‘Feminicídio no campo: o silêncio estatístico da violência’

Enquanto as cidades ampliam redes de proteção, mulheres das ruralidades enfrentam barreiras territoriais para acessar políticas públicas, aponta secretária do PT neste artigo

Acervo MST

Para mulheres que vivem em áreas rurais, comunidades ribeirinhas ou territórios isolados, a proteção garantida em lei frequentemente esbarra em fronteiras físicas e simbólicas

Por Rose Rodrigues*

“Chegamos à metade de março, mês em que o debate público costuma se voltar, por força do calendário, para os direitos das mulheres. Em 2026, no entanto, o clima é menos de homenagem e mais de cobrança. As grandes mobilizações contra o feminicídio que marcaram 2025 elevaram o tom das exigências por proteção e responsabilização do Estado. Ainda assim, quando olhamos para além das capitais, o que aparece é um vazio inquietante: enquanto as cidades ampliam redes de monitoramento e canais digitais de denúncia, o campo brasileiro permanece mergulhado em um silêncio estatístico que mascara uma realidade brutal.

Se os índices de violência urbana já são alarmantes, o que dizer das regiões onde o Estado mal chega para registrar o crime? Para mulheres que vivem em áreas rurais, comunidades ribeirinhas ou territórios isolados, a proteção garantida em lei frequentemente esbarra em fronteiras físicas e simbólicas que o discurso institucional ainda insiste em ignorar.

Essa invisibilidade é, antes de tudo, uma construção estatística. Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, divulgados no Anuário Brasileiro de Segurança Pública, indicam que apenas uma pequena fração dos feminicídios registrados no país ocorre oficialmente em áreas rurais. Esse número, no entanto, não significa que o campo seja um espaço mais seguro para as mulheres. Pelo contrário, revela um território marcado pela subnotificação, pela ausência de serviços públicos e pela dificuldade de acesso aos mecanismos formais de denúncia.

Onde não há delegacias especializadas, transporte regular ou sequer sinal de comunicação, o crime muitas vezes não chega às planilhas oficiais. Soma-se a isso uma violência simbólica profundamente enraizada em estruturas patriarcais históricas, que naturalizam a agressão e reforçam o silêncio. A subordinação das mulheres rurais não é um fenômeno casual. Ela está vinculada a um modelo histórico de organização da propriedade da terra e de concentração de poder nas mãos masculinas.

Nesse contexto, a geografia se torna uma aliada estratégica do agressor. No interior do país, especialmente em regiões amazônicas ou ribeirinhas, a logística cotidiana pode se transformar em ferramenta de controle doméstico. Para uma mulher que vive às margens de um rio, por exemplo, acessar a justiça pode depender do transporte fluvial. Muitas vezes o agressor é justamente o dono do motor do barco, o único meio de sair da comunidade.

Esse cenário configura o que a literatura geográfica descreve como “vulnerabilidade de lugar”, conceito desenvolvido pela geógrafa Susan L. Cutter para explicar como determinadas características territoriais ampliam a exposição de populações a riscos e reduzem sua capacidade de reação. No caso
das mulheres que vivem em regiões isoladas, o isolamento geográfico aprofunda a dependência e amplia o poder do agressor sobre a vítima. Não se trata apenas de distância, mas de um verdadeiro confinamento territorial que a legislação pensada para contextos urbanos raramente considerou.

A violência contra mulheres no Brasil também tem geografia, e ignorar o território é parte
do problema.

Há ainda um dilema material que antecede qualquer decisão de denunciar. Para muitas agricultoras familiares e trabalhadoras rurais, registrar a violência significa enfrentar imediatamente uma pergunta de sobrevivência: para onde ir depois da denúncia? Caso rompa a relação, terá direito à terra que cultiva ou perderá o sustento de seus filhos?

Essa insegurança patrimonial alimenta o que pesquisadores chamam de ‘cultura do susto’. Em muitos casos, a mulher procura a polícia não para romper definitivamente o vínculo, mas na esperança de que a intervenção estatal interrompa apenas a agressão daquele momento. É fundamental reconhecer que o Brasil avançou na garantia da titularidade da terra para as mulheres, um passo histórico para a autonomia feminina no campo; no entanto, o título de propriedade, isoladamente, mostra-se insuficiente diante da ausência de um ecossistema de proteção. Sem que essa titularidade venha acompanhada de ampliação real da autonomia econômica ( por meio de crédito desburocratizado, assistência técnica contínua e políticas públicas estruturantes que garantam a permanência segura na terra), a Lei Maria da Penha corre o risco de permanecer como um direito sem território para ser efetivamente exercido

Embora o governo federal tenha lançado o Pacto Nacional de Prevenção aos Feminicídios, uma iniciativa que articula diferentes órgãos do Estado, inclusive o Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, ainda são escassas as ações estruturadas voltadas especificamente às mulheres que vivem nas ruralidades brasileiras. O pacto reconhece grupos em situação de maior vulnerabilidade, como mulheres negras, indígenas, idosas e mulheres com deficiência, mas não aborda de forma explícita as barreiras territoriais que marcam a vida no campo.

Essa lacuna chama atenção especialmente porque o país já construiu, em outros momentos, políticas voltadas a esse público. As chamadas Diretrizes para Mulheres do Campo, da Floresta e das Águas foram formuladas a partir da mobilização de movimentos sociais e fortemente impulsionadas pela Marcha das Margaridas. Elas buscaram justamente reconhecer as especificidades das mulheres que vivem e trabalham em territórios rurais. Hoje, no entanto, esse acúmulo político aparece cada vez menos no centro do debate público sobre violência de gênero.

O desafio colocado para o Brasil em 2026 é garantir que o debate sobre a vida das mulheres não seja interrompido onde termina o asfalto. A proteção conquistada nas ruas e nas mobilizações feministas só será plena quando o Estado for capaz de levar seus instrumentos de justiça para além das capitais. Em um país de dimensões continentais, enfrentar o feminicídio exige reconhecer que a violência também tem geografia e que combater essa desigualdade territorial é condição para que nenhuma mulher esteja fora do alcance da proteção do Estado.”

*Rose Rodrigues é secretária Agrária Nacional do Partido dos Trabalhadores

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