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O ‘ataque hacker’ à Defesa Civil

Em se tratando de desinformação, não há lobo solitário, tampouco hackers entediados. E se as milícias digitais estiverem fazendo balão de ensaio em ano eleitoral?

Foto: Arte: João Firpe

Por Eliara Santana (*)

Sábado, 20 de junho, 1:26 da madrugada. Enquanto muitos ainda comemoram a vitória da seleção brasileira na Copa, soa um alarme já conhecido por todos os brasileiros. É o alarme do Defesa Civil Alerta, plataforma da Defesa Civil que envia avisos de emergência à população em casos de crise climática, desastres, chuvas intensas, etc. O alarme sonoro é bem alto, e quem estava dormindo acordou assustado. Mas não era chuva, não era desabamento, não era nada dessa ordem. 

Na noite de sábado, além do alerta sonoro, moradores de várias cidades do Brasil receberam mensagens “estranhas”. No Rio de Janeiro, os cidadãos enviam relatos à imprensa relatando ter recebido mensagens com conteúdo esquisito, como “misantropo ADRESS RJ burros dms pprt”.

Em Belo Horizonte, a mensagem recebida pelos mineiros dizia: “Proteja-se: ATAQUE ALIENÍGENA, HUMANOS CHEGAMOSmisantropo”. Em outros locais, a mensagem era “Alerta extremo. Defesa Civil:misantropi4”. Em comum, o termo “misantropia” e uma coletânea de erros de português.

Esses casos foram relatados por moradores de Curitiba, São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília, Salvador e Campo Grande. A divulgação das mensagens, com erros de escrita e sem contexto aparente, reforçou a suspeita de falha ou uso indevido do sistema por hackers.

O caso está sendo investigado pela Polícia Federal e, até o momento, não se sabe ainda quantas pessoas receberam o alerta, mas o secretário da Defesa Civil afirmou em entrevistas que os números podem estar na casa de milhões. Há também suspeitas de que credenciais de dois agentes da Defesa Civil do Pará foram usadas para disparar 10 alertas falsos.

O que circulou fartamente pela imprensa foi que o Sistema da Defesa Civil disparou um alarme falso fruto de ataque hacker. Tenho dúvidas quanto a esse diagnóstico apressado de ataque hacker aos moldes tradicionais e apostaria num ataque cibernético orquestrado das milícias digitais como balão de ensaio para ver o alcance da mentira ou gatilho de pânico e reações vindouras em ano de eleição

Como precaução e até que se esclareça o caso, a plataforma Defesa Civil Alerta foi retirada do ar à 1h30 da madrugada de sábado. Na nota divulgada, a Defesa Civil Nacional informou que “A Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional acionará a Polícia Federal e tomará as providências para religar o sistema o mais rapidamente possível, quando todas as condições de segurança forem restabelecidas”.

Bem curioso um ataque hacker tomando uma instituição que emite alertas extremos de perigo envolvendo questões climáticas e que goza de grande confiança das pessoas. Sem um propósito de bagunçar sistemas ou enganar para tirar proveito financeiro. Ataque hacker ou um balão de ensaio para testar estratégias de como tumultuar o processo eleitoral?

Tendo a pensar como o mestre Riobaldo, em Grande Sertão: Veredas, “eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa…”

Nove pontos para entender as mensagens fake:

1 O estímulo a comportamentos extremistas, negacionistas, que colocam instituições em xeque apenas pelo despertar do medo e pela desestabilização político-institucional;

2 Erros de português e mensagens aparentemente confusas não são apenas “erros” em determinados contextos, mas indícios de uma construção discursiva intencional que quer chamar atenção exatamente pelo formato numa plataforma que é séria e tem credibilidade, como a Defesa Civil, que leva  ao descrédito;

3 Os locais para os disparos das mensagens fake não foram escolhidos aleatoriamente e têm representantes de praticamente todas as regiões do país. Os estados de Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia ocupam o noticiário nacional com muitos casos de explosão de violência e insegurança pública. Paraná e Santa Catarina entram no bojo da região Sul, onde um discurso higienista em termos de segurança pública ganha muito corpo,  e Brasília é a capital do país, se alguém chega a Brasília e atinge sistemas de segurança de entidades públicas de peso, “tá tudo dominado”

4 O tempo dos disparos: nada foi aleatório, precipitado ou inconsequente, resultado de um hacker entediado. O 1º alerta falso foi emitido às 23h41 ainda na sexta-feira (19 de junho); a mensagem foi enviada para o Rio de Janeiro e registrada na categoria “deslizamentos” com o texto: “misantropo ADRESS RJ burros dms pprt”. Às 23h45, apenas quatro minutos depois, os celulares dispararam em Curitiba com um alerta, também na categoria “deslizamentos”, que tinha somente o termo “misantropia”. Depois, mais oito alertas foram enviados no período entre 1h20 e 1h23 da madrugada de sábado (20 de junho). A maior parte dessas mensagens tinha o termo “misantropi4”. Esses intervalos não mostram apenas coordenação, mas também a escolha certeira do primeiro local: Rio de Janeiro; 

5 Padrão hacker: os ataques envolvem, em quase todos os casos, doses de manipulação para enganar as vítimas e roubar senhas e dados; phishing (que é uma simulação de identidade, quando o invasor finge ser outra pessoa ou instituição para roubar os dados); malware (que é todo software feito para “infectar” o computador, o celular ou uma rede e que pode danificar dispositivos e roubar dados); sobrecarga de servidores ou site com inúmeras de requisições falsas. Percebem como nada disso esteve presente nesse ataque coordenado usando a Defesa Civil? Ataque hacker não se preocupa com estrutura discursiva da mensagem, com palavras de efeito – quer convencer, manipular e tomar dados. 

6 Uso da palavra misantropia: A palavra não é de domínio comum, e por isso desperta a curiosidade grande de quem recebeu a mensagem. A pessoa, de madrugada, vai procurar o significado e encontrará a definição “ódio pela humanidade, falta de sociabilidade, melancolia, depressão, tristeza (Dicionário Houaiss)”, e  isso vai despertar medo em quem recebe. Vale lembrar que as milícias digitais que habitam o submundo da internet e são bem coordenadas têm no ódio e no desprezo pilares sociopolíticos importantes;

7 As milícias digitais: já tratamos neste espaço sobre elas –  arquitetam e propagam falsas narrativas baseadas em emoções como medo, surpresa, confusão que vulnerabilizam as instituições. Constroem ataques para projetar vulnerabilidades e despertar a desconfiança das pessoas nas instituições que são referências. E tudo isso é orquestrado e coordenado;

8 Tom jocoso proposital nas mensagens: para a simulação de certa aleatoriedade, descaso, algo sem muitos propósitos na ação, o tom das mensagens foi jocoso em alguns casos, como em BH, com alerta de ET. Mas não seguiu o mesmo padrão nas outras mensagens;

19 A pauta da segurança pública: com requintes de projeção de um cenário de caos em todo o país, o assunto está sendo novamente trazido à tona. Não há dúvida que discutir essa pauta é fundamental, mas o ponto é que ela é peça-chave de debates verborrágicos da extrema direita que cutucam a emoção e não a razão para elaboração de propostas. Nesse sentido, um cenário de caos e descontrole é bastante propício para embotar toda e qualquer discussão.

Em seu relatório “Desafios para a Inteligência 2026”, a Agência Brasileira de Informação (Abin) fez alertas muito relevantes e salientou, sobre as eleições neste ano:

“A desinformação constitui elemento central da deslegitimação do processo eleitoral, sobretudo em ambientes digitais, agravada pela manipulação tecnológica decorrente de recentes inovações informacionais. A tecnologia tornou-se componente essencial da democracia contemporânea. O inegável potencial benéfico para o desenvolvimento econômico e social contrasta com sua conversão em ferramenta de manipulação e de desinformação. No contexto político-eleitoral, essa situação representa uma tendência de alto impacto para 2026”. 

Nunca é demais lembrar que a desinformação sistematizada ataca, de maneira não aleatória, os sistemas de credibilidade institucional e usa gatilhos para despertar o medo coletivo como estratégia.

A desinformação, assim sistematizada, extrapolando em muito a disseminação de fake news, espalha o caos e a dúvida quando seus agentes se aproveitam de momentos de crise ou de contextos que remetem a crises, protagonizam guerras de narrativas, inclusive confundindo a imprensa e espalhando boatos, e usam plenamente os recursos tecnológicos para alcançar milhões e milhões de pessoas. E isso pode levar a um pânico coletivo, à desconfiança total nas instituições que deveriam zelar pela segurança e à desestabilização política.

O medo e a raiva são propulsores fundamentais da produção do ecossistema de desinformação. Teorias da conspiração ou mensagens alarmantes espalham o pânico, e temas complexos são superficialmente e midiaticamente tratados como forma de despertar a raiva. Portanto, não há lobo solitário em se tratando de desinformação, tampouco hackers entediados. 

No livro “Os engenheiros do caos”, Giuliano Da Empoli faz um alerta importante: “Em essência, a democracia não é nada mais do que isso. Um sistema que permite aos membros de uma comunidade exercer um controle sobre seu próprio destino, não se sentir à mercê dos eventos ou de uma força superior qualquer. Assegurar a dignidade de indivíduos autônomos, responsáveis por suas escolhas e as consequências delas. Eis por que não se pode fechar os olhos para o fato de, um pouco em todos os lugares, os eleitores demonstrarem o sentimento de ter perdido o controle de seu destino por causa de forças que ameaçam seu bem-estar, sem que as classes dirigentes mexam um dedo para ajudá-los. Os engenheiros do caos entenderam que esse mal-estar poderia se transformar em um formidável recurso político e utilizaram sua magia”.

Cabe a nós desnudar a magia.

 

(*) Jornalista, com pós-doutorado em estudos da desinformação pelo Centro de Lógica,  Epistemologia e História da Ciência (CLE) da Unicamp, doutora e mestre em Linguística e Língua Portuguesa. É pesquisadora do Observatório das Eleições. Sua tese de doutorado sobre o Jornal Nacional discute as estratégias de construção da narrativa do telejornal do impeachment de Dilma Rousseff à eleição de Jair Bolsonaro. Organizou e coordenou, com Leonardo Avritzer, o livro “Eleições 2022 e a reconstrução da democracia no Brasil” (Autêntica). Em 2024, com Avritzer e Marisa Von Büllow, organizou o livro “Democracy Under Attack” (Editora Springer).