Mulheres nas lutas populares por democracia, igualdade e vida digna
Nas comunidades rurais, nas periferias urbanas e nos movimentos sociais, mulheres organizadas seguem enfrentando desigualdades e violências
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Por Lucinha Barbosa (*)
“Neste 8 de março, data que simboliza a luta histórica das mulheres por direitos, dignidade e igualdade, também se reafirma a força da organização coletiva construída no cotidiano das comunidades e dos movimentos populares.
Nas periferias urbanas, nos assentamentos da reforma agrária e nas comunidades rurais, as mulheres sustentam grande parte do trabalho de organização, cuidado e solidariedade. Ao mesmo tempo em que enfrentam de forma mais intensa os impactos da desigualdade social, são elas que mantêm vivas redes de apoio e iniciativas de mobilização por direitos.
Como agricultora e militante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), aprendi que a luta por justiça social passa também pelo reconhecimento do papel das mulheres trabalhadoras. A experiência das lutas populares demonstra que, quando as mulheres se organizam, as comunidades se fortalecem e a democracia ganha raízes mais profundas na vida do povo.
Protagonismo nas lutas populares
As mulheres sempre estiveram presentes nas grandes mobilizações sociais do país. Na luta pela terra, por moradia, trabalho digno, educação e saúde, têm papel central na organização comunitária e na construção de redes de solidariedade.
Nos últimos anos, esse protagonismo tem se ampliado. Mulheres negras, camponesas, indígenas, trabalhadoras e moradoras das periferias vêm assumindo novos espaços de liderança e participação política dentro dos movimentos sociais e das organizações populares.
Também cresce a presença das mulheres jovens, que chegam com novas formas de organização, novas pautas e renovam a energia das lutas populares. Muitas jovens militantes têm contribuído para fortalecer o diálogo entre gerações e ampliar a participação feminina na vida política.
Garantir espaço para que essas jovens participem, se formem politicamente e assumam responsabilidades é fundamental para a continuidade das lutas populares no Brasil.
Mulheres na política e na representação democrática
Ampliar a presença feminina nos espaços de decisão é outro passo fundamental. Ainda hoje, as mulheres seguem sub-representadas em muitos dos locais onde se definem políticas públicas e decisões importantes para o país.
Lutar por mais mulheres nos parlamentos, nos governos e nas instâncias de decisão também significa fortalecer a democracia. Quando mulheres vindas das periferias, do campo e dos movimentos sociais chegam a esses espaços, levam consigo as experiências e as demandas concretas da população.
Fortalecer a presença das mulheres na política é, portanto, ampliar a representatividade democrática e aproximar as decisões públicas da realidade vivida pela maioria do povo brasileiro.
Desafios que persistem
Apesar dos avanços, os desafios permanecem significativos. Muitas mulheres ainda enfrentam múltiplas jornadas que incluem trabalho, cuidados familiares, tarefas domésticas e participação na militância social.
Diante disso, é fundamental que os movimentos populares continuem criando condições para ampliar a participação feminina e estimular o surgimento de novas lideranças, especialmente entre as mulheres jovens.
O enfrentamento ao machismo e às desigualdades de gênero também faz parte da construção de um país mais justo e de uma democracia que se realize plenamente na vida da população.
Políticas públicas e proteção à vida das mulheres
A luta das mulheres nos territórios populares também dialoga com a construção de políticas públicas capazes de garantir direitos e proteção. No Brasil, a violência de gênero continua sendo um problema grave que exige ações permanentes do Estado.
Nesse contexto, iniciativas como o Pacto Nacional Brasil contra o Feminicídio, firmado recentemente com a participação dos presidentes dos três Poderes da República, apontam para a necessidade de uma ação articulada entre governo, sistema de justiça e sociedade para prevenir violências e proteger a vida das mulheres.
Mais do que compromissos institucionais, esses esforços precisam se traduzir em políticas públicas permanentes, redes de proteção fortalecidas e presença efetiva do Estado nos territórios onde vivem as populações mais vulneráveis.
Um país mais justo também se constrói com a luta das mulheres
As mulheres que constroem as lutas populares no Brasil mostram diariamente que sua mobilização vai além da defesa de direitos individuais. Trata-se de construir um país com mais democracia, justiça social, igualdade e respeito à vida.
Ao colocar no centro da agenda temas como dignidade, cuidado, combate às desigualdades e igualdade de oportunidades, as mulheres ampliam o horizonte das lutas populares e contribuem para fortalecer a democracia.
Neste 8 de março, reafirma-se que a luta das mulheres segue sendo parte essencial da luta do povo brasileiro por direitos, democracia e um país mais justo e solidário.”
(*) Agricultora, militante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e secretária nacional de Movimentos Populares e Políticas Setoriais do Partido dos Trabalhadores (PT). Foi a primeira secretária de Políticas para as Mulheres do governo da Bahia e também secretária de Promoção da Igualdade Racial do estado.
