BC “autônomo” aumenta a Selic e vai travar a economia

Economistas estimam que aumento dos juros prejudicará principalmente as famílias mais pobres. Gleisi: “Com esse governo inerte e incompetente vamos ficar nesse ciclo negativo”

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Ciclo vicioso: alta dos combustíveis pressionam a inflação, que por sua vez empurra juros para cima

Pela nona vez consecutiva, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) decide apostar em alta de juros para conter a escalada inflacionária, sem garantias de que a receita neoliberal funcionará. A decisão anunciada na noite desta quarta-feira (16), de elevar a taxa básica (Selic) ao maior patamar em cinco anos (de 10,75% para 11,75% ao ano), atende as expectativas da maioria do “mercado”, que já aposta em nova alta na próxima reunião, mas agrava ainda mais um cenário econômico devastador.

“As classes mais pobres tendem a sofrer mais pela desaceleração econômica provocada pela alta dos juros, pois estão mais vulneráveis ao desemprego, por exemplo”, ponderou Andre Roncáglia, economista e professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), ao Uol.

Rogério Studart segue a linha. “Não faz nenhum sentido elevar juros para enfrentar esse tipo de inflação, respondendo a um choque de oferta numa economia que já tem 14 milhões de desempregados”, comenta o senior fellow (acadêmico de alto nível) do núcleo de economia política do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri).

A presidenta nacional do PT, Gleisi Hoffmann, manifestou-se no Twitter. “Aconteceu o esperado, com a alta dos combustíveis pressionando a inflação o Banco Central aumentou os juros básicos pra 11,75%. Do jeito que esse governo é inerte e incompetente vamos ficar nesse ciclo negativo e depreciativo”, concluiu.

A deputada federal paranaense destacou um ponto central da questão: a dolarização dos combustíveis promovida pela Petrobras desde a gestão de Pedro Parente, nomeado pelo interino Michel Temer apenas uma semana após o afastamento da presidenta legitimamente eleita Dilma Rousseff, em 2016. A política do Preço de Paridade de Importação (PPI) foi mantida por Jair Bolsonaro, apesar de suas investidas e esperneios encenados contra a empresa desde a campanha presidencial.

Em seu comunicado após a reunião, o Copom apresentou fatores externos e internos para justificar o maior ciclo altista da Selic desde 1999, quando, em meio à crise cambial, o BC aumentou a Selic em 20 pontos porcentuais de uma só vez. Uma dessas razões é o conflito armado no Leste Europeu, que levou a “um aperto significativo das condições financeiras e aumento da incerteza em torno do cenário econômico mundial”.

Internamente, o BC “autônomo” considerou o “impacto sobre as projeções de inflação de sua hipótese usual para o preço do petróleo em USD (dólares)” para adotar “a premissa na qual o preço do petróleo segue aproximadamente a curva futura de mercado até o fim de 2022, terminando o ano em US$100/barril e passando a aumentar dois por cento ao ano a partir de janeiro de 2023”.

Nesse cenário, diz o comunicado, “as projeções de inflação do Copom situam-se em 6,3% para 2022 e 3,1% para 2023”. Em fevereiro, a inflação acelerou 1,01%, maior variação para o mês desde 2015, chegando a 10,54% no acumulado em 12 meses.

Por isso, o Copom considerou que, “diante de suas projeções e do risco de desancoragem das expectativas para prazos mais longos, é apropriado que o ciclo de aperto monetário continue avançando significativamente em território ainda mais contracionista”. Traduzindo do economês: crédito mais caro travando decisões de investimentos das empresas, bloqueando a criação de empregos e reduzindo ainda mais os salários, que perdem poder de compra a cada pesquisa divulgada.

