Por Eliara Santana (*)
Em meio às denúncias e aos alertas sobre a desinformação eleitoral, um experimento da Anistia Internacional expôs um perigo que muitos especialistas já vêm denunciando há bastante tempo: há falhas das plataformas em identificar e barrar anúncios contendo mentiras sobre processos eleitorais e candidatos.
Isso é grave, muito grave e pode ter impactos decisivos na eleição brasileira. No site da Anistia Internacional Brasil, está o alerta: “A Meta pode não estar conseguindo combater de forma eficaz a desinformação eleitoral disseminada por meio de sua plataforma de anúncios do Facebook no período que antecede as eleições presidenciais brasileiras, marcadas para 4 de outubro”.
O experimento da entidade consistiu em enviar ao Facebook anúncios que continham desinformações relacionadas às eleições – e que foram elaborados exclusivamente para fins de teste. No conteúdo dos anúncios havia temas como fraude eleitoral e desinformação para defender a tomada do poder pelos militares.
Segundo a Anistia Internacional, foram enviados 15 anúncios em português, “direcionados exclusivamente à população brasileira em idade de votar, a fim de avaliar como os sistemas de moderação de anúncios da plataforma tratavam conteúdos relacionados às eleições antes do pleito de 4 de outubro de 2026”.
Ainda segundo o levantamento, “os 14 anúncios com desinformação foram concebidos para refletir três estratégias frequentemente utilizadas por políticos e candidatos para apoiar práticas autoritárias: deslegitimação eleitoral, que se vale de conteúdos que buscam minar a confiança nas eleições, nos sistemas de votação ou nos resultados eleitorais; construção do inimigo, que apresenta adversários políticos e tribunais como ameaças à nação ou como atores ilegítimos; e autoritarismo com foco na segurança, que apresenta o uso da força, a intervenção militar ou o governo de um líder autoritário como respostas necessárias à criminalidade ou à desordem política”.
De acordo com a entidade, alguns anúncios foram criados com base em uma única categoria, mas outros incorporaram narrativas de várias categorias, e todos os anúncios, exceto o que era neutro, “violaram a política da Meta sobre informações falsas, especificamente a seção dedicada à interferência em eleições ou censos. O anúncio neutro foi incluído para testar a exigência de verificação de identidade da Meta para todos os conteúdos relacionados às eleições”.
E o resultado desse experimento mostrou a vulnerabilidade ou a negligência da plataforma:
“O experimento constatou que, dos anúncios enviados, oito foram aceitos e sete foram sinalizados para verificação de identidade por parecerem estar relacionados a questões sociais, eleitorais ou políticas, não tendo sido rejeitados especificamente por seu conteúdo de desinformação eleitoral (…). Dos oito anúncios contendo desinformação que foram aceitos para publicação, quatro se concentravam exclusivamente em “deslegitimação eleitoral”; outros dois pertenciam exclusivamente à categoria “autoritarismo com foco na segurança”, incluindo desinformação com apelo a uma intervenção militar ou à não participação nas eleições. Os outros dois combinavam elementos das três categorias”.
O fato é que o tema preocupante da moderação eleitoral é negligenciado pelas plataformas. Em 2023, por exemplo, o bilionário Elon Musk acabou com a moderação eleitoral no X – e foi uma das suas primeiras medidas ao adquirir o antigo Twitter. Segundo ele, à época, a decisão estava condizente com sua intenção de priorizar a “liberdade de expressão absoluta”. Além de demitir a equipe de Integridade Eleitoral, ele reduziu, à metade, os funcionários em nível global responsáveis pelo monitoramento e combate à desinformação eleitoral.
Por tudo isso, o alerta feito pela Anistia Internacional Brasil é essencial, como assegura a diretora executiva, Jurema Werneck:
“A pouco mais de cinco semanas das eleições, a Meta ainda tem tempo de agir com urgência para enfrentar os riscos relacionados aos seus sistemas de moderação de anúncios e impedir que sua plataforma seja usada para disseminar desinformações perigosas. Permitir que esse tipo de conteúdo circule sem controle pode induzir eleitores ao erro, corroer a confiança nos processos eleitorais e comprometer a capacidade das pessoas de exercer livre e efetivamente seu direito de votar”.
De Dona Maria à narrativa de fraude nas urnas
A desinformação eleitoral refere-se a conteúdo falso ou enganoso, produzido e disseminado para influenciar o público e provocar atitudes e comportamentos negativos em relação à condução das eleições e aos seus resultados. Esse tipo de desinformação é impactante e muda a percepção dos eleitores.
Já disse em outros momentos: as campanhas de desinformação nos processos eleitorais alteram a percepção do público em relação à capacidade e à imparcialidade das autoridades eleitorais; promovem desconfiança e confusão em relação aos resultados; levam à manifestação de violência eleitoral, com intimidação a pessoas que atuam nas eleições e o questionamento em relação aos processos. Ou seja, a desinformação eleitoral provoca danos reais e muito graves.
Essas campanhas envolvem, além dos anúncios que circulam livremente pelas plataformas, muitos outros recursos. Desde avatares viralizantes como o da dona Maria – representando uma mulher negra, da periferia, que vocifera contra o presidente Lula – até mentiras sobre fraude nas urnas eletrônicas ditas de várias formas, por vários atores políticos, como fez recentemente o candidato Flávio Bolsonaro.
É um conjunto muito danoso e preocupante, que não é aleatório e não tem controle. Medidas estão sendo implementadas pelo TSE desde 2022, com atualizações relevantes sobre o uso da IA generativa neste ano. No entanto, a escalada de desinformação é gigantesca, envolve uma massa robusta de financiamento e conta com a benevolência das plataformas.
É um cenário desafiador que precisa de um pacto social, político e midiático para um enfrentamento de impacto, que não se restrinja à época de eleições. Pois vivemos o risco real de uma deterioração sem retorno dos processos eleitorais democráticos.
(*) Jornalista, com pós-doutorado em estudos da desinformação pelo Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência (CLE) da Unicamp, doutora e mestre em Linguística e Língua Portuguesa. É pesquisadora do Observatório das Eleições. Sua tese de doutorado sobre o Jornal Nacional discute as estratégias de construção da narrativa do telejornal do impeachment de Dilma Rousseff à eleição de Jair Bolsonaro. Organizou e coordenou, com Leonardo Avritzer, o livro “Eleições 2022 e a reconstrução da democracia no Brasil” (Autêntica). Em 2024, com Avritzer e Marisa Von Büllow, organizou o livro “Democracy Under Attack” (Editora Springer).