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Falsos médicos de IA colocam em risco saúde de idosos

Eliara Santana explica como pessoas 70+ estão expostas a “conselhos” de falsos especialistas criados por inteligência artificial

Por Eliara Santana (*)

Dona Lúcia (nome fictício) tem 79 anos e já há três toma o remédio Pantoprazol para cuidar do estômago, recomendação médica para tratar de uma gastrite grave. Ela divide o apartamento com uma filha e conta com uma auxiliar que fica com ela todos os dias. Dona Lúcia tem um tablet e um celular que são companheiros inseparáveis, onde ela busca informação – adora jornais – e entretenimento – adora novelas. Mas ela também
está exposta a uma praga que toma conta do Brasil e é especialmente danosa para pessoas mais idosas: os vídeos de médicos falsos, avatares produzidos por IA. São vídeos e “especialistas” que abordam todo tipo de doença e mostram curas milagrosas – e os médicos gerados por inteligência artificial não parecem ser falsos. Dona Lúcia, ao encontrar um desses vídeos de médicos fake que circulam em todas as plataformas, ouviu o que ele dizia e decidiu parar de tomar o remédio, pois “não precisava mais” e bastava “tomar muita água” e “comer muita verdura”. A história de dona Lúcia é real, só o nome foi trocado, e o resultado foi que ela passou mal, sentiu dor no estômago e teve crises de vômito quando decidiu, sob inspiração do médico de IA, e sem falar com as filhas, parar de tomar o remédio.

O exemplo pode até parecer banal ou um caso isolado, mas, infelizmente, ele mostra um problema grave dos efeitos da desinformação sobre a população idosa, que cada vez mais usa celular e está conectada o dia inteiro, fincando, portanto, exposta a esses avatares que dão conselhos médicos. A cada ano, cresce o número de pessoas idosas usando o celular, tendo mais acesso à informação e sendo vítimas da desinformação. Segundo a pesquisa TIC Domicílios 2025, 81% dos brasileiros entre 60 e 69 anos têm celular; na faixa de 70 a 79 anos, o índice é de 66%, enquanto que entre os maiores de 80 anos, é de 35%. Estudo desenvolvido pela Universidade Federal de Minas Gerais, que UFMG analisou o uso do celular por pessoas com mais de 60 anos, mostrou que os idosos têm medo de ficar desconectados e que o tempo excessivo no aparelho pode causar insônia e ansiedade. Mas esses não são os únicos transtornos, infelizmente.

IA e terceira idade

Muito conectadas, as pessoas idosas procuram vídeos para receitas, fazer crochê, ver uma aula de ginástica, ver coisas engraçadas etc. etc. E com a IA, muita coisa se amplia, sem dúvida. O mundo da inteligência artificial oferece, sim, recursos positivos relevantes, sobretudo para uma população que fica cada vez mais sozinha ou sob auxílio de terceiros, como é a população idosa. No caso da IA, ela pode, segundo especialistas que se debruçam sobre o assunto, até ajudar no processo de cuidado e até na autonomia do idoso, além disso, ressaltam alguns, ferramentas de IA por voz (como as assistentes virtuais) podem ajudar a gerenciar algumas rotinas e monitorar a segurança, por exemplo. Esses foram alguns dos aspectos foram ressaltados na audiência pública da Comissão de Defesa dos Direitos da Pessoa Idosa, realizada em agosto de 2025, na Câmara dos Deputados, que debateu o tema “IA e pessoas idosas”. Vários especialistas presentes apontaram o fato de que a internet é uma oportunidade para ampliar o cuidado dessa fatia da população, como o acesso à telessaúde. No entanto, apesar dos benefícios, eles também mostraram preocupação em relação aos danos dessa interface. E os riscos, importante salientar, vão muito além dos famosos golpes virtuais ou da dependência de tecnologia.

Foi o que experimentou dona Lúcia, que por orientação do “médico” de IA, deixou de tomar o remédio que protegia o estômago. Uma irmã dela, que mora em outra cidade e com a qual ela fala quase todos os dias, estava com muito medo de fazer uma cirurgia de catarata – recomendada por um médico de verdade – porque viu na internet vídeos de um “médico” de IA que ela segue e que disse que a cirurgia não era necessária e podia até deixá-la cega. E assim como as duas, centenas e centenas de idosos estão sendo
enganados pela indústria dos falsos médicos gerados por uma indústria da desinformação que usa a inteligência artificial para produzir esses avatares convincentes. Vídeos e mais vídeos que circulam livremente pelas plataformas prometem milagres usando avatares de Inteligência Artificial – claro, as plataformas colocam um discreto alerta dizendo que o conteúdo é de IA. Mas isso é efetivo como alerta? Não, porque as pessoas, cada vez
mais, sabem distinguir menos o que é ou não conteúdo de IA, o que é ou não falso ou verdadeiro. E entre a população idosa, esse cenário é ainda mais alarmante.

Não é exagero dizer que há uma indústria da desinformação usando “médicos de IA” para enganar o público idoso, como mostrou uma reportagem da BBC NewsBrasil de 1o de julho deste ano. De acordo com a matéria, essa indústria mantém todo o rigor na produção de desinformação, como já conhecemos pelo funcionamento do ecossistema de desinformação: há método na produção de conteúdo, na elaboração dos temas de mais
forte apelo e tutores que “ensinam a criar títulos e roteiros que despertem medo e sensação de urgência, levando o espectador a acreditar que corre um risco imediato à saúde e incentivando-o a assistir ao vídeo até o fim”. Foi exatamente assim com dona Lúcia e sua irmã.

