“Nenhuma mulher deveria morrer por dizer que não quer mais. Nenhuma mulher deveria morrer por querer seguir sua vida sozinha, se libertar da violência, viver outras experiências, encontrar outros parceiros, ter outro trabalho.” A primeira-dama Janja Lula da Silva, coordenadora nacional do Pacto Brasil contra o Feminicídio, foi uma das convidadas para falar na audiência pública na Assembleia Legislativa do Paraná, realizada na terça-feira, 18. O objetivo era expor um balanço do pacto.
A audiência foi proposta pelas deputadas petistas Ana Júlia e Luciana Rafagnin. O encontro reuniu autoridades dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, representantes do governo federal e estadual, especialistas e movimentos sociais para avaliar os avanços e os desafios no enfrentamento à violência contra as mulheres.
A primeira-dama, que é do Paraná, destacou histórias de mulheres paraenses mortas e afirmou que seus nomes não podem ser esquecidos. Lembrar essas mulheres e o horror que aconteceu com elas, disse Janja, significa também reafirmar a responsabilidade do Estado em impedir que novas mortes aconteçam.
“Que elas nunca sejam esquecidas, para que possamos honrá-las, para que nós que lutamos contra a violência contra a mulher possamos honrar a vida que essas mulheres tiveram e que foram barbaramente interrompidas”, afirmou Janja, que é do Paraná.
A coordenadora nacional do Pacto reforçou que grande parte dos feminicídios é praticada por homens que mantinham ou haviam mantido relações com as vítimas. “É preciso agir antes, é preciso proteger antes, é preciso chegar antes que seja tarde demais”, afirmou Janja, defendendo que a prevenção seja uma responsabilidade compartilhada por todo o Estado.
União e articulação nacional para deter mortes
Além de Janja e das deputadas proponentes, participaram da mesa a ministra das Mulheres, Márcia Lopes; o ministro da Secretaria de Relações Institucionais, José Guimarães, o secretário nacional de Segurança Pública, Chico Lucas; as deputadas federais Gleisi Hoffmann e Carol Dartora; o desembargador Luiz Osório Panza, representando o Tribunal de Justiça do Paraná e a secretária de Estado do Paraná da Mulher, Igualdade Racial e Pessoa Idosa, Mariana Neris.
A realização da audiência ocorre em um momento em que o país começa a identificar resultados da articulação nacional contra a violência de gênero, mas também enfrenta o desafio de impedir que o feminicídio continue fazendo vítimas.
Dados mais recentes do Ministério da Justiça e Segurança Pública e do Ministério das Mulheres apontam que o Brasil registrou 741 feminicídios no primeiro semestre de 2026, 2,5% menos que os 760 registrados no mesmo período de 2025. O mesmo levantamento, porém, mostra que o Paraná esteve entre os estados que registraram aumento no período.
Sem lado ideológico
A primeira-dama destacou ainda a importância da união dos três Poderes estabelecida pelo Pacto Nacional e defendeu que a experiência seja reproduzida no Paraná. “A defesa da vida das mulheres não tem lado ideológico. Não pode depender de uma única instituição. Executivo, Legislativo e Judiciário precisam trabalhar juntos com metas, integração, orçamento e responsabilidades compartilhadas. Isso aconteceu em nível nacional e precisa ser repetido em todos os estados, aqui no Paraná principalmente”, afirmou Janja.

Outro ponto abordado por Janja foi a proteção de meninas e adolescentes diante dos riscos presentes no ambiente digital. Ela chamou atenção para a necessidade de acompanhar os espaços frequentados por adolescentes na internet e citou plataformas como o Discord, reforçando que a prevenção da violência precisa começar também nesse ambiente.
Márcia Lopes: “O objetivo é zerar o feminicídio”
A ministra das Mulheres, Márcia Lopes, destacou que a realização da audiência dentro da Assembleia Legislativa representa a abertura de um dos Poderes para a construção de uma política conjunta. “O evento na Assembleia Legislativa do Paraná abre a casa de um dos poderes, o Legislativo, para que outros poderes se somem, como Executivo, o sistema de Justiça, além de entidades e movimentos sociais”, afirmou.
Segundo a ministra, o encontro permite que o Paraná analise sua própria realidade e construa um plano de trabalho. Ela ressaltou que o Pacto Nacional contra o Feminicídio busca integrar as diferentes instituições para fortalecer a rede de atendimento, responsabilizar agressores e promover uma mudança cultural.
“O Pacto Nacional contra o feminicídio, liderado pelo presidente Lula, chamando o sistema de Justiça, o ministro Fachin, chamando o presidente da Câmara e do Senado, tem o objetivo de fortalecer a rede de atendimento, responsabilização dos agressores e a mudança de cultura”, disse Márcia.
A ministra também foi enfática ao apontar o objetivo final da política nacional: “O objetivo também é zerar o feminicídio e entender que nenhuma mulher pode conviver com qualquer tipo de violência”.

Ela destacou ainda o fortalecimento do Ligue 180, a modernização tecnológica do serviço e a criação de mecanismos de monitoramento. “Atingimos 1 milhão de atendimentos neste canal, melhoramos tecnologia, criamos painel de dados e agora começa um curso de especialização em letramento em gênero para as atendentes”, afirmou.
Márcia também defendeu transparência na produção dos dados. “Isso significa que não queremos esconder nenhum dado”, disse. Entre os avanços citados estão ainda operações que resultaram na prisão de agressores, a adoção de protocolo com perspectiva de gênero para julgamentos e a ampliação das Casas da Mulher Brasileira, incluindo a previsão de uma unidade em Foz do Iguaçu.
Gleisi diz que pauta entrou para a centralidade política
As deputadas federais Gleisi Hoffmann e Carol Dartora falaram da importância de pensar ações conjuntas e no legislativo. Gleisi enfatizou a centralidade que a agenda do enfrentamento à violência contra as mulheres tem no governo do presidente Lula.
“É importante destacar que esta pauta entrou para a centralidade política do governo. Temos que reconhecer o papel da Janja por ter sido incansável nesta luta, falando com o presidente sobre isso e o presidente foi corajoso e assumiu. É uma figura pública e é um homem. Isso na boca de um homem tem muito peso.”
Já a deputada federal Carol Dartora acrescentou ao debate a dimensão racial do feminicídio. Segundo ela, 65% dos casos de feminicