A guerra promovida pelos Estados Unidos (EUA) e por Israel contra o Irã está perto de completar três meses. As agressões se espalham pelo Oriente Médio desde 28 de fevereiro, com incursões israelenses no Líbano e bombardeios iranianos a países do Golfo Pérsico. O preço do barril de petróleo, depois de oscilar bastante, voltou a subir nesta sexta-feira, 22, diante da falta de avanço nas negociações de paz. Em conversa com a Rede PT de Comunicação, o professor Carlos Eduardo Vidigal, doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB), avalia que o conflito deve permanecer.
“Você tem guerras que se prolongam no tempo com episódios que às vezes dependem: passam dias ou semanas para que algo novo ocorra. Em razão da existência de impasses, o que também é uma característica do conflito da Rússia na Ucrânia, é que um acordo que gerasse uma situação estável de longa duração não parece muito próximo”, diagnostica Vidigal.
O contexto de incertezas no Oriente Médio está associado à resistência implacável do Irã, dotado de estratégias eficientes, como o bloqueio do Estreito de Ormuz, por onde navegam 20% de todo o petróleo consumido no mundo. Vidigal lembra que os iranianos, no entanto, sofrem pesadamente com o poderio bélico estadunidense. “Em termos militares, os americanos ainda mantêm condições de agredir o Irã de uma maneira muito forte, muito clara”, observa.
“A questão é que, politicamente, o Irã conseguiu equilibrar o conflito. E agora há uma série de dúvidas a respeito do desdobramento, inclusive pode continuar do jeito que está por mais algum tempo”, prossegue Vidigal, ao estimar meses a mais de guerra.
A credibilidade dos EUA
Para Brasil e EUA, as consequências são absolutamente diversas. Caso o conflito se prolongue, o desgaste na imagem de Washington pode ser irreversível, argumenta o professor da UnB.
“Antes da ONU [Organização das Nações Unidas] perder o sentido, uma vez que ela ainda é respaldada por muitos países mundo afora, inclusive China e Brasil, para citar dois apenas, a maior consequência é a perda de credibilidade dos EUA”, considera.
O professor faz uma crítica: “Aquilo que foi construído a duras penas, ao longo das duas guerras mundiais, e principalmente ao final da Segunda Guerra, com a criação da ONU, os americanos estão colocando por terra”. Dificilmente, segundo ele, esse patrimônio será recuperado, de um ponto de vista político. “E enfraquece os EUA no contexto mais amplo da transição hegemônica para a China, que, 20 anos atrás, era apenas uma hipótese e, hoje, parece ser um dado da realidade”, acrescenta Vidigal.
Quanto às oscilações no preço do petróleo, o professor não vê como problema relevante para o Brasil, que pode buscar alternativas fora do Oriente Médio e contar com a Petrobras. Segundo ele, a questão estratégica são os adubos importados da Rússia. O Irã, por outro lado, produz ureia, utilizada como fertilizante nitrogenado.
Brasil e Oriente Médio
Vidigal também descreveu um breve panorama da presença brasileira no Oriente Médio. Historicamente, lembra o professor, o país “não se envolve diretamente na região”. “Já houve época em que o Brasil tinha negócios mais estreitos com o Oriente Médio, como no final dos anos 1970 e nos anos 1980, tanto no Iraque quanto no Irã”, contextualiza.
Vidigal completa: “O Brasil acompanhou os primeiros passos do programa nuclear iraniano e teve investimentos relativamente significativos no Iraque, com a Mendes Júnior [construtora], que é uma empresa que ficou muito famosa naquela época. Só que o Brasil recuou no final dos anos 1980 e não voltou a ter presença propriamente na região”.
Da Rede PT de Comunicação.