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‘Como um vírus poderoso, a desinformação ataca a saúde no Brasil’

Onda irresponsável de fake news sobre vacina da dengue e imunização em geral é reflexo do negacionismo da era Bolsonaro

Foto: Criação: João Firpe

Por Eliara Santana (*)

No dia 8 de junho, o Ministério da Saúde anunciou a suspensão temporária da aplicação da vacina contra a dengue do Instituto Butantan, uma vez que houve reações adversas graves em pessoas que receberam a vacina. Quinhentas mil doses foram aplicadas, e entre as pessoas que receberam as doses, foram registrados 42 casos de reações adversas severas, sendo que todos os casos estão sendo cuidadosamente avaliados e não há ainda comprovação de que os casos se relacionem diretamente à vacina.

No entanto, apesar de todos os cuidados dos órgãos responsáveis no monitoramento, a interrupção deflagrou uma onda irresponsável de fake news sobre a vacina especificamente e a vacinação em geral, o que vem se intensificando no Brasil de modo muito preocupante.  

Sob o governo de Jair Bolsonaro, o negacionismo se instalou quase como norma no país, o que ficou evidenciado pela maneira como o governo e o presidente lidaram com a pandemia de Covid-19, em relação aos embates frontais com preceitos científicos já consolidados e no tocante às medidas de prevenção e de combate à doença.

Naquele momento, quando o país contabilizava mais e mais mortos, o tom era de questionamento à eficácia das vacinas, o que levou a população a ter medo de se imunizar.  

Agora, o ecossistema de desinformação consolidado se aproveita de uma situação adversa específica com uma vacina – o que ainda está sendo apurado – para espalhar, novamente, o pânico na população e se apoiar numa discussão enviesada e equivocada sobre liberdade de expressão. Importante ressaltar que os problemas registrados com a vacina foram prontamente comunicados e tiveram a rápida adoção de medidas corretivas e de investigação científica sobre o que de fato ocorreu. 

A dengue representa uma ameaça grave à saúde pública no Brasil, e a vacina é fundamental para reverter esse cenário. Lembrando que, em 2024, houve uma explosão de casos no país, quando a doença atingiu níveis epidemiológicos alarmantes no Brasil – concomitantemente, explodiu também a desinformação sobre a doença. 

A vacinação na mira das fake news 

No auge da pandemia, o descaso do governo Jair Bolsonaro com a Covid foi meticulosamente camuflado por uma onda de desinformação sobre normas científicas e vacinas. Depois, o governo nada fez para restabelecer a confiança das pessoas na vacinação – bandeira que o país carregava com muito orgulho, uma vez que tinha (e reconquistou) um Programa Nacional de Imunização eficientíssimo e com reconhecimento internacional.

O cenário começou a mudar somente em 2023, com o novo governo Lula e a guinada no Ministério da Saúde, cujas medidas e campanhas estão sendo essenciais para essa reconfiguração positiva. O fato é que os brasileiros sempre confiaram nas vacinas e nas campanhas de vacinação, mas a instrumentalização da desinformação conseguiu incutir na população o medo e a desconfiança. 

Lula se envolveu diretamente em campanhas de vacinação, logo no início de 2023. Aqui, vacinado por Geraldo Alckmin, que é médico.Foto: Ricardo Stuckert/PR

Em 2024, uma pesquisa conduzida pelo Instituto Ipsos e encomendada pela biofarmacêutica Takeda (responsável pela vacina Qdenga, contra a dengue), quis ouvir os brasileiros para entender as percepções sobre a dengue e a vacinação em geral. A pesquisa, que entrevistou 2 mil pessoas, teve a colaboração da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI).

A sondagem constatou que pais e jovens confiam na vacinação em geral, mas mostrou também a ampla circulação das fake news sobre vacinas nas redes: 4 em 10 entrevistados relataram ter recebido informações falsas sobre vacinas. Para além dos números, os dados revelam que a desinformação que circula livremente impõe uma barreira à vacinação, e segundo o estudo, mesmo com a confiança nas vacinas, a circulação de fake news impacta diretamente as decisões das pessoas sobre se vacinar ou não: 

  • 41% dos participantes relataram ter recebido informações falsas sobre vacinas nas redes sociais;
  • Quase 30% já deixaram de se vacinar ou recomendaram que outros não se vacinassem devido a dúvidas sobre segurança e eficácia;
  • 10% decidiram não se vacinar por causa de informações recebidas online ou de amigos e parentes;
  • 17% não mudaram de opinião, mas ficaram na dúvida por causa das informações recebidas.

As informações equivocadas sobre as vacinas provocam medo e confusão, como revela a pesquisa: 23% dos entrevistados sentiram-se negativamente impactados, relatando ansiedade (16%), desconfiança (15%), medo (10%) e confusão (9%).

Outra sondagem, o “Estudo sobre Consciência Vacinal no Brasil”, realizado pelo Conselho Nacional do Ministério Público em conjunto com a Universidade Santo Amaro (Unisa), em 2025, também mostrou que a desinformação impacta a percepção das pessoas em relação às vacinas, provocando dúvidas e fazendo aflorar o medo na população brasileira em relação aos imunizantes.

Segundo a pesquisa, pelo menos 1 a cada 5 brasileiros afirmou já ter sentido medo de se vacinar ou desistiu de tomar a vacina após ler uma notícia negativa em plataformas digitais.

O estudo também mostrou que 21% dos brasileiros avaliam como alto o risco de reações das vacinas e 27% afirmam já ter sentido medo de se vacinar ou de levar uma criança ou adolescente para se vacinar.  Por outro lado, a pesquisa também mostrou que 72% dos entrevistados confiam ou confiam muito nas vacinas e 90% acham os imunizantes importantes ou muito importantes para a saúde pessoal, da família e da comunidade.

Claramente, uma população que acreditava e confiava nas vacinas passa a temê-las, por causa da desinformação. E o medo leva a população a não se vacinar, leva as mães a não darem as vacinas adequadas aos filhos, especialmente nos primeiros meses de vida. Isso é gravíssimo. 

Dados dos Painéis de Vacinação do Ministério da Saúde mostram que, em 2024, apenas 3 dos 16 imunizantes indicados até o primeiro ano de vida atingiram as metas definidas pelo Ministério. E até abril de 2026, mesmo com registro de mudança na cobertura vacinal,  nenhum dos imunizantes ofertados pelo PNI [Programa Nacional de Imunizações] atingiu a chamada “meta ótima” (acima de 95%), e muitos estão abaixo dos 80%, com dados alarmantes em relação à cobertura de algumas vacinas muito importantes, como segunda dose da tríplice viral (72,54%), vacina contra a varicela (73,93%) e o primeiro reforço da DTP, com 74,71%.

 Outro cenário também muito preocupante, dessa vez relativo à imunização contra a poliomielite, foi revelado pelo Anuário VacinaBR 2025: uma queda expressiva na cobertura que se intensificou entre 2020 e 2021 (o período mais intenso da pandemia de Covid-19).

O levantamento foi feito pelo Instituto Questão de Ciência (IQC), com apoio da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) e parceria com o Unicef. Felizmente, houve avanços desde 2023, mas, em 2025, nenhum estado brasileiro atingiu a meta de 95% de vacinação contra a poliomielite. De acordo com os Painéis de Vacinação do Ministério da Saúde, a evolução anual da cobertura vacinal contra a doença mostra que, em 2015, o índice era de 98,29%; já em 2020, caiu para 76,79%, e em 2021, chegou ao baixíssimo patamar de 71,04%. 

O Brasil está livre da circulação do vírus que causa a poliomielite – comumente chamada de paralisia infantil pelas sequelas que deixava nas crianças, quando não havia vacina disponível. No entanto, como alertam os cientistas, médicos e pesquisadores, é extremamente importante manter as metas de cobertura vacinal para evitar que o vírus retorne.

Campeão de desinformação na América Latina

Atualmente, o Brasil é o país que lidera a desinformação sobre vacina na América Latina. O dado faz parte do estudo Desinformação Antivacina na América Latina e no Caribe (Anti-vaccine Disinformation in Latin America and the Caribbean), realizado pelo Laboratório de Estudos sobre Desordem Informacional e Políticas Públicas da Fundação Getulio Vargas e divulgado em outubro de 2025.

Na pesquisa, foram mapeados 81 milhões de mensagens que foram publicadas em 1.785 comunidades de teorias da conspiração do Telegram que circularam entre 2016 e 2025 em 18 países da América Latina e do Caribe. De acordo com o estudo, o Brasil lidera o volume de mensagens e o número de usuários ativos que participam de comunidades conspiratórias sobre vacinas e é o país responsável por mais de 580 mil conteúdos falsos ou com desinformação sobre imunização.

No Brasil, as fake news que circulam livremente pelas plataformas e redes sociais impactam não somente a confiança nas vacinas, mas também a adesão da população às campanhas de vacinação promovidas reiteradamente pelo Governo Federal.

Por outro lado, esse tipo de desinformação é altamente lucrativo na medida em que abre espaço também para a venda das soluções “milagrosas”, como o uso de falsos medicamentos. 

Confira algumas fake news sobre vacinas em circulação nas redes:

  • A vacina contra a Covid-19 vai modificar o DNA dos seres humanos 
  • A vacina contra a Covid-19 tem chip líquido e inteligência artificial para controle populacional 
  • Imunizantes contra Covid-19 estão relacionados à transmissão de HIV 
  • CoronaVac não tem comprovação científica
  • A vacina da dengue altera DNA e provoca câncer
  • A vacina provoca morte súbita
  • A vacina Influenza causa gripe ainda mais forte do que pegar o vírus
  • Dentro da vacina da gripe tem uma vacina contra Covid
  • A vacina da gripe causa aborto em grávidas
  • Criação de uma nova doença associada à vacinação, chamada “Doença CoVax”
  • A Pfizer sabia que sua vacina não era segura nem eficaz
  • O grupo placebo foi eliminado para esconder efeitos adversos. 

* Todas essas mentiras foram devidamente desmentidas pelos órgãos competentes, como Ministério da Saúde e Instituto Butantan.

Pouco a pouco, a verdade vai vencendo o medo

No Dia Nacional da Imunização, celebrado em 9 de junho, o Brasil pode começar a sentir certo alívio em relação à cobertura vacinal, mesmo com todos os problemas ainda em curso. Os dados da vacinação divulgados pelos Painéis de Vacinação do Ministério da Saúde mostram um caminho de recuperação no país desde 2022.

A partir daquele momento, os levantamentos sinalizaram uma tendência de crescimento gradual na cobertura vacinal, graças ao investimento do Ministério da Saúde e às campanhas permanentes de vacinação e também de informação sobre a importância  de se vacinar. Já em 2025, por exemplo, as coberturas das vacinas BCG e contra hepatite B apresentaram percentual de 99%, registrando um índice acima do recomendado.

Outro destaque positivo foi a cobertura da vacina contra o rotavírus, que ficou pouco acima dos 90% – a média que é considerada ideal para esse imunizante.

Mas, infelizmente, a maioria das vacinas ainda não voltou a alcançar os percentuais considerados ideais para garantir proteção coletiva, que são acima de 95%. E essa é a batalha que precisamos vencer, com muita informação correta e esclarecimento à população. 

 

(*) Jornalista, com pós-doutorado em estudos da desinformação pelo Centro de Lógica,  Epistemologia e História da Ciência (CLE) da Unicamp, doutora e mestre em Linguística e Língua Portuguesa. É pesquisadora do Observatório das Eleições. Sua tese de doutorado sobre o Jornal Nacional discute as estratégias de construção da narrativa do telejornal do impeachment de Dilma Rousseff à eleição de Jair Bolsonaro. Organizou e coordenou, com Leonardo Avritzer, o livro “Eleições 2022 e a reconstrução da democracia no Brasil” (Autêntica). Em 2024, com Avritzer e Marisa Von Büllow, organizou o livro “Democracy Under Attack” (Editora Springer).