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Intimidade e cobranças milionárias: as 96 mensagens entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro

Reportagem da piauí revela encontros reservados, pedidos financeiros e promessa de lealdade ao ex-banqueiro nos 90 dias que antecederam sua prisão: 'Estarei contigo sempre', prometeu Flávio

Material divulgado pela revista piauí reúne 96 mensagens e 14 ligações, oito delas atendidasFoto: Reprodução/piauí

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato da extrema direita à Presidência da República, cobrou repasses milionários, combinou encontros reservados e prometeu permanecer ao lado de Daniel Vorcaro até a véspera da primeira prisão do banqueiro. É o que revela reportagem da revista piauí, publicada nesta quinta-feira, 1º, com base em conversas extraídas pela Polícia Federal do celular do dono do Banco Master. O material reúne 96 mensagens e 14 ligações, oito delas atendidas, e expõe a proximidade que o senador tentou negar publicamente.

As tratativas envolviam o financiamento de Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro para o qual Vorcaro havia prometido US$ 24 milhões. Flávio é investigado por suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas relacionadas aos recursos destinados à produção. Segundo a piauí, os investigadores também apuram se parte do dinheiro enviado aos Estados Unidos teve outras finalidades.

Uma das mensagens mais reveladoras foi enviada em 16 de novembro de 2025, um dia antes de Vorcaro ser preso pela PF. Enquanto tentava obter uma posição sobre os pagamentos, Flávio escreveu: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz!”.

Cobranças continuaram em meio à crise do Master

O conteúdo recuperado mostra que Flávio acompanhava diretamente a liberação do dinheiro e pressionava o banqueiro quando as parcelas atrasavam. Das 96 mensagens, 50 foram enviadas pelo senador e 46 por Vorcaro. Expressões como “irmão”, “irmãozão” e “mermão” aparecem 16 vezes, segundo o levantamento da revista.

Em 8 de setembro de 2025, poucos dias depois de o Banco Central vetar a compra do Master pelo BRB, Flávio enviou um áudio cobrando os pagamentos. Reconheceu as dificuldades enfrentadas pelo banqueiro, mas insistiu na necessidade dos recursos para evitar a interrupção da produção e o descumprimento de compromissos com o ator Jim Caviezel e o diretor Cyrus Nowrasteh.

“Todo efeito positivo que a gente tem certeza que vai vir com esse filme pode ter o efeito elevado a menos um aí, cara”, afirmou o senador, preocupado com as consequências de um eventual fracasso do projeto.

Segundo a piauí, em 16 de setembro, após uma ligação de 42 segundos entre os dois, a empresa Entre Investimentos realizou a sétima e última remessa conhecida ao fundo americano Havengate: US$ 1,67 milhão. O total transferido chegou a US$ 12,3 milhões, valor que, de acordo com a revista, foi confirmado pelo responsável pela empresa, Antonio Carlos Freixo Júnior, em delação homologada no Supremo Tribunal Federal.

O pagamento em setembro contradiz a versão apresentada por Flávio de que o último repasse havia ocorrido em maio daquele ano.

As cobranças prosseguiram. Em 22 de outubro, o senador escreveu: “Já estamos no terceiro dia de gravação. Estamos no limite”. Na sequência, acrescentou: “Mais uma vez, com toda a liberdade que temos, se não der me fala que procuro urgente outro caminho”.

Vorcaro respondeu que verificaria a situação e, em conversa com o intermediário Thiago Miranda, classificou o financiamento como prioridade. Apesar das promessas, novas mensagens registraram que o dinheiro esperado não havia chegado.

Dinheiro passou por fundo ligado ao irmão

A investigação também busca esclarecer por que os recursos seguiram um caminho diferente do previsto inicialmente. Segundo os documentos descritos pela piauí, a proposta original determinava que os US$ 24 milhões fossem depositados diretamente na conta da Go Up Entertainment, produtora do filme nos Estados Unidos.

O destino foi alterado para o Havengate, fundo imobiliário registrado no Texas e administrado pelo advogado Paulo Calixto, amigo de Eduardo Bolsonaro e responsável por seu processo de imigração. As remessas eram feitas pela Entre Investimentos, empresa investigada por suspeita de lavar dinheiro do PCC, de acordo com a reportagem.

Na documentação posterior, Vorcaro passou a figurar como investidor do fundo. Para os investigadores ouvidos pela revista, a operação pode ter simulado um investimento para permitir a retirada de dinheiro nos Estados Unidos com outros objetivos. Essa hipótese permanece sob apuração.

A PF investiga, inclusive, se parte dos valores custeou a permanência de Eduardo Bolsonaro no país. As conversas recuperadas não esclarecem o destino final de todo o dinheiro nem o que Vorcaro esperava receber em troca do financiamento.

Há outra diferença ainda sem explicação apresentada pelos envolvidos: segundo a piauí, a defesa da Go Up informou que a produtora recebeu US$ 13,39 milhões do Havengate, quantia superior aos US$ 12,3 milhões enviados pela Entre Investimentos.

Encontros reservados e perguntas sem resposta

Além das cobranças, as mensagens registram articulações para reuniões e encontros sociais. A revista identificou agendamentos em pelo menos seis ocasiões, incluindo um jantar com integrantes da produção do filme na casa do banqueiro.

Em outubro de 2025, Flávio propôs reunir Vorcaro, Caviezel e Nowrasteh em um jantar “totalmente reservado”. O banqueiro ofereceu sua residência em São Paulo, e o senador concordou: “Pode ser na sua casa, sim! Acho até melhor!”

A preocupação com a divulgação do projeto também aparece em agosto, quando Flávio encaminhou um vídeo da equipe de produção visitando locações e pontos turísticos de São Paulo. A orientação ao banqueiro foi expressa: “Não postar nem encaminhar”.

O histórico disponível tem lacunas. Segundo a piauí, Flávio ativou o recurso que apagava automaticamente as mensagens após 90 dias, o que impediu a recuperação das conversas diretas de boa parte do período entre dezembro de 2024 e agosto de 2025. A revista reconstituiu trechos dessa relação a partir dos diálogos de Vorcaro com intermediários.

Procurado pela publicação, Flávio não respondeu às perguntas sobre a mudança no destino dos depósitos, os encontros com o banqueiro e o eventual uso de recursos do Havengate em atividades de sua pré-campanha.

As defesas de Vorcaro, Eduardo Bolsonaro, Mario Frias, Thiago Miranda e Paulo Calixto também preferiram não se manifestar à piauí. Freixo Júnior alegou confidencialidade da delação. A produtora não esclareceu a alteração da conta que receberia os recursos.