Ainda segundo a reportagem, para esses criadores de conteúdo desinformativo “os idosos são um público ideal porque passam horas assistindo a vídeos longos, podem ter renda disponível para gastar e tendem a confiar em quem promete ajudá-los”. E o lucro dessa indústria – sim, é um negócio lucrativo –, como informou a matéria, pode vir tanto das visualizações na plataforma quanto da venda de e-books e produtos anunciados nos canais.

A reportagem da BBC NewsBrasil foi feita a partir de uma pesquisa da organização sem fins lucrativos CTRL+Z, que mapeou 29 canais em português dedicados a esse tipo de conteúdo. A ONG, que é brasileira, informa em sua página que “enfrenta o modelo de operação das big techs. Nossas estratégias incluem investigar e expor abusos, mover ações judiciais estratégicas e mobilizar pessoas – transformando indignação em ação
organizada e efetiva pela responsabilização das gigantes de tecnologia e pela transformação do setor de tecnologia, visando ao bem-estar coletivo”.

Segundo a reportagem, a partir dos dados levantados pela CTRL+Z, os produtores desse tipo de conteúdo já somam, juntos, cerca de 70 milhões de visualizações. E a produção, informa a ONG, é feita em “escala industrial”: cerca de 10 vídeos por dia e aproximadamente 267 mil visualizações diárias. Uma indústria poderosíssima que lucra com a dúvida, a angústia e a crença dos idosos. Ao final do artigo, deixo os links para quem quiser se aprofundar no tema.

O que é real?

Os avatares e produções da IA criam muitas dúvidas e fogem às receitas básicas de “fato ou fake?”. Ninguém sabe mais distinguir um médico real ou meninas fofinhas com bichinhos lindinhos de avatares para atrair a atenção, bem como acidentes de avião (reais) de simulações. É o caso de José Vicente, de 91 anos. Muito ativo, não toma remédios e anda muito bem sem qualquer apoio. Apesar de escutar pouco, gosta de se informar “pelo celular”, como ele resume. Numa visita à casa do tio, a sobrinha, que mora em outra cidade, ouviu dele: “Você vai voltar de avião? Que perigo! Estão acontecendo muitos acidentes ultimamente”. Ela ficou intrigada e foi averiguar essa tal “quantidade de acidentes”. E descobriu. O tio recebia vídeos e mais vídeos de IA simulando grandes acidentes. Mesmo com os avisos sutis das plataformas – que são muito discretos mesmo, quase imperceptíveis –, José Vicente disse que nunca mais iria viajar de avião por causa dos “acidentes no Brasil”.

Quanto aos perfis dos médicos de IA, eles são muito convincentes. Citam títulos, universidades de referência para sua formação, anos e anos de experiência, usam jalecos e dão “exemplos” de pessoas – geralmente idosos, mas não apenas – que se curaram com as receitas milagrosas oferecidas.

Observem essa montagem de perfis de médicos de IA feita pela CTRL+Z:

Os “médicos” são especialistas em várias áreas, quase todas muito sensíveis à maioria da população: controle do diabetes, pressão alta, doenças reumáticas, doenças do coração, câncer… e quase todos vendem soluções rápidas e milagrosas. A ONG deu o exemplo da Dra. Sofia Torres, que vende um guia online sobre glicose controlada por R$ 47. Segundo o levantamento, na descrição do canal da “médica”: “a Dra. Sofia Torres compartilha atendimentos, situações reais e aprendizados do consultório, sempre com empatia, clareza e respeito por quem está do outro lado”. Esse canal foi criado em janeiro deste ano e já tem mais de 2 milhões de visualizações. E o comentário em um dos vídeos no canal, destacado pelo levantamento do CRTL+Z, mostra o tamanho e a tristeza desse problema entre nós: “Este vídeo me trouxe um alívio profundo e esperança. Saber que
posso combater o diabetes com atitudes simples, como mudar a ordem de comer o frango ou mariná-lo no limão, é libertador. Finalmente sinto que tenho o controle real da minha saúde”.

Segundo a ONG, “os padrões de datas e descrições sugerem que os canais são criados em rede. Dos 29 canais analisados, 18 foram criados em 2026. Alguns tiveram ascensão meteórica e tiveram crescimento de mais de 400% em junho. A produção dos vídeos sintéticos também é feita em escala industrial. É um vídeo a cada dois dias, em média, em cada canal”.

Ainda de acordo com o levantamento, os canais de “médicos” criados em 2026 demoraram poucos meses para baterem recorde de visualizações, ou seja, são turbinados pelos algoritmos nas plataformas. Vejam o gráfico abaixo:

 

Ou seja, as pessoas, com a IA, não sabem mais distinguir o real do falso, o que ocorreu de fato ou se aquilo foi fruto de invenção. É difícil e angustiante ao mesmo tempo. E para um público já vulnerável, tocando em um tema sensível como a saúde, isso pode ser arrasador.

Links:

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https://www.bbc.com/portuguese/articles/cz0j8lp5xmvo

 

 

(*) Jornalista, com pós-doutorado em estudos da desinformação pelo Centro de Lógica,  Epistemologia e História da Ciência (CLE) da Unicamp, doutora e mestre em Linguística e Língua Portuguesa. É pesquisadora do Observatório das Eleições. Sua tese de doutorado sobre o Jornal Nacional discute as estratégias de construção da narrativa do telejornal do impeachment de Dilma Rousseff à eleição de Jair Bolsonaro. Organizou e coordenou, com Leonardo Avritzer, o livro “Eleições 2022 e a reconstrução da democracia no Brasil” (Autêntica). Em 2024, com Avritzer e Marisa Von Büllow, organizou o livro “Democracy Under Attack” (Editora Springer).