Cuba não precisa de tutela, precisa de respeito. Povo cubano não aceita qualquer tipo de intervenção externa

Por Ariovaldo de Camargo, secretário sindical nacional do pt e secretário nacional de Administração e Finanças da CUT, integrante da delegação brasileira de solidariedade a Cuba

Arquivo pessoal

Ariovaldo de Camargo, secretário nacional Sindical do PT, juntamente com Mônica Valente e demais participantes da caravana de solidariedade a Cuba

Nenhum povo do mundo merece ser submetido a sacrifícios em nome de uma disputa ideológica e econômica. Estamos vendo isso em diversos países hoje por conta da atuação do presidente Donald Trump e do governo dos Estados Unidos – e em Cuba, historicamente perseguida por este governo, não está sendo diferente. Pelo contrário, a situação, por conta dos embargos estadunidenses tem colocado a população em situação extrema de precarização.

Entre os dias 19 e 21 de março, a CUT  e o PT participaram da caravana internacional de solidariedade a Cuba “Nuestra America Convoy a Cuba”,  uma experiência que não apenas reforçou convicções políticas e laços históricos entre a CUT, o PT e o povo cubano, mas, sobretudo, revelou de forma concreta o impacto humano de um bloqueio econômico prolongado e intensificado.

A iniciativa, organizada pela Internacional Progressista, reuniu mais de 300 organizações de 33 países. A missão foi inicialmente pensada como uma ação de acompanhamento marítimo, mas a atividade foi transformada, diante das dificuldades impostas pelo embargo dos Estados Unidos, em um grande esforço de solidariedade internacional.

Delegações de movimentos sociais, sindicatos, parlamentares e organizações políticas estiveram presentes, incluindo o Brasil, com alguns representantes, como eu, Monica Valente, da Fundação Perseu Abramo e ex-dirigente sindical da CUT, além de outros companheiros e companheiras comprometidos com a defesa da soberania dos povos.

Foram três dias intensos de reuniões, intercâmbios e mobilizações. No dia 19, realizamos uma reunião preparatória para compreender a situação atual do país. No dia 20, aprofundamos o debate sobre os impactos do embargo e suas consequências diretas sobre a vida da população. Já no dia 21, concluímos as atividades com uma grande manifestação, que contou com a presença de representantes do governo cubano e simbolizou a entrega das doações arrecadadas – cerca de três toneladas de medicamentos e itens de primeira necessidade.

A presença ativa da CUT e do PT foi fundamental nesse processo. Como central sindical e partido político comprometidos com a solidariedade internacional, contribuímos não apenas com apoio material, mas também com a construção política de uma denúncia coletiva contra o bloqueio econômico que asfixia Cuba há décadas, e que, nos últimos anos, foi intensificado de forma particularmente cruel.

O que vimos em Cuba não pode ser relativizado. O endurecimento do embargo, especialmente no que diz respeito à logística de petróleo, tem provocado uma crise de grandes proporções. A matriz energética da ilha depende quase integralmente de combustíveis fósseis. Sem petróleo, não há energia elétrica. E sem energia, o país literalmente para.

Durante nossa estadia, vivenciamos um apagão total que atingiu toda a ilha. Apenas locais com geradores, como alguns hotéis e estruturas específicas, conseguiram manter funcionamento mínimo. O restante do país mergulhou na escuridão. Esse tipo de situação, que tem se tornado cada vez mais frequente, gera não apenas dificuldades práticas, mas também eleva a tensão social.

A falta de energia provoca uma reação em cadeia. Alimentos se perdem por ausência de refrigeração. Com a falta de combustível o transporte público torna-se praticamente inviável e a coleta de lixo fica extremamente prejudicada, fazendo com que resíduos se acumulem pelas ruas. Ao mesmo tempo, a escassez de medicamentos, inclusive para crianças, é alarmante. Sem energia elétrica, as casas ficam sem ventilação adequada, o que aumenta a presença de mosquitos e o risco de doenças como dengue e chikungunya. Ou seja, a saúde pública é duramente impactada e isso afeta gravemente a população. Isso é um crime!

Apesar de todas essas adversidades, há em Cuba um sentimento forte de defesa da sua soberania e autonomia. O povo cubano não aceita qualquer tipo de intervenção externa e reafirma, com dignidade, o direito de decidir seu próprio destino. Ao mesmo tempo, é perceptível a pressão interna por ajustes e melhorias na condução econômica e política — algo legítimo em qualquer sociedade.

É justamente por isso que a solidariedade internacional se torna imprescindível. Não se trata apenas de enviar doações — ainda que elas sejam urgentes e necessárias —, mas de construir uma resposta política capaz de enfrentar a raiz do problema, que é o embargo econômico imposto governo e que é um mecanismo de sufocamento que compromete as condições mínimas de vida de toda uma população.

Por isso, é fundamental que países e lideranças comprometidas com os direitos humanos e a autodeterminação dos povos atuem de forma mais incisiva. O governo brasileiro já realizou iniciativas importantes, como o envio de medicamentos, mas é necessário avançar. A defesa do fim do embargo precisa deixar de ser apenas uma posição diplomática e se transformar em uma prioridade política internacional.

A solidariedade que expressamos durante essa caravana é, portanto, ao mesmo tempo humanitária e política. Humanitária, porque busca aliviar o sofrimento imediato de um povo. Política, porque denuncia as causas estruturais desse sofrimento e reivindica mudanças concretas.

Nesta segunda, dia 23, algumas embarcações chegam à ilha com toneladas de doações internacionais arrecadadas, especialmente com alimentos, medicamentos e placas solares.

Cuba não precisa de tutela. Precisa de respeito. Precisa que seu povo tenha garantidas as condições mínimas para decidir, com autonomia, os rumos de sua própria história. Defender o fim do embargo é, acima de tudo, defender a vida, a dignidade e a soberania de uma nação.