Brasil é vice-campeão mundial de juros altos

Agora, o Brasil tem a segunda maior taxa de juros reais no mundo, segundo o ranking do MoneYou e da Infinity Asset Management. A Rússia assumiu a liderança, elevando a taxa nominal de juros para 20% como tentativa de conter a desvalorização de sua moeda, o rublo, após a bateria de sanções contrárias lideradas pelos Estados Unidos.

Mas a expectativa da maior parte dos economistas do mercado financeiro no Brasil é de novas altas da Selic nos próximos meses. A previsão da maioria é de que os juros básicos subam para 12,5% ao ano no começo de maio e para 12,75% em meados de junho, acima do nível de abril de 2017, quando estacionou em 12,25% ao ano.

Além de não conter a inflação, a Selic mais alta resulta em empréstimos bancários mais caros – em 2021, no rastro dos seguidos reajustes da taxa básica, o juro bancário sofreu o maior aumento em seis anos. Encarecendo o crédito, é imediato o impacto negativo sobre o consumo da população, os investimentos produtivos e a atividade econômica.

Outro problema são as despesas maiores com juros da dívida pública, que em 2021 também foram os mais altos em seis anos. A organização Auditoria Cidadã da Dívida estima que a alta da Selic em um ponto percentual gera aumento de R$ 30,8 bilhões na dívida bruta e de R$ 31,9 bilhões na dívida líquida. O custo da dívida, que beneficia principalmente grandes bancos e investidores, dá um salto de R$ 25 bilhões anuais.

Mais juros, menos empregos

Ao aumentar seguidamente a taxa básica de juros, o BC “autônomo” sinaliza ao mercado que está disposto a pagar taxas mais altas a grandes bancos e investidores. Estes, por sua vez, exigem taxas de juros mais altas também por outros tipos de títulos públicos.

O “mercado”, evidentemente, defende a escalada. “Elevar juros faz sentido porque dificulta o repasse de preços dentro da economia. Além disso, juros elevados atraem mais capital, reduzindo a cotação do dólar, o que também atenua o impacto dos preços internacionais na nossa economia”, argumentou Roberto Padovani.

O que o economista chefe do Banco Votorantin (BV) não mencionou em seu raciocínio foi a decisão do Comitê de Política Monetária do Federal Reserve (Fed), o BC dos Estados Unidos, também anunciada nesta quarta, de aumentar a taxa básica de juros, em 0,25 ponto percentual, para um intervalo entre 0,25 e 0,5%, na primeira alta desde 2018. A autoridade monetária anunciou que aumentos contínuos “serão apropriados”, e a maioria dos participantes espera que a taxa chegue a 1,87% até o fim do ano.

A diferença para o Brasil é que na terra do Tio Sam a inflação, que bateu em 2021 o maior valor nos últimos 39 anos, foi causada pelo aumento do consumo devido à imensa injeção de recursos na economia com os auxílios distribuídos pelo governo durante a fase crítica da pandemia. Lá, a taxa de desemprego está em 3,8%.

No Brasil, a inflação foi gerada pela desorganização da economia, e não pela alta da demanda – pelo contrário, aqui o consumo cai pela perda do poder de compra da população. Nesta sexta-feira (18), o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) anunciará a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, com os números do desemprego de janeiro. A de dezembro apresentou taxa de desocupação de 11,1%.

Não à toa, espera-se que o Ministério da Economia anuncie nesta quinta-feira (17) o corte da projeção de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) em 2022. Reportagem da Folha de S.Paulo estima que a estimativa cairá de 2,1% para 1,5%. O governo também deve reavaliar para cima as estimativas de inflação.

Os dados servem de referência para a revisão bimestral do Orçamento, que será concluída até o dia 22 de março. Cada 0,1 ponto porcentual a menos de crescimento no PIB tira R$ 695,3 milhões da arrecadação. Por outro lado, cada 0,1 ponto a mais de inflação injeta R$ 651,1 milhões. Como a revisão na inflação deve ser de magnitude maior que a mudança no PIB, a tendência é haver um ganho líquido do lado das receitas.

Da Redação

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