‘Como podemos viver num mundo sem regras?’

Em análise sobre o conturbado momento geopolítico atual, Celso Amorim, assessor especial da Presidência, afirma que Brasil está no caminho certo. Artigo foi publicado na The Economist

Joana Berwanger

Celso Amorim reitera defesa do multilateralismo e diz que país está certo em buscar vários parceiros

A pergunta acima é também o título do artigo que o chanceler Celso Amorim, assessor especial da Presidência da República e ex-ministro de Relações Exteriores, escreveu para a revista The Economist, a pedido da tradicional publicação britânica. Amorim, árduo defensor do multilateralismo global, analisa a intervenção militar dos Estados Unidos na Venezuela, o que parecia “coisa do passado”.

“Tais intervenções só eram possíveis — ou assim pensávamos — antes da consolidação de instrumentos jurídicos como o Direito do Mar, mecanismos de arbitragem e, naturalmente, a Carta das Nações Unidas, que se baseia no princípio da igualdade soberana dos Estados e proíbe a ameaça ou o uso da força contra a integridade territorial ou a independência política de qualquer Estado”, reflete o chanceler.

Nem mesmo na Guerra Fria houve violações evidentes nas fronteiras nacionais da América do Sul, reflete o ex-ministro, ainda que intervenções secretas para derrubar governos, sob o pretexto de combater o comunismo, tenham ocorrido, relembra Amorim. “No entanto, no final do século XX, a região estava a lançar as bases para a integração económica, finalmente canalizando décadas de paz para o desenvolvimento. Essa confiança desapareceu.”

O que aconteceu na Venezuela e o que está acontecendo no mundo, analisa ele, levanta um questionamento em toda a política internacional: “Como podemos viver num mundo sem regras? Os pilares do direito internacional destinados a regular a segurança coletiva, disciplinar o comércio mundial e promover os direitos humanos estão a ser minados de uma só vez. Uma vez iniciada, essa erosão é difícil de reverter”.

O mundo atual recoloca a força militar como principal determinante da independência de um país. “A guerra é novamente vista como um meio legítimo de mudança”, lamenta o chanceler.

Diante de uma geopolítica conturbada, o Brasil faz as escolhas certas ao apostar no caminho do diálogo, da paz, do multilateralismo, com ampla gama de parceiros, e da soberania. “O respeito pela soberania e a não intervenção não devem ser abandonados. Devemos aprender com a história. Mesmo nas circunstâncias mais desafiadoras, a intervenção estrangeira — especialmente a intervenção militar — não é a resposta. A busca por soluções pacíficas por meio do diálogo deve continuar sendo a prioridade.”

Amorim afirma que o caminho possível é continuar a “trabalhar pela reforma das instituições internacionais, especialmente para resolver a relativa falta de representação do Sul Global”. O Brasil, “continuará a trabalhar com a Europa, a China e outros países comprometidos com as instituições multilaterais e a primazia do direito internacional”. “Esperemos que, juntos, sejamos capazes de impedir um maior mergulho na violência e na anarquia”, conclui.

Leia aqui a íntegra do artigo, em inglês.

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