A novela BolsoMaster ganhou mais um capítulo. Depois dos áudios, mensagens, planilhas, contratos e comprovantes bancários que revelaram a relação entre Flávio Bolsonaro, o banqueiro Daniel Vorcaro, o Banco Master e o filme Dark Horse, uma nova reportagem do Intercept Brasil mostra que o fundo Havengate, usado para receber dinheiro destinado à produção sobre Jair Bolsonaro, nasceu ligado a um projeto imobiliário no Texas que não saiu do papel. Mesmo assim, seguiu ativo e acabou recebendo milhões de dólares ligados à negociação conduzida por Flávio com Vorcaro, ex-dono do Master.
O caso, que já era grave, ficou ainda mais simbólico: de um lado, um banqueiro investigado em um dos maiores escândalos financeiros do país; de outro, integrantes do clã Bolsonaro tentando viabilizar um filme político sobre o ex-presidente em ano de disputa eleitoral. No meio do caminho, dinheiro enviado ao exterior, versões contraditórias, uso de emendas eleitorais, dúvidas e suspeitas.
Acompanhe 10 capítulos da novela Bolsomaster
1. A mentira de Flávio
O primeiro capítulo da novela Bolsomaster começa com uma negativa direta de Flávio Bolsonaro. Na manhã de 13 de maio, antes da publicação da série de reportagens do Intercept Brasil, o senador foi questionado sobre o financiamento de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, para o filme “Dark Horse”, cinebiografia de Jair Bolsonaro. A resposta foi categórica: “É mentira”. Ele riu, chamou o repórter de “militante” e deixou o local.
Horas depois, a reportagem revelou áudios, mensagens e documentos que apontavam justamente o contrário: Flávio havia tratado com Vorcaro de uma operação milionária para bancar o filme sobre o pai. A partir daí, a versão mudou. O senador passou a dizer que se tratava de “patrocínio privado” para um “filme privado” sobre a história de Jair Bolsonaro, negando contrapartidas ilegais.
2. “Não conheço”, mas é “meu irmão”
A contradição ficou ainda maior porque a negativa não se restringia ao filme. Antes das revelações, Flávio Bolsonaro vinha tentando se afastar do Banco Master e do próprio Daniel Vorcaro. O senador havia dito em março que nunca havia tido contato com o banqueiro, depois de a imprensa noticiar que seu telefone aparecia na agenda de Vorcaro.
As mensagens divulgadas pelo Intercept, porém, mostraram uma relação muito mais próxima. Em uma delas, enviada em 16 de novembro de 2025, Flávio escreveu a Vorcaro: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz!”. Em outra frente, registros apontam convites para encontros reservados envolvendo o banqueiro, o ator Jim Caviezel e o diretor Cyrus Nowrasteh, ligados ao filme.
Ou seja: a novela não começou apenas com uma pergunta sobre dinheiro. Começou com a queda de uma versão pública. Flávio tentava vender distância; os documentos indicavam proximidade, cobrança e articulação.
3. Uma ajuda de R$ 134 milhões
O valor no centro da história é o que dá dimensão ao escândalo. Flávio Bolsonaro negociou com Daniel Vorcaro US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões na cotação da época, para financiar Dark Horse. Vorcaro teria prometido US$ 24 milhões para ajudar a produzir o filme e que parte relevante desse valor já havia sido paga.
Não era uma contribuição pequena, nem um apoio informal. Era uma operação de porte internacional, com cronograma de pagamento, intermediários, contratos, remessas para os Estados Unidos e personagens ligados ao núcleo político da família Bolsonaro. A pergunta que fica é por que um projeto audiovisual sobre Jair Bolsonaro precisaria de uma estrutura financeira tão grande e tão pouco transparente.
4. A planilha com os repasses
A história também não parou na promessa de financiamento. Segundo a planilha “Funding Schedule” revelada pelo Intercept, o cronograma previa 14 desembolsos entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026. As duas primeiras parcelas eram de US$ 2 milhões cada. As demais, de US$ 1,66 milhão. Até maio de 2025, o total registrado como recebido chegava a US$ 10,6 milhões, aproximadamente R$ 61 milhões na cotação da época.
Esse ponto é decisivo porque tira o caso do campo da conversa e leva para o campo da execução financeira. Havia planilha, havia cronograma, havia parcelas em atraso e havia cobrança. Em agosto de 2025, o empresário Thiago Miranda enviou a Vorcaro a tabela de pagamentos e avisou que duas parcelas estavam atrasadas e uma terceira estava para vencer. Vorcaro respondeu: “Segunda fazemos duas”.
A dúvida, portanto, não é apenas se Flávio pediu dinheiro. É quanto foi efetivamente movimentado, quem controlou os recursos, quem recebeu, quem gastou e qual foi o destino final desses milhões.
5. O projeto “mais importante” do banqueiro
Outro capítulo importante é a prioridade dada por Daniel Vorcaro ao filme. Segundo o Intercept, mensagens de janeiro de 2025 mostram que a pressão para liberar recursos destinados a Dark Horse teve efeitos concretos dentro da estrutura financeira comandada pelo dono do Banco Master. Em meio a outros pagamentos pendentes, Vorcaro teria definido o projeto como “o mais importante disparado”.
Se o Banco Master já estava sob suspeita e seu dono enfrentava problemas bilionários, por que um filme sobre Jair Bolsonaro aparecia como prioridade? Que interesse havia por trás de uma produção política da família Bolsonaro a ponto de ela disputar espaço com outros compromissos financeiros do banqueiro?
6. Do Brasil ao Texas: a rota do dinheiro
A rota financeira é um dos pontos mais nebulosos da Bolsomaster. O Intercept revelou um comprovante de transferência internacional de US$ 2 milhões para o Havengate Development Fund LP, fundo sediado no Texas. A remessa foi feita pela Entre Investimentos e Participações, empresa que, segundo a reportagem, aparecia nas mensagens como caminho operacional para viabilizar o envio dos recursos.
A ligação com o entorno bolsonarista aparece porque o fundo Havengate tinha como agente legal o escritório de Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. Documentos societários também apontam a presença de Altieris Santana no quadro ligado ao fundo, outro nome citado nas mensagens sobre a operação financeira.
7. Tinha até promessa de green card
A revelação mais recente do Intercept tornou essa rota ainda mais suspeita. O Havengate Development Fund LP, que recebeu dinheiro ligado ao filme, havia sido criado originalmente para vender a investidores, inclusive brasileiros, participação em um projeto imobiliário no Texas chamado Havengate Community. O material prometia retorno financeiro e, dependendo do valor investido, a possibilidade de obtenção de green card pelo programa EB-5.
Só que o empreendimento não saiu do papel. Segundo a reportagem, registros oficiais do Texas, do condado de Collin e da cidade de Melissa não mostram terreno, alvará de construção ou execução do projeto. Mesmo assim, o fundo continuou juridicamente ativo por anos e, em fevereiro de 2025, recebeu uma ordem internacional de pagamento de US$ 2 milhões ligada à negociação entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro para financiar Dark Horse.
8. Os poderes de Eduardo
A participação de Eduardo Bolsonaro também precisa ser explicada. Segundo contrato obtido pelo Intercept, Eduardo atuou como produtor-executivo de Dark Horse, com responsabilidades sobre a gestão financeira do projeto. A reportagem afirma que isso contradiz a versão divulgada por ele nas redes sociais, segundo a qual teria apenas cedido direitos de imagem e não exercido função de gestão no filme.
O contrato, segundo o Intercept, coloca Eduardo e Mario Frias à frente da produção-executiva, função com poder para lidar com orçamento, captação e decisões financeiras. Em uma troca de mensagens, Eduardo também teria sugerido alternativas para facilitar o envio de recursos aos Estados Unidos, afirmando que seria melhor ter o dinheiro já em território americano porque remessas do Brasil poderiam demorar meses.
9. As sombras que rondam a produção
A rede em torno de Dark Horse também envolve a produtora GoUp, Mario Frias e Karina Ferreira da Gama. Segundo o Intercept, Mario Frias enviou áudio a Daniel Vorcaro agradecendo pelo apoio ao projeto ainda em dezembro de 2024, no início das tratativas. A reportagem também aponta que o filme foi rodado no Brasil sem cumprir obrigações exigidas pela Ancine, como registro da produção, contratos apresentados, comprovação de vistos de trabalho para elenco estrangeiro e pagamento de direitos trabalhistas a parte da equipe brasileira.
Outro braço da história envolve o Instituto Conhecer Brasil, comandado por Karina Ferreira da Gama, dona da GoUp e produtora-executiva do filme. A entidade foi alvo de operação da Polícia Civil em investigação sobre possível fraude em contrato de Wi-Fi Livre em São Paulo e suspeita de desvio de dinheiro para a produção de Dark Horse.
10. Os pedidos de investigação
O PT acionou diversos órgãos para apurar a origem, o caminho e o destino dos recursos negociados entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro. Entre as suspeitas apontadas estão lavagem de dinheiro, ocultação de beneficiários, caixa dois, contabilidade paralela, possível uso eleitoral dissimulado do filme e conexões com estruturas no Brasil e no exterior.
Entre os órgãos acionados estão Polícia Federal (PF), Procuradoria-Geral da República (PGR), Tribunal de Contas da União (TCU), Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).
A bancada petista também pediu apuração sobre possível uso indireto de dinheiro público, inclusive emendas parlamentares, ONGs e contratos ligados ao ecossistema da produção. Em outra frente, o PT acionou o TCU para investigar a negociação de R$ 134 milhões e a suspeita de que estruturas públicas ou recursos de origem sensível tenham servido de lastro indireto para financiar o projeto audiovisual.