Corredor Ferroviário Bioceânico: A Rota Estratégica para Chancay
Porque o caminho mais inteligente para o Pacífico já está pronto – Por Afonso Carneiro Filho / Setorial Nacional de Logística, Transportes e Mobilidade Urbana do PT
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A América do Sul está prestes a redesenhar seu destino logístico. Com a inauguração do Porto de Chancay, no Peru, uma aposta bilionária que abre as portas do Pacífico aos produtos brasileiros, o Brasil se vê diante de uma encruzilhada histórica sobre, como atravessar um continente com eficiência, rapidez e inteligência?
A resposta não está em abrir novos caminhos na floresta, mas em reativar um patrimônio estratégico abandonado. Estamos falando sobre a estrada de ferro EF-265 (Malha Oeste) que liga Santos (SP) a Corumbá (MS).
Enquanto alguns propõem rotas faraônicas e incertas pelo Norte, a solução mais viável, barata e sustentável já existe, só precisa ser resgatada.
O Corredor de Capricórnio – EF-265 a Rota Inteligente
Revitalizar a EF-265 significa aproveitar uma infraestrutura que já tem faixa de domínio preservada, pontes construídas sobre os rios Paraguai e Paraná e conexão direta com a Bolívia.
Os investimentos necessários giram em torno de apenas R$ 6 bilhões do lado brasileiro, cerca de 10% do custo do acesso via região amazônica, além de anos de obras e licenciamentos.
O grande trunfo é a bitola métrica (distância entre trilhos =1m), essa característica técnica, que pode parecer um detalhe mas, é a chave para a integração verdadeira.
Essa bitola é a mesma utilizada no Paraguai, Argentina, Chile, Bolívia e Peru. Isso significa que um trem pode sair de Santos, cruzar fronteiras sem quebras de carga e chegar a Chancay e voltar, trazendo produtos dos países vizinhos ou da Ásia (cargas de retorno), otimizando o uso dessa ferrovia.
Acre e FIOL, Os Caminhos da Incerteza
Forçar uma passagem pelo Acre, via EF-354, significa atravessar a Amazônia, impactar terras indígenas, enfrentar licenciamentos complexos e assumir custos astronômicos e sem garantia de conclusão e sem cargas de retorno.
Da mesma forma, apostar na FIOL na Bahia, onde decorrido 10 anos da ordem de serviço, o início da implantação ainda não tem o Porto Sul em Ilhéus e ainda há trechos sem projeto executivo (FIOL3), é assumir um risco logístico e financeiro que o Brasil não pode bancar. Melhor deixar a FICO e FIOL para escoar cargas para Bahia, como foi originalmente planejado.
Enquanto essas alternativas engatinham em meio a indefinições, a Malha Oeste está lá, com seus trilhos esperando, mesmo que hoje cobertos pelo mato e pela desatenção com o patrimônio público ferroviário.
A pergunta que fica é: quanto custa para nação essa linha parada, transferindo cargas para o asfalto, desgastando pavimento, aumentando o número de acidentes e mortes nas estradas, além do desperdício e perda de patrimônio, pelo abandono.
A EF-265 é também uma escolha ambiental, o trem emite cinco vezes menos CO₂ que os caminhões e evita abertura de novos corredores (estradas vicinais) em biomas sensíveis.
Para além da Soja e do Minério, Desenvolvimento, Empregos e Sustentabilidade
Reativar a EF-265 não é só escoar grãos e minérios. É criar de 50 a 70 mil empregos na obra, até 20 mil postos permanentes, desenvolver polos logísticos no interior do país, promover os trens de passageiros como eixo de integração turística e regional, reduzindo a pressão sobre as rodovias, poupando vidas e asfalto.
O Porto de Chancay está pronto, só falta chegarmos lá, isso é possível por cabotagem partindo dos portos do Chile, ou pela melhoria das linhas existentes no Brasil, Argentina, Bolívia e Peru, além da construção de alguns segmentos de ferrovia, visando conectar as linhas existentes, até Chancay.
A EF-265 não é uma ferrovia do passado, é a ferrovia do futuro, econômica, integradora, sustentável e estratégica. O Brasil não precisa inventar um novo caminho para o Pacífico. Só precisa ter a sabedoria de voltar a trilhar a que já foi construído e tomar uma decisão política de priorizar o sensato sobre o espetaculoso, o viável sobre o imaginado.
Setorial Nacional de Logística, Transportes e Mobilidade Urbana do PT