Funciona assim: uma rede coordenada de perfis apócrifos produz, de forma massiva, conteúdos com inteligência artificial, sempre ofensivos e para degradar a imagem do presidente Luiz Inácio Lula da SIlva e do PT. Tais conteúdos são disseminados em collabs com parlamentares e figuras públicas da extrema direita com número expressivo de seguidores, em especial o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro, além de parlamentares e pré-candidatos: Gustavo Gayer, Mário Frias, Gilvan Costa, André Marinho. O ataque político feito com IA é também um modelo de negócio: tem até uma escola que ensina a fazer vídeos com a tecnologia, arrecadação direta via PIX e criptomoeda. Por fim, há também postagens massivas de jingles com IA no Tik Tok, com os mesmos objetivos: manipular a opinião pública mediante a degradação da imagem de Lula e do PT.
Esse ecossistema coordenado e complexo, descrito acima, foi mapeado pelo departamento jurídico da pré-campanha do presidente Lula, em sucessivas etapas de apuração, e envolve milhares de publicações e milhões de interações associadas nas redes sociais. O PT, PCdoB e PV, partidos da Federação Brasil da Esperança, protocolaram nesta quinta-feira, 30, no Tribunal Superior Eleitoral, uma representação eleitoral contra esses atores, pedindo providências imediatas: remoção de todos os URLs citados, seja de jingles do TikTok, seja de publicações do Instagram; identificação dos proprietários dos perfis e suspensão de monetizações.
“Essa rede reúne ao menos 32 perfis, 1.464.245 seguidores compartilhados e 23.828 publicações – ou seja, se somados aos números das pessoas públicas representadas, as publicações chegam a mais de 10 milhões de seguidores”, aponta a representação assinada pelo jurídico da campanha.
Gabinete do ódio novamente em ação, com Léo Índio
A representação destaca, nesta teia de perfis que agem de forma coordenada contra Lula, o primo de Flávio Bolsonaro, sobrinho de Jair Bolsonaro, Léo Índio, que vive foragido na Argentina. Pelo menos 139 publicações do perfil de Índio, altamente abjetas e intoleráveis segundo as regras estabelecidas pelo próprio TSE, por seu caráter machista, misógino, degradante e inverídico, são listadas na representação.
Léo Índio era integrante do chamado “gabinete do ódio”, grupo responsável pela estratégia de comunicação digital de Jair Bolsonaro, que tinha como modus operandi o ataque a adversários políticos. Ele se tornou réu pelo Supremo Tribunal Federal por participação nos atos antidemocráticos de 8 de janeiro de 2023.
Após ter seu passaporte apreendido, deixou o país, “o que motivou a decretação de sua prisão preventiva pelo Ministro Alexandre de Moraes em 2 de abril de 2025”, relembra a representação.
3 eixos para distorcer a percepção do eleitorado
Essa teia de desinformação tem amplia seu potencial lesivo a partir de três eixos: 1) as figuras públicas, como Flávio Bolsonaro, levam aumentam o alcance nas redes; 2) existe uma clara coordenação entre os perfis para compartilhamento de conteúdos, “um padrão observável, que configura, por si, comportamento inautêntico de dominação de fração do debate público na arena digital; e 3) essa estrutura ainda faz do ataque político um modelo de negócio para ganhar dinheiro, em especial com a venda de cursos e doações por PIX.
Os conteúdos contra Lula e contra o PT, que se espalham na rede em velocidade brutal, são deepfakes, vídeos, desenhos, imagens estáticas, memes. A intenção é uma só: “distorcer a percepção do eleitorado sobre a autenticidade e a espontaneidade do que se apresenta como reação popular ao pré-candidato Lula”, alegam os partidos que assinam a representação.
“A publicação desses materiais por pessoas públicas de grande envergadura no ambiente digital, que ostentam o peso da credibilidade institucional, assume papel importante para a consolidação do conteúdo na audiência. O material artificial recebe a chancela da credibilidade pública e institucional dessas autoridades ou do grau de influência que essas pessoas públicas carregam consigo”, alerta a representação.
Comportamento inautêntico e coordenado
A representação cita, inclusive, o nome do fenômeno já identificado pela literatura especializada para esse tipo de comportamento coordenado: astroturfing, um fluxo informativo paralelo, que tem “lógica de guerra informacional, na qual memes, hashtags e campanhas coordenadas são utilizados para construir narrativas artificiais de apoio”. Em outras palavras: esses conteúdos degradantes e extremamente ofensivos se multiplicam artificialmente, entre um grupo identificável de contas, sem que isso seja, de fato, uma manifestação espontânea das pessoas nas redes.
Essa rede de perfis, a maioria apócrifos ou anônimos, que se alia a figuras públicas da extrema direita com visibilidade, segue “produzindo uma percepção de rejeição generalizada ao pré-candidato [Lula] que não corresponde a um fenômeno espontâneo do debate público, mas a uma operação deliberadamente construída para dominar uma fatia da atenção e da audiência disponíveis nas redes sociais”, denuncia a representação.
Ao TSE, a Federação Brasil da Esperança, com base nos fatos fartamente detalhados, pede que:
- As plataformas sejam notificadas e promovam remoção de todos os URLs impugnados nesta representação, seja de jingles do TikTok, seja de publicações do Instagram;
- Os dados de registro de conexões de cada um dos perfis sejam guardados, a fim de que se identifique e qualifique cada um dos proprietários, viabilizando-se a sua responsabilização;
- Que sejam suspensas monetizações concedidas pela plataforma aos proprietários dos perfis envolvidos.
