Artigo: Ligação Ferroviária Rio de Janeiro (RJ) a Vitória (ES), por Engº. Afonso Carneiro Filho
Uma ferrovia que atenda pessoas, produtos e mercadorias e promova o desenvolvimento do Estado do Rio de Janeiro
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A insistência no traçado da EF-103 ignora a vocação turística e populacional do litoral fluminense, enquanto uma proposta alternativa promete revolucionar a mobilidade e a economia local.
Falar de ferrovia no Rio de Janeiro é falar de escolhas. E escolhas precisam ser feitas com os pés no chão, olhando para a realidade do território, da economia e, principalmente, das pessoas que vivem nele.
Não se trata apenas de deitar trilhos sobre a terra, mas de escolher qual modelo de desenvolvimento queremos para o nosso estado nas próximas décadas.
Ao analisarmos friamente os dados técnicos e a realidade demográfica, uma conclusão se impõe, insistir na ligação ferroviária pelo antigo traçado da EF-103, entre Itaboraí e Macaé, é apostar no atraso e no desperdício.
Sob esse ponto de vista, é preciso dizer com clareza: a ligação ferroviária entre Itaboraí e Macaé pelo traçado da EF-103 não se sustenta. Não há cargas suficientes para justificar sua implantação e operação. Essa não é uma opinião ideológica, mas um dado técnico já comprovado pela própria devolução do trecho pela concessionária FCA/VLi, diante da ausência de demanda.
Manter esse traçado significa correr o risco de repetir um velho problema: uma ferrovia parada, abandonada, que não gera desenvolvimento, não transporta pessoas nem cargas e acaba degradada, canibalizada e invadida com o tempo.
Para agravar, esse caminho não atende ao futuro Porto de Maricá. Para isso, seria necessário construir um ramal de acesso ao porto. Também é previsto o contorno ferroviário em Silva Jardim, devido a impactos em reserva ambiental, elevando custos e sem resolver o problema principal, que é a falta de um mercado ferroviário real.
Existe, no entanto, uma alternativa muito mais conectada com a vida cotidiana do estado. O traçado proposto pelo Setorial Nacional de Logistica, Transportes e Mobilidade Urbana do PT, partindo de Itaboraí e passando por Maricá, Saquarema, Araruama, Iguaba Grande, São Pedro da Aldeia, Cabo Frio, Búzios, Rio das Ostras, Macaé e Campos, segue exatamente onde estão as pessoas, o turismo, o comércio e a economia regional. É uma região viva, dinâmica, onde tem pessoas, produtos e mercadorias que se deslocam todos os dias e que recebe milhões de visitantes todos os anos.
Uma ferrovia nesse eixo não seria apenas um projeto de engenharia. Ela melhoraria a vida das pessoas, oferecendo uma alternativa segura e eficiente de transporte de passageiros e ajudando a desafogar rodovias que hoje estão saturadas, como a BR-101, a RJ-106 e a Via Lagos. Quem enfrenta esses congestionamentos sabe o quanto isso pesa no tempo, no bolso e na qualidade de vida.
Além disso, essa ferrovia permitiria algo essencial para as cidades da Região dos Lagos e do Norte Fluminense: abastecimento mais barato e eficiente. Supermercados, comércio local e até o e-commerce poderiam contar com fretes ferroviários mais estáveis e econômicos do que os rodoviários, reduzindo custos e fortalecendo a economia local.
O debate, no fundo, é simples. O Rio de Janeiro não quer uma ferrovia feita só para commodities, nem uma linha que atravesse o estado sem deixar benefícios. O que o estado precisa é de uma ferrovia a serviço das pessoas, que transporte passageiros, produtos e mercadorias, gere empregos e ajude a organizar o território.
Uma ferrovia só faz sentido quando ela conecta pessoas, oportunidades e desenvolvimento. Apostar no eixo litorâneo é apostar em um Rio de Janeiro mais integrado, mais competitivo e com mais qualidade de vida para sua população.
Engº. Afonso Carneiro Filho é specialista em Transporte e Trânsito / Logística e Cidadão Benemérito do Estado do Rio de Janeiro