Secretário de Relações Internacionais do PT publica artigo em jornal alemão sobre cooperação entre Europa e Sul Global

Senador Humberto Costa analisa no IPS Journal os desafios da ordem internacional contemporânea e a necessidade de aprofundar a cooperação entre os organismos multilaterais

Roberto Stuckert Filho

O secretário de Relações Internacionais do Partido dos Trabalhadores, senador Humberto Costa, publicou artigo no jornal alemão IPS Journal sobre os desafios da ordem internacional contemporânea e a necessidade de aprofundar a cooperação entre a Europa e os países do Sul Global.

No texto, Humberto Costa defende que a preservação de uma ordem global baseada em regras depende da articulação da Europa com o o Sul Global e da capacidade de adaptação das instituições multilaterais.

O senador destaca três prioridades estratégicas devem orientar a relação europeia com países do Sul Global, como o Brasil:

Em primeiro lugar, aponta a necessidade de atualizar e reformar o multilateralismo herdado do século XX, bem como as instituições que o sustentam, hoje desalinhadas com a realidade de um sistema internacional mais diverso e multipolar.

Em segundo lugar, defende que a Europa amplie e diversifique suas parcerias estratégicas, de modo a reduzir vulnerabilidades externas e fortalecer sua autonomia econômica e política em um cenário global mais instável.

Por fim, Humberto Costa sustenta que é fundamental redefinir a cooperação transnacional para que ela ultrapasse as relações estritamente intergovernamentais, incorporando novos atores e formas de articulação política, especialmente diante do aumento da polarização e das tensões domésticas em diferentes países.

O artigo reforça a posição histórica do PT em defesa do multilateralismo, da cooperação internacional e da construção de uma ordem global mais representativa e democrática.

👉 O texto completo em inglês pode ser lido no site do IPS Journal:
 https://www.ips-journal.eu/topics/foreign-and-security-policy/power-needs-partners-8861/

Abaixo, a tradução do artigo para o português:

O poder precisa de parceiros


Juntos, Europa e Sul Global têm os recursos necessários para sustentar uma ordem internacional baseada em regras

À medida que a ordem internacional enfrenta ameaças crescentes, a defesa do multilateralismo é essencial para salvaguardar a soberania dos Estados e um sistema global baseado em regras. Para a Europa e o Sul Global, essa agenda é estrategicamente vital — especialmente num contexto em que valores compartilhados se erodem, ações unilaterais se tornam mais frequentes e o poder econômico e militar passa a ser explorado como instrumento de pressão. No entanto, garantir que o multilateralismo permaneça legítimo e eficaz exige mais do que preservar o status quo. São necessárias reformas profundas para torná-lo mais representativo, mais funcional e mais alinhado às realidades de um sistema global multipolar.

O fim da Segunda Guerra Mundial deu origem a instituições multilaterais que hoje enfrentam dificuldades para lidar com conflitos armados, disputas comerciais e crises globais em um mundo multipolar. O Conselho de Segurança da ONU parece incapaz de promover negociações de paz em conflitos em curso, enquanto a Organização Mundial do Comércio demonstra relutância em intervir em disputas tarifárias unilaterais. Isso, porém, não significa o fim do multilateralismo. Pelo contrário, revela a pressão sobre as instituições políticas. Onde antes o direito internacional prevalecia e impactava diretamente a soberania estatal, hoje existe um vazio — um espaço no qual territórios, recursos estratégicos e rotas logísticas são disputados abertamente, da América Latina (como vimos na Venezuela) à Europa (como no caso da Groenlândia).

Rumo a uma parceria real

Na sua atuação junto a países do Sul Global, como o Brasil, a Europa precisa orientar-se por três prioridades estratégicas. Em primeiro lugar, deve reformar seu conceito de multilateralismo herdado do século XX e as instituições que o sustentam, que já não refletem a realidade de um sistema internacional multipolar. Em segundo lugar, precisa ampliar e diversificar suas parcerias estratégicas para reduzir vulnerabilidades e fortalecer sua autonomia econômica e política. E, em terceiro lugar, deve transformar sua cooperação transnacional para que vá além das relações puramente intergovernamentais, sobretudo diante do crescimento das tensões políticas domésticas dentro dos países.

Após observar a evidente ineficácia do Conselho de Segurança da ONU, Donald Trump defendeu, no início de 2026, a criação de um “Conselho de Paz” internacional. Mas esse não é o tipo de multilateralismo defendido pela Europa e pelo Sul Global. Trata-se de uma resposta unilateral a uma crise multilateral: um arranjo concebido e controlado por Washington, sem espaço para negociação ou deliberação coletiva efetiva. Na prática, funciona como um acordo de adesão que concentra a tomada de decisões estratégicas nos Estados Unidos. O objetivo não deve ser substituir a ONU por mecanismos ad hoc, mas reformá-la. A ampliação e o reequilíbrio do Conselho de Segurança — com maior participação de países como Brasil, Índia ou África do Sul — é essencial para refletir a geopolítica atual.

No que diz respeito à ampliação e diversificação das parcerias estratégicas, o acordo entre o Mercosul e a União Europeia, por exemplo, possui significado muito além do livre comércio. Em uma economia global fragmentada, ele representa um compromisso com a integração entre regiões que compartilham regras, previsibilidade e cooperação institucional. Ao conectar mercados, cadeias produtivas e capacidades tecnológicas complementares, cria-se um espaço econômico global capaz de atrair investimentos, estimular a inovação e gerar empregos de qualidade. Os países do Mercosul trazem uma base industrial, recursos estratégicos e mercados em expansão, enquanto a União Europeia contribui com sua capacidade tecnológica, expertise regulatória e coordenação em cadeias produtivas de alto valor agregado.

A cooperação em matérias-primas críticas e terras raras constitui parte particularmente decisiva dessa estratégia. Investimentos europeus voltados à transferência tecnológica, à geração de valor local e ao desenvolvimento de cadeias produtivas no Brasil — sob rigorosos padrões ambientais e sociais — podem elevar a qualidade dos investimentos no Mercosul. Em contrapartida, isso pode fortalecer a autonomia estratégica europeia na obtenção das matérias-primas necessárias às transições energética e digital. Já existe uma base sólida para esse tipo de integração: o maior polo industrial alemão fora da Alemanha localiza-se justamente em São Paulo. À luz das medidas tarifárias unilaterais impostas pelos Estados Unidos desde 2025, uma cooperação birregional mais profunda oferece um caminho para o equilíbrio estratégico em um ambiente cada vez mais marcado por disputas comerciais.

O último ponto vai além das relações intergovernamentais. Estados soberanos não são blocos monolíticos: são influenciados por conflitos internos e mudanças de governo, e suas dinâmicas políticas domésticas impactam diretamente a política externa. Por isso, a cooperação não deve se limitar apenas aos governos. O fortalecimento de redes transnacionais entre partidos políticos, movimentos sociais, universidades, fundações e organizações da sociedade civil é fundamental. A extrema direita já atua de forma altamente coordenada nesse nível internacional. As forças democráticas precisam fazer o mesmo.

Juntas, Europa e Sul Global dispõem dos recursos necessários para sustentar uma ordem internacional baseada em regras. A União Europeia oferece força regulatória e capacidade institucional, enquanto o Sul Global aporta legitimidade política, demográfica e econômica. Em um mundo no qual o poder econômico e militar é cada vez mais utilizado como instrumento político, esse tipo de parceria não é apenas desejável — é uma necessidade estratégica.

SRI-PT