Por Eliara Santana (*)
Segundo o influenciador bolsonarista Paulo Figueiredo, em seu programa semanal no último dia 29/06, “mulher vota estatisticamente muito mal”. “Principalmente mulheres solteiras. Mulheres casadas, em geral, tendem a acompanhar o voto do marido. Mulheres solteiras, não. Podem arrancar os pentelhos das calcinhas, fazer o que quiser, principalmente as feministas, que têm mais pentelhos, mas eu quero dizer a vocês: isso é estatística.”
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O influencer norte-americano de extrema direita Nick Fuentes, em resposta à pergunta de um apresentador, que indagou “que direito você tiraria das mulheres”, respondeu: “Eu eliminaria o direito ao voto de centenas de grupos, das mulheres, com certeza”.
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O pastor norte-americano Doug Wilson, da Igreja de Cristo e líder da Comunhão de Igrejas Evangélicas Reformadas, defende a máxima: “Um voto por família, mas decidido pelo marido.” Essa é a opinião também reproduzida pela Igreja de Cristo.
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Para o pastor norte-americano Dale Partridge, “as mulheres votam de forma emocional”, e “a política nacional está feminizada”. Ele defendeu o fim da 19ª Emenda, que garante o direito de voto às mulheres há 126 anos nos EUA.
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Em março de 2022, o então deputado Eduardo Bolsonaro o associou o acidente com uma obra da linha 6 do metrô de São Paulo à contratação de mulheres. Na mesma linha, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) disse que as colegas mulheres tinham menos interesse do que os homens do Congresso em participar da CPI da Covid e enfrentar o tema.
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O pastor Silas Malafaia disse, em entrevista, que a mulher não racionaliza como o homem. Segundo ele, “a mulher é essencialmente emotiva”. Ele também criticou a pastora Helena Raquel, que orientou mulheres a denunciarem violência doméstica, classificou a fala dela como “safadeza para nos denegrir” e questionou a informação de que cerca de 43% das mulheres evangélicas sofrem violência doméstica: “Que pesquisa vagabunda é essa? Desafio a comprovar isso”.
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O então presidente Jair Bolsonaro, pai de Flávio, disse numa palestra no Clube Hebraica, em São Paulo, em 2017: “Fui com os meus três filhos, o outro foi também, foram quatro. Eu tenho o quinto também, o quinto eu dei uma fraquejada. Foram quatro homens, a quinta eu dei uma fraquejada e veio mulher”.
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Em abril de 2019, Jair Bolsonaro se disse contrário à vinda de turistas LGBTQIA+ ao Brasil e se mostrou favorável ao turismo sexual com mulheres: “Quem quiser vir aqui fazer sexo com uma mulher, fique à vontade”.
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No cercadinho em frente ao Palácio da Alvorada, em 2019, Jair Bolsonaro comentou, em resposta às denúncias feitas pela jornalista Patrícia Campos Mello: “Ela queria um furo. Ela queria dar o furo”.
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Em abril de 2026, o assessor especial de Donald Trump para parcerias globais, Paolo Zampolli, ofendeu as mulheres brasileiras e as chamou de “raça maldita”. E disse que aos brasileiras são “programadas para criar confusão”.
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Donald Trump afirmou, em abril de 2015: “Se Hillary Clinton não consegue satisfazer o marido, o que a faz pensar que consegue satisfazer a América?”.
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Reproduzi intencionalmente essa coleção de declarações, falas e episódios machistas e misóginas para expor as conexões que existem no pensamento da extrema direita, no Brasil e no mundo, em relação às mulheres. O que nos leva a concluir que a mais recente fala de Paulo Figueiredo, o influenciador bolsonarista e neto de João Figueiredo, o último presidente da ditadura no Brasil, sobre as mulheres e o voto não é um ato isolado. Bastante irado, ele respondeu ao vídeo da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, que acusou o enteado Flávio de tratá-la mal e de tê-la desrespeitado. A reação acintosa e colérica de Paulo não foi uma expressão puramente individual. Ela mostra uma tendência, um padrão desse espectro da extrema direita em relação à questão de gênero.
As falas que elenquei aqui – e, infelizmente, é uma amostra bem pequena de tudo o que circula – não são aleatórias ou deslocadas. Elas denotam e revelam princípios, crenças, projetos, metas, objetivos que se estruturam e se coordenam a partir da convicção machista de que a mulher é inferior e, por isso, deve ser submissa aos homens. Essa é uma linha de pensamento, não é somente uma declaração dada no calor da discussão.
Quando Paulo Figueiredo afirma que “mulher não sabe votar”, ele está encaminhando a disputa política para um determinado lugar e enquadrando o tema numa perspectiva conservadora e extremista.
Como já nos ensinou o linguista norte-americano George Lakoff, o enquadramento tem poder, e ele afeta não apenas as escolhas individuais, mas é capaz também de conduzir o terreno da disputa política. Além disso, precisamos também observar a fala de Paulo Figueiredo e todas as outras declarações em termos de padrões de comportamento, tendência de ações futuras e visão de mundo que se repetem e se reproduzem. Devemos olhar não somente a fala, mas o que ela mobilizou em termos de comentários e aprovação nas redes e as reações de todo o séquito da campanha de Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência que somente se manifestou dois dias depois do ocorrido.
Para a extrema direita, mulheres são inferiores. E ponto
Há um movimento crescente nos Estados Unidos, em muitas esferas e com muita força nas redes sociais, de questionamento e repúdio ao voto feminino, que está em vigor no país há quase 130 anos, e a outras pautas importantes para as mulheres.
Esse movimento está se expandindo e começa, aos poucos, a chegar ao Brasil pela via de algumas agremiações religiosas com interface nos EUA. Nesse contexto, o questionamento ao direito ao voto feminino é apenas o lado tornado visível, ou o tema enquadrado, desse debate que é eminentemente político e que revela o que a extrema direita pensa em relação a nós, mulheres: sujeitos inferiores que precisam da tutela de um homem, porque não sabem sequer escolher, não sabem votar, não entendem nada de política.
Por isso, se “estatisticamente, as mulheres não sabem votar”, uma vez que votam em candidatos progressistas, para que garantir a elas esse direito? Sobretudo as mulheres solteiras, essas que não têm filhos, como disse o neto do ditador Figueiredo.
Outro ponto importante a ser pinçado da fala de Paulo Figueiredo é o menosprezo pela mulher. A extrema direita bolsonarista até tentou camuflar esse sentimento com palavrinhas gentis e declarações amistosas. Mas a crise deflagrada por Michelle Bolsonaro serviu para arrancar a máscara e a pele de cordeiro. Atacados em sua masculinidade tóxica, os bolsonaristas partiram para o ataque violento.
A declaração recente de Paulo Figueiredo, conectada a essa perspectiva da extrema direita no mundo, especialmente nos EUA, traz em seu bojo várias ameaças. A primeira e única dita abertamente é em relação à perda do direito de votar, que foi duramente conquistado pelas mulheres no Brasil e em vários países do mundo. Mas há outras, que podem sim se concretizar caso esse grupo chegue ao poder, como o alijamento do debate político e da participação na política, a possibilidade de nos calar toda vez que ousarmos falar algo que desagrada o status quo machista. E usam, para isso, o aparato do ecossistema de desinformação –, a drástica interrupção de políticas públicas que atendem às mulheres, os entraves para a mulher no mercado de trabalho e várias outras.
O que os homens da extrema direita bolsonarista querem é a submissão feminina. Sonham com aquela mulher que se contenta em ter, como única forma de expressão, a voz do marido. Mas talvez eles ainda não tenham entendido que as mulheres brasileiras saíram há muito tempo desse lugar. E não voltarão a ele.
(*) Jornalista, com pós-doutorado em estudos da desinformação pelo Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência (CLE) da Unicamp, doutora e mestre em Linguística e Língua Portuguesa. É pesquisadora do Observatório das Eleições. Sua tese de doutorado sobre o Jornal Nacional discute as estratégias de construção da narrativa do telejornal do impeachment de Dilma Rousseff à eleição de Jair Bolsonaro. Organizou e coordenou, com Leonardo Avritzer, o livro “Eleições 2022 e a reconstrução da democracia no Brasil” (Autêntica). Em 2024, com Avritzer e Marisa Von Büllow, organizou o livro “Democracy Under Attack” (Editora Springer).