Poucas trajetórias políticas brasileiras reúnem imagens tão poderosas quanto a de Luiz Inácio Lula da Silva. O menino que deixou Pernambuco em um pau de arara virou operário. O metalúrgico se transformou em líder de greves que desafiaram a ditadura. O preso político ajudou a fundar um partido, participou da elaboração da Constituição e se tornou o primeiro trabalhador da classe operária a chegar à Presidência da República pelo voto popular.
Lula governou o país por dois mandatos, deixou o Palácio do Planalto com ampla aprovação popular, enfrentou uma prisão injusta, recuperou seus direitos políticos e venceu a eleição mais disputada da história brasileira. Em 2023, voltou a subir a rampa do Planalto para receber a faixa presidencial das mãos do povo.
Neste domingo, 2 de agosto, essa caminhada ganhará um novo capítulo. Aos 80 anos, Lula será oficializado pelo Partido dos Trabalhadores como candidato à reeleição, ao lado do vice-presidente Geraldo Alckmin. Caso seja novamente escolhido pelos brasileiros, poderá alcançar o quarto mandato como presidente da República.
Mais do que o início de uma nova campanha, a convenção representa a continuidade de uma história que atravessa algumas das maiores transformações sociais e políticas vividas pelo Brasil nas últimas décadas.
Antes desse novo passo, o site do PT relembra algumas das cenas que ajudam a explicar como um retirante nordestino se tornou uma das maiores lideranças políticas da história do país.
O menino que atravessa o país em um pau de arara
Luiz Inácio Lula da Silva nasceu em 27 de outubro de 1945, na localidade que hoje pertence ao município de Caetés, então distrito de Garanhuns, no Agreste de Pernambuco.
Era o sétimo dos oito filhos de dona Eurídice Ferreira de Melo, a dona Lindu, e Aristides Inácio da Silva. A família vivia em condições precárias, enfrentando a fome, a falta de água e as dificuldades que marcavam a vida de milhões de brasileiros no Nordeste.
Em dezembro de 1952, quando Lula tinha sete anos, dona Lindu reuniu os filhos e partiu em direção a São Paulo. A viagem durou 13 dias na carroceria de um caminhão conhecido como pau de arara.
A família seguiu o mesmo caminho de milhões de nordestinos que deixaram sua terra em busca de trabalho e de uma vida melhor. Primeiro, instalou-se em Vicente de Carvalho, no litoral paulista. Depois, mudou-se para a capital.
Lula trabalhou como vendedor ambulante, engraxate e ajudante de tinturaria. Aos 14 anos, conseguiu seu primeiro emprego com carteira assinada. Após fazer um curso de torneiro mecânico no Senai, passou a trabalhar na indústria metalúrgica.
A pobreza não foi uma realidade que Lula conheceu por meio de relatórios ou estatísticas. Foi parte de sua própria vida. Décadas mais tarde, essa experiência estaria presente nas prioridades de seus governos, do combate à fome à ampliação das oportunidades de estudo e trabalho.
O operário que descobre a força do coletivo
Lula começou a participar do movimento sindical no fim da década de 1960, incentivado pelo irmão José Ferreira da Silva, o Frei Chico.
Em 1969, entrou para a direção do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema. Foi eleito presidente da entidade em 1975 e reconduzido ao cargo três anos depois.
O Brasil ainda vivia sob a ditadura militar. As greves eram reprimidas, os sindicatos sofriam intervenções e os salários dos trabalhadores perdiam valor diante da inflação.
Foi nesse ambiente que as fábricas do ABC Paulista começaram a parar.
As greves de 1978, 1979 e 1980 recolocaram a classe trabalhadora no centro da vida política nacional. Mais de uma década depois do golpe de 1964, milhares de metalúrgicos enfrentavam o medo, a repressão e os patrões para exigir melhores salários e condições dignas de trabalho.
No Estádio de Vila Euclides, em São Bernardo do Campo, as assembleias reuniam multidões. Como nem sempre havia equipamentos de som capazes de alcançar todos os presentes, as palavras de Lula eram repetidas pelos trabalhadores mais próximos até chegar ao fim da arquibancada.
A imagem do metalúrgico falando para milhares de companheiros se tornou um dos símbolos da resistência à ditadura. Lula deixava de ser apenas o presidente de um sindicato e começava a se transformar em uma liderança nacional.
Preso pela ditadura na greve de 1980
Em abril de 1980, os metalúrgicos do ABC iniciaram uma nova greve. O regime militar respondeu com repressão, intervenção no sindicato e prisões.
No dia 19 daquele mês, Lula foi levado por agentes do Departamento de Ordem Política e Social, o Dops. Enquadrado na Lei de Segurança Nacional, ficou preso por 31 dias ao lado de outros dirigentes sindicais.
A ditadura acreditava que, ao prender as lideranças, conseguiria encerrar a mobilização. A reação foi oposta. A greve ganhou repercussão nacional e a prisão aumentou ainda mais a projeção política de Lula.
Durante o período em que estava detido, Lula recebeu uma das notícias mais dolorosas de sua vida. Dona Lindu havia morrido. Ele deixou a prisão sob escolta para acompanhar o velório e o sepultamento da mãe. Depois da despedida, foi levado novamente para o cárcere.
Anos mais tarde, ao prestar depoimento à Comissão Nacional da Verdade, Lula avaliou que os militares haviam cometido um erro ao prendê-lo. A repressão que pretendia isolá-lo ajudou a apresentar sua liderança a todo o Brasil.
O nascimento do PT e a volta do povo à política
Das greves surgiu a convicção de que os trabalhadores precisavam construir uma representação política própria. Não bastava reivindicar direitos na porta das fábricas. Era necessário disputar as decisões tomadas dentro das instituições.
Em 1980, Lula participou da fundação do Partido dos Trabalhadores. O PT reuniu sindicalistas, integrantes de movimentos populares, intelectuais, artistas, comunidades eclesiais de base, militantes que enfrentavam a ditadura e brasileiros que não se sentiam representados pelos partidos tradicionais.
Era uma novidade na política nacional. Em vez de um partido criado de cima para baixo, o PT nascia das fábricas, das periferias, das comunidades rurais, das universidades e das lutas populares.
Lula presidiu a legenda entre 1980 e 1988. Em 1983, também participou da criação da Central Única dos Trabalhadores, a CUT.
Nos anos seguintes, esteve nas ruas durante a campanha das Diretas Já, que mobilizou milhões de pessoas pelo direito de escolher novamente o presidente da República.
A emenda das eleições diretas não conseguiu os votos necessários no Congresso, mas a pressão popular acelerou o fim da ditadura. Os trabalhadores que haviam desafiado o regime dentro das fábricas agora ocupavam as praças para reconstruir a democracia.
Da porta da fábrica para a Assembleia Constituinte
Em 1986, Lula foi eleito deputado federal por São Paulo com cerca de 650 mil votos. Foi a maior votação recebida por um candidato à Câmara dos Deputados até aquele momento.
No Congresso Nacional, participou da Assembleia Constituinte responsável pela elaboração da Constituição de 1988. A presença de Lula simbolizava uma mudança importante. O trabalhador que havia sido preso por organizar uma greve agora ajudava a escrever as novas regras da democracia brasileira.
Como constituinte, levou para o debate os direitos dos trabalhadores, a liberdade sindical, o direito de greve, a reforma agrária, a redução da jornada de trabalho e a participação popular.
O PT apoiou conquistas históricas incorporadas ao texto constitucional, embora tenha considerado que a versão final não avançava o suficiente em temas estruturais. O partido votou contra o conjunto do texto, mas assinou a Constituição e participou ativamente de sua elaboração.
A atuação de Lula na Constituinte mostrou que sua trajetória já havia ultrapassado definitivamente os limites do movimento sindical. O líder das assembleias do ABC passava a disputar os rumos do país dentro do Parlamento.
Três derrotas antes da primeira vitória
Em 1989, Lula concorreu pela primeira vez à Presidência da República. Foi também a primeira eleição direta para o cargo depois de quase três décadas.
Chegou ao segundo turno, mas acabou derrotado por Fernando Collor. Voltou a disputar a Presidência em 1994 e 1998, quando perdeu para Fernando Henrique Cardoso.
As derrotas não encerraram sua caminhada. Ao contrário, Lula continuou percorrendo o Brasil, ampliando o diálogo com diferentes setores da sociedade e fortalecendo a organização do PT em todas as regiões.
Nas Caravanas da Cidadania, atravessou cidades do interior, comunidades rurais, periferias e áreas abandonadas pelo poder público. Viu de perto a fome, o analfabetismo e a falta de acesso a serviços básicos.
O Brasil que Lula encontrou nessas viagens seria o país que ele tentaria transformar quando finalmente chegasse à Presidência.
Depois de três derrotas, decidiu disputar novamente. A persistência, assim como a capacidade de dialogar sem abandonar suas origens, se tornaria uma das marcas de sua trajetória política.
A vitória de 2002: o operário no Palácio do Planalto

Em 27 de outubro de 2002, dia em que completou 57 anos, Lula foi eleito presidente da República com quase 53 milhões de votos.
Pela primeira vez, um operário chegava à Presidência pelo voto popular.
A posse ocorreu em 1º de janeiro de 2003. Uma multidão tomou a Esplanada dos Ministérios para acompanhar a chegada do retirante nordestino, torneiro mecânico e fundador do PT ao Palácio do Planalto.
Ao receber a faixa presidencial, Lula afirmou que sua principal missão seria garantir que todos os brasileiros pudessem fazer três refeições por dia. O combate à fome deixava de ser tratado como uma promessa distante e passava a ocupar o centro das decisões do governo.
A posse representava mais do que a troca de um presidente. Trabalhadores, nordestinos, moradores das periferias e milhões de brasileiros que historicamente haviam sido afastados dos espaços de poder se reconheciam naquela vitória.
A história do país ganhava uma imagem inédita. Um homem sem diploma universitário, criado em uma família pobre e formado politicamente nas lutas sindicais assumia o cargo mais importante da República.
A reeleição e a confirmação de um projeto popular
Em 29 de outubro de 2006, Lula foi reeleito presidente com mais de 58 milhões de votos. A posse do segundo mandato ocorreu em 1º de janeiro de 2007, novamente ao lado do vice-presidente José Alencar.
A reeleição ocorreu após um primeiro mandato marcado pela ampliação das políticas sociais, pela valorização do salário mínimo, pela criação de empregos e pelo início de programas que mudariam a vida de milhões de famílias.
Durante o segundo mandato, o Brasil aprofundou o combate à pobreza, aumentou os investimentos públicos e ampliou o acesso ao ensino técnico e superior. Programas como o Bolsa Família, o ProUni e o Minha Casa, Minha Vida passaram a integrar a vida de milhões de brasileiros.
Lula também consolidou uma política externa soberana, fortalecendo as relações com a América Latina, a África e os países em desenvolvimento.
Ao fim de 2010, deixou a Presidência depois de ajudar a eleger Dilma Rousseff, a primeira mulher a governar o Brasil.
O encontro de Lula com as águas do São Francisco
Entre todas as obras realizadas pelos governos do PT, poucas se conectam de maneira tão profunda com a história pessoal de Lula quanto a transposição do Rio São Francisco.
A ideia de levar as águas do Velho Chico ao Semiárido atravessou gerações e governos desde o Império. Durante mais de um século, permaneceu como uma promessa.
O projeto começou a ser estruturado no primeiro mandato de Lula. Após a aprovação no Conselho Nacional de Recursos Hídricos, as obras foram iniciadas em 2007, como parte do Programa de Aceleração do Crescimento.
Em 2009, Lula fez sua primeira visita às obras. A cena carregava um forte simbolismo. O menino que havia deixado Pernambuco por causa da seca retornava ao Nordeste como presidente responsável por tirar do papel o maior projeto de infraestrutura hídrica do país.
Em dezembro de 2010, durante outra visita, afirmou que o sertão deixaria de ser lembrado apenas como objeto de estudos sobre a fome e a miséria e passaria a fazer parte do Brasil desenvolvido.
As obras tiveram continuidade no governo Dilma Rousseff. Em 2017, já fora da Presidência, Lula voltou ao Nordeste para participar da inauguração popular da chegada das águas a Monteiro, na Paraíba.
Em 2023, durante seu terceiro mandato, retornou ao projeto para acompanhar as obras do Ramal do Apodi. A estrutura foi planejada para ampliar o acesso à água em municípios da Paraíba, do Ceará e do Rio Grande do Norte.
A transposição liga duas pontas da vida de Lula. De um lado está o menino que conheceu a sede, a fome e a migração. Do outro, o presidente que utilizou o poder do Estado para impedir que novas gerações fossem obrigadas a repetir a mesma travessia.
A prisão que tenta apagá-lo da história
Em 7 de abril de 2018, Lula deixou a sede do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC e se entregou à Polícia Federal. Milhares de pessoas cercavam o local.
A prisão ocorreu enquanto Lula liderava as pesquisas de intenção de voto para a eleição presidencial daquele ano. Impedido de participar da disputa, ficou 580 dias preso em Curitiba.
Durante o período no cárcere, Lula recebeu familiares, advogados, lideranças políticas, artistas e representantes religiosos. Do lado de fora, a Vigília Lula Livre permaneceu mobilizada diariamente em defesa de sua liberdade e de seus direitos políticos.
O lugar escolhido para sua despedida antes da prisão também carregava significado. Lula retornou ao sindicato onde havia iniciado sua trajetória política e de onde havia comandado as greves contra a ditadura.
Quase quatro décadas depois da primeira prisão, ele estava novamente cercado por trabalhadores e apoiadores.
A liberdade e a recuperação dos direitos políticos
Lula deixou a prisão em 8 de novembro de 2019, depois de o Supremo Tribunal Federal decidir que o cumprimento da pena não poderia começar automaticamente antes do encerramento de todos os recursos.
Na saída, encontrou uma multidão. Reafirmou que continuaria lutando para provar que havia sido vítima de uma perseguição política e judicial.
Em 2021, o STF anulou as condenações impostas pela Justiça Federal de Curitiba. A Corte confirmou que a 13ª Vara Federal da capital paranaense não tinha competência para julgar as ações.
No caso do tríplex do Guarujá, a Segunda Turma do Supremo também reconheceu a parcialidade do então juiz Sergio Moro. Todas as decisões tomadas por ele naquele processo foram anuladas.
Com as decisões, Lula recuperou seus direitos políticos e voltou a poder disputar eleições.
A sequência dos acontecimentos representou uma das maiores reviravoltas da história política brasileira. O líder impedido de participar da eleição de 2018 voltaria às urnas quatro anos depois para enfrentar o governo de extrema direita.
A maior votação já recebida por um presidente
Em 2022, Lula liderou uma frente ampla em defesa da democracia. A candidatura reuniu partidos, movimentos populares, artistas, intelectuais e lideranças de diferentes tradições políticas.
Geraldo Alckmin, antigo adversário do PT em disputas presidenciais, passou a ocupar a vice na chapa. A união representava a necessidade de superar diferenças para enfrentar as ameaças às instituições e reconstruir o país.
No dia 30 de outubro de 2022, Lula recebeu 60.345.999 votos, o equivalente a 50,90% dos votos válidos. Foi a maior votação já obtida por um candidato à Presidência na história brasileira.
A disputa foi também a mais apertada desde a redemocratização. Pela primeira vez, um presidente em exercício foi derrotado ao tentar a reeleição.
Três anos depois de deixar uma cela em Curitiba, Lula era escolhido pelo povo para governar novamente o Brasil.
A faixa presidencial entregue pelo povo
Em 1º de janeiro de 2023, Lula subiu pela terceira vez a rampa do Palácio do Planalto.
Jair Bolsonaro havia deixado o país para não participar da transmissão do cargo. Diante da ausência do antecessor, a cerimônia foi reconstruída para que o próprio povo brasileiro conduzisse a faixa presidencial.
O grupo que acompanhou Lula na subida da rampa representava a diversidade do país. Havia uma criança negra, um indígena, uma pessoa com deficiência, um professor, um metalúrgico, uma cozinheira, um artesão e uma catadora de materiais recicláveis.
Aline Sousa, mulher negra e integrante da terceira geração de catadores de sua família, colocou a faixa em Lula.
A cena sintetizou o sentido daquele retorno. O presidente que havia começado a vida como vendedor ambulante e engraxate recebia das mãos do povo o símbolo do cargo mais importante da República.
O Palácio do Planalto voltava a ser ocupado não apenas por autoridades, mas pelos brasileiros que raramente apareciam no centro das cerimônias oficiais.
Uma trajetória que não terminou
A história de Lula não cabe apenas na relação de cargos que ocupou ou de eleições que disputou.
Ela está na imagem de dona Lindu atravessando o país com os filhos. Está nas assembleias lotadas do ABC, na prisão durante a ditadura, na fundação de um partido feito por trabalhadores e na chegada do primeiro operário à Presidência.
Está nas universidades abertas para os filhos da classe trabalhadora, nas casas entregues às famílias que nunca haviam tido um endereço próprio, na comida voltando à mesa e na água do São Francisco avançando pelo sertão.
Está também na resistência diante da perseguição, na liberdade conquistada e na subida da rampa ao lado do povo brasileiro.
Do pau de arara ao Palácio do Planalto, Lula transformou a própria vida em parte da história do país.
Neste domingo, essa caminhada entra em uma nova etapa. O menino de Caetés, o metalúrgico do ABC e o presidente eleito três vezes será novamente apresentado ao Brasil como candidato.
A trajetória continua.














