As elites brasileiras não gostam do Programa Bolsa Família e promovem narrativas mentirosas que pretendem tirar a credibilidade do programa e manchar o seu enorme sucesso. Segundo expoentes dessas elites, a iniciativa “desincentiva” as pessoas a procurarem emprego e não contribui para que elas saiam da pobreza.
De Luciano Hang, da Havan, a Luciano Huck, conhecido apresentador que empresta seu sucesso para fazer propaganda de bets, todos tiram casquinha falando mal do programa e, pior ainda, disseminando muita desinformação e preconceito.
A fala absurda mais recente foi a do apresentador Luciano Huck, que afirmou, num evento fechado de empresários, o 5º Fórum Esfera, realizado no Guarujá, litoral de São Paulo, que o Bolsa Família “não gera nenhum tipo de estímulo para as famílias quererem sair. Na verdade, elas criam um monte de atalhos para conseguir ficar no programa de distribuição de renda ad aeternum”.
Quando o preconceito e a falta de conhecimento são muito grandes, as pessoas se sentem autorizadas a falar inverdades em profusão, sem qualquer constrangimento. Se Luciano Huck tivesse se dado ao trabalho de pesquisar minimamente sobre o programa, ele ficaria sabendo que a proposta do Governo Federal prevê, sim, mecanismos para as famílias conseguirem se estabelecer no mercado de trabalho e sair do programa.
E se tivesse se preocupado em buscar informação de verdade, o apresentador iria descobrir que:
- O Bolsa Família evitou mais de 700.000 mortes e oito milhões de internações em duas décadas, protegendo especialmente crianças menores de 5 anos e idosos (Fonte: Agência Fiocruz de Notícias)
- Em 10 anos, 60,7% dos beneficiários conseguiram deixar o Bolsa Família; entre jovens de 15 a 17 anos, a taxa de saída é de 71,25% (Fonte: Ministério do Desenvolvimento Social e Fundação Getúlio Vargas)
- Segundo o estudo “Filhos do Bolsa Família”, realizado pela Fundação Getúlio Vargas, o programa é também um instrumento de mobilidade social, além do alívio aos efeitos da pobreza imediata;
- De acordo com esse mesmo estudo: em áreas urbanas, a taxa de saída de jovens de 6 a 17 anos (67%) supera a de regiões rurais (55%); jovens de 6 a 17 anos em famílias na qual a pessoa de referência tem emprego com carteira têm taxa de saída (79,40%) superior à de quem trabalha sem carteira (57,51%) e por conta própria (65,54%); jovens de 6 a 17 anos em famílias na qual a pessoa de referência tem ensino médio têm taxa de saída (70%) acima de quando a escolaridade é apenas fundamental completo (65,31%).
- O estudo “Filhos do Bolsa Família” também apresentou dados sobre o Novo Bolsa Família, programa que foi iniciado em 2023, com o novo Governo Lula. Segundo o levantamento, entre os beneficiários observados no início de 2023, cerca de um terço (31,25%) já não estava mais no programa em outubro de 2025. Entre jovens de 15 a 17 anos, a saída é ainda mais elevada nos três anos: 42,59%;
- Do início de 2023 a outubro de 2025, a entrada mensal de famílias no programa, cerca de 359 mil, fica abaixo da média de saída, de 447 mil (Fonte: “Filhos do Bolsa Família”, Fundação Getúlio Vargas);
- O Bolsa Família contribuiu para que milhões de brasileiros saíssem da miséria, como atestou o IBGE, num levantamento divulgado em 2025 que mostrou que mais de 8 milhões de brasileiros deixaram a linha de pobreza em 2024, reduzindo a proporção da população na pobreza para 23,1%, a menor já registrada desde 2012 (Fonte: Agência Brasil)
- Entre 2023 e 2024, a fome no Brasil registrou redução maior em casas de família beneficiárias do Bolsa Família chefiadas por mulher (Fonte: Agência Brasil – estudo ‘Mulheres no centro da redução da insegurança alimentar no Brasil’, da FGV);
- Em 18 anos de existência do programa (de 2003, quando foi criado pelo presidente Lula, em seu primeiro mandato, até 2021, quando foi extinto pelo governo Jair Bolsonaro), o Bolsa Família tirou 3,4 milhões de pessoas da pobreza extrema, reduziu em 16% a mortalidade infantil, aumentou a participação escolar feminina, reduziu a desigualdade regional, melhorou os indicadores de segurança alimentar, gerou efeito multiplicador no PIB – cada R$ 1 gasto com o Bolsa Família gera um impacto de R$ 1,78 no Produto Interno Bruto brasileiro –, promoveu queda na fecundidade feminina (Fonte: “8 dados que mostram impacto do Bolsa Família, que chega ao fim após 18 anos”, BBC News Brasil, 29-10-2021)
Os dados acima dão um rápido panorama do conjunto de mudanças e conquistas promovidas pelo programa Bolsa Família desde que foi criado, em 2003.
Luciano Huck, em vez de procurar informação correta e decente em fontes confiáveis, fartamente disponíveis, preferiu seguir a cartilha da desinformação e disseminar inverdades sobre o programa.
O êxito do Bolsa Família é reconhecido internacionalmente e foi apontado pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO/ONU) como uma das políticas públicas essenciais para erradicar a pobreza extrema e garantir a segurança alimentar no Brasil. E foi um dos principais fatores que levaram o Brasil a sair do Mapa da Fome por duas vezes (nos governos petistas, é sempre bom lembrar).
Sendo um personagem midiático reconhecido, Huck presta um enorme desserviço ao se colocar como um agente que dissemina inverdades. E não estamos falando em termos de discordância: ele tem todo o direito de discordar, aliás, todos podem discordar de tópicos do programa, da metodologia, da aplicação. Mas para discordar e criticar publicamente é necessário estar embasado por pesquisas e informação correta, não por achismos ou fake news, pois as vozes de pessoas públicas a serviço da desinformação e da disseminação de preconceitos atrapalha, e muito, a democracia.
Após o vazamento de sua fala, Luciano Huck tentou se explicar dizendo que a manifestação foi em ambiente privado e que sua declaração foi retirada de contexto – ele também negou que seja contra programas de assistência social.
Talvez tenha se manifestado em função da péssima repercussão de sua declaração nas redes. Segundo levantamento da Nexus – Pesquisa e Inteligência de Dados divulgado na segunda-feira (25-05), a fala do apresentador teve repercussão bastante negativa: “Por meio de análise amostral nas redes X, Facebook e Instagram, levantamento da Nexus aponta ainda que as menções ao apresentador cresceram 2.786% entre sábado (23) e domingo (24). No mesmo cenário, as menções ao Bolsa Família saltaram 2.084%”.
Nesse circuito elitista, a fala preconceituosa de Luciano Huck, infelizmente, não chega a ser novidade, estando inclusive bastante alinhada a uma declaração do então presidente Jair Bolsonaro, em 28 de outubro de 2021, em entrevista ao apresentador Sikêra Jr., da Rede TV, quando afirmou que quem recebe o Bolsa Família “não sabe fazer quase nada”.
Mentiras em profusão, preconceito, discurso de ódio
De tempos em tempos, o programa Bolsa Família é alvo não somente de desinformação, mas de discurso de ódio. No âmbito das fake news, algumas das mais disseminadas são: pagamento de Bolsa Família para mãe de bebê reborn, cancelamento do programa, criação de um falso 13º salário, cobrança de taxas para atualização do cadastro, proibição de saques em dinheiro com imposição de uso exclusivo de cartão e ameaças de corte por mudança de endereço, entre outras.
Todas essas mentiras, vale ressaltar, causam não somente confusão, mas angústia para muitas pessoas que já estão em situação de vulnerabilidade social.
E para além das mentiras em profusão, as narrativas disseminadas cumprem o papel de fazer a população em geral ter raiva de quem recebe o benefício ao afirmarem, falsamente, que o Bolsa Família ajuda “vagabundo” que não quer trabalhar, leva as mulheres a terem mais filhos para receberem o benefício, que os beneficiários são preguiçosos e querem ficar recebendo benefício para sempre, enfim, há uma avalanche de narrativas mentirosas e preconceituosas inundando as redes.
O programa, por sua vez, segue sendo uma das mais bem-sucedidas experiências de transferência de renda do mundo, capaz de mudar de verdade a vida das pessoas. Mães, com lágrimas nos olhos e sorriso no rosto, abrem a geladeira para mostrar, com orgulho, as frutas e os iogurtes que finalmente conseguem comprar para os filhos. A elite que desperdiça toneladas de alimentos e compra bolsas de R$ 14 mil para as filhas nem faz ideia do que isso significa. Mas, por outro lado, essa mesma elite tem uma vaga ideia de que o programa federal é transformador, revolucionário. Ataca a chaga brasileira da desigualdade.
Qual é a base do rol de preconceitos contra o Bolsa Família?
A pista está numa fala de Jorge Meza, representante da FAO no Brasil, em artigo para o jornal O Estado de São Paulo, quando o Brasil saiu do Mapa da Fome pela segunda vez, em 2025. Ele afirmou, naquele momento:
“(…) a experiência brasileira mostra que combater a fome vai muito além da oferta de alimentos — exige coerência nas políticas públicas, participação social ativa e vontade política. Sair do Mapa da Fome não é apenas um dado estatístico, mas a reafirmação de um pacto nacional baseado em direitos, que coloca a dignidade humana no centro das decisões”.

Esse é o ponto: a dignidade humana. O programa Bolsa Família garante dignidade às pessoas beneficiárias. Dignidade que possibilita às mães comprarem iogurte para seus filhos. Dignidade que leva as mulheres a não se submeterem à violência do machismo. Dignidade que leva as pessoas a não se submeterem a condições degradantes e tóxicas no ambiente de trabalho. Dignidade humana, esse é o segredo maior por trás dessa experiência transformadora que é o Bolsa Família.
E é exatamente esse segredo que incomoda muito as elites e movimenta a máquina de desinformação para construir narrativas falsas e mentiras sobre o programa. Porque uma pessoa com fome se submete a qualquer humilhação, mas uma pessoa que conquistou o mínimo de dignidade, que consegue colocar comida em casa, não vai se submeter jamais.
Seria muito bom ver a mesma indignação que as elites têm contra o Bolsa Família, que tira pessoas da miséria, direcionada às bets, que viciam e lucram com isso. Seria um grande serviço à democracia.
(*) Jornalista, com pós-doutorado em estudos da desinformação pelo Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência (CLE) da Unicamp, doutora e mestre em Linguística e Língua Portuguesa. É pesquisadora do Observatório das Eleições. Sua tese de doutorado sobre o Jornal Nacional discute as estratégias de construção da narrativa do telejornal do impeachment de Dilma Rousseff à eleição de Jair Bolsonaro. Organizou e coordenou, com Leonardo Avritzer, o livro “Eleições 2022 e a reconstrução da democracia no Brasil” (Autêntica). Em 2024, com Avritzer e Marisa Von Büllow, organizou o livro “Democracy Under Attack” (Editora Springer).