A série histórica
Quando se observa a evolução das pesquisas nas últimas eleições, surge um dado relevante.
Em 2018, Jair Bolsonaro registrava cerca de 55% a 60% das intenções de voto entre evangélicos, enquanto Fernando Haddad aparecia com aproximadamente 25% a 30%. A diferença naquele momento superava 30 pontos percentuais.
Na eleição de 2022, Bolsonaro registrou cerca de 49% entre evangélicos, enquanto Lula apareceu com aproximadamente 32%. A diferença caiu para algo próximo de 17 pontos.
No cenário atual medido pelo Datafolha, a distância estimada é de cerca de sete pontos. A sequência indica que a vantagem eleitoral da direita entre evangélicos continua existindo, mas diminuiu ao longo das últimas eleições.
Transformações do eleitorado evangélico
Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, em 2010 os evangélicos representavam cerca de 22% da população brasileira. Estimativas demográficas e pesquisas de opinião indicam que hoje já se aproximam de um terço da população.
Esse crescimento ocorreu principalmente nas periferias urbanas e entre trabalhadores de renda média e baixa. Como consequência, o eleitorado evangélico tornou-se socialmente mais diverso e politicamente menos homogêneo.
Não existe um único perfil evangélico no país. Há diferenças regionais, sociais, geracionais e denominacionais.
O que está em disputa
Se a pesquisa mostra liderança de Flávio Bolsonaro entre evangélicos neste momento, ela também revela um quadro político ainda aberto. A distância entre os candidatos diminuiu ao longo das últimas eleições e quase metade desse eleitorado permanece indecisa.
Além disso, estudos recentes indicam que parte do eleitorado evangélico manifesta resistência simultânea ao bolsonarismo e ao petismo. Nesses casos, o impacto eleitoral pode aparecer não apenas na migração direta de votos entre candidatos, mas também em níveis mais altos de abstenção, voto branco ou indecisão. Esse fenômeno sugere que o comportamento político desse segmento é mais complexo do que frequentemente se supõe.
Isso indica que o voto evangélico está longe de constituir um bloco eleitoral homogêneo. Mais do que um eleitorado definido antecipadamente, trata-se hoje de um campo político em disputa.
A eleição dependerá menos de quem lidera uma fotografia momentânea das pesquisas e mais de quem conseguirá construir confiança política nesse segmento ao longo da campanha.
(*) Pastor presbiteriano e teólogo. Integrante do Diretório Nacional do Partido dos Trabalhadores e coordenador do Núcleo de Estudos sobre Religião da Fundação Perseu Abramo.
Da Rede PT de Comunicação.
