O impacto negativo da extrema direita na escalada de feminicídios

Pesquisadora explica que crescimento de casos não é só aumento estatístico, mas expressão de uma violência sistemática enraizada. Governos Temer e Bolsonaro destruíram políticas públicas

Marcelo Camargo/Agência Brasil

É preciso desconstruir a cultura machista que contribui para a banalização da violência cotidiana contra as mulheres

Desde a criação da Lei do Feminicídio, em 2015, o país acumulou uma alta de 316% nos registros desse tipo de crime. Naquele ano, foram contabilizadas 535 mortes. Em uma década, (2015 a 2025), o Brasil registrou 13.448 feminicídios — uma mídia de três mulheres assassinadas por dia. No ano passado, foram 1.470 mulheres assassinadas em razão do gênero, ou seja, média de quatro mortes por dia.

A socióloga Bruna Camilo, doutora pela PUC.Minas e pesquisadora das áreas de gênero, misoginia e violências, explica que a tipificação do crime de feminicídio,  criada em 2015, representou um avanço importante ao reconhecer que as mulheres não são mortas “por acaso”, mas em contextos atravessados ​​por desigualdades de gênero. Segundo ela, a lei ampliou a visibilidade das ocorrências e qualificou os registros, mas também expôs a dimensão real da violência.

“Algo que antes era invisível e inominável passou a ser reconhecido. Hoje sabemos mais sobre como essas mortes acontecem. Isso é um avanço. Por outro lado, ficou evidente que a legislação, sozinha, não transforma padrões culturais profundamente arraigados”, explica.

Os números, diz a pesquisadora, devem ser lidos como um alerta profundo e refletem que as políticas públicas ofertadas pelo Estado e as ações da sociedade ainda são insuficientes para garantir às mulheres o direito básico à vida.

As informações sobre feminicídios no país constam nos Dados Nacionais de Segurança Pública, alimentados mensalmente pelos estados e pelo Distrito Federal no Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp), por meio do módulo Sinesp-VDE. Segundo o Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), o sistema garante padronização, integridade e confiabilidade dos dados, subsidiando políticas públicas e investigações. Ainda assim, o próprio ministério alerta que a violência pode estar subdimensionada, já que estados como São Paulo, Paraíba, Pernambuco e Alagoas não enviaram os dados de dezembro até o fechamento do levantamento.

Ascensão da extrema direita: mais armas e destruição de políticas

Bruna Camilo defende que é impossível dissociar o avanço dos feminicídios do cenário político vívido pelo país nos últimos anos. Segundo ela, o desfinanciamento das políticas de proteção às mulheres, após o impeachment da presidenta Dilma Rousseff, em 2016, teve impacto direto na escalada da violência.

“Houve um desmantelamento das políticas públicas. Nos governos [Michel] Temer e [Jair] Bolsonaro, especialmente, vimos uma menor alocação de recursos para o enfrentamento à violência contra as mulheres em uma década”, afirma a pesquisadora.

Outro fator decisivo para esse aumento na violência é a flexibilização do acesso a armas de fogo entre 2019 e 2022. Nesse período, mais de um milhão de armas entraram em circulação no país. “Pesquisas mostram que a presença de armas em casa aumenta o risco de homicídios e feminicídios. O enaltecimento da arma como símbolo de poder, associado à facilitação do acesso, teve efeitos concretos sobre a vida das mulheres”, destaca.

Feminicídio é a ponta do iceberg

O aumento dos números de crimes, segundo a socióloga, não se trata “apenas de um aumento estatístico, mas da expressão de uma violência sistemática, enraizada em relações profundamente desiguais de poder, no machismo estrutural e na naturalização da violência”.

Segundo a pesquisadora, o feminicídio não surge de forma abrupta. Ele é o desfecho de uma sequência de violências cotidianas, silenciamentos, ameaças e relações abusivas que, muitas vezes, não encontram resposta do poder público.

“O feminicídio é a ponta do iceberg. Antes dele, há uma trajetória marcada por controle, humilhações, agressões e ameaças. Mudar a lei foi fundamental para dar nome ao problema, mas não é suficiente. Sem investimento, sem políticas públicas efetivas e sem transformação cultural, como as mulheres se relacionam morrendo”, ressalta.

Dois movimentos simultâneos ocorrem no país: a persistência — e, em alguns contextos, a intensificação — da violência letal contra mulheres e, ao mesmo tempo, melhorias na identificação e classificação dos crimes, explica Bruna Camilo.

“Parte desse aumento reflete uma violência real e contínua. Mas outra parte se deve ao fato de que profissionais da segurança, da justiça e da saúde passaram a ter mais instrumentos para ponderar quando uma morte está relacionada ao gênero. Isso reduz a subnotificação”, pontua.

Desconstrução da cultura machista 

Para além das políticas públicas, a pesquisadora chama atenção para o papel central da cultura machista e das normas de gênero na produção da violência. As agressões verbais, o ciúme excessivo, o controle de comportamento, enfim ameaças, são sempre relativizados como problemas de casal ou questões passionais. 

“Isso dificulta muito a identificação precoce dessa violência, e principalmente a intervenção do Estado. Então esse processo cria uma violência contínua no qual o feminicídio aparece como desenvolvimento final dessa escalada. E do ponto de vista simbólico, as normas de gênero também operam sobre os afetos”, contextualiza.

Ela observa que o homem é socialmente autorizado à raiva e à agressividade, enquanto a ele é negado a vulnerabilidade, o medo, a frustração. “E sem recursos simbólicos para elaborar a perda, a restauração ou a frustração, alguns homens recorrem à violência. Vivemos em uma sociedade que associa masculinidade ao controle, à dominação e à autoridade, enquanto naturaliza a submissão feminina. Quando uma mulher rompe com esse papel — ao terminar uma relação, trabalhar fora ou exercer sua autonomia —, alguns recorrem homens à violência como forma de restaurar o poder perdido”, explica.

Segundo ela, o feminicídio não é um ato isolado ou fruto de descontrole emocional, mas a expressão extrema de uma lógica social que legitima a violência masculina.

Os números, ainda que alarmantes, também indicam um maior reconhecimento social e institucional do problema, impulsionado pela atuação de movimentos feministas, campanhas de conscientização e maior disposição das mulheres em denunciadoras. “Mais mulheres não aceitam mais o silêncio. Mas denúncia sem política pública não salva vidas. Precisamos transformar dados em ação, investimento e mudança estrutural”, defende.

Desafios futuros

Para Bruna Camilo, o enfrentamento ao feminicídio não é responsabilidade apenas das mulheres ou do Estado, mas um desafio coletivo que exige o engajamento de toda a sociedade.

“É preciso romper com a naturalização da violência, questionar piadas, discursos e práticas machistas. Os homens têm um papel central nesse processo, repensando modelos de masculinidade e a forma como educamos os meninos”, conclui.

Diante de um cenário que segue ceifando a vida das mulheres todos os dias, os dados de 2025 reforçam uma constatação urgente: o fortalecimento do feminicídio exige muito mais do que leis. Exige compromisso político, investimento contínuo e uma transformação profunda nas estruturas sociais que ainda toleram a violência contra metade da população.

Os números

Confira os números de feminicídios desde que o crime foi tipificado:

2015: 535

2016: 803

2017: 1.049

2018: 1.176

2019: 1.328

2020: 1.347

2021: 1.364

2022: 1.454

2023: 1.458

2024: 1.464

2025: 1.470

** São Paulo (1.774), Minas Gerais (1.641) e Rio Grande do Sul (1.019), são os estados com maior número absoluto de vítimas no período.

Da Redação do Elas por Elas , com informações do MJSP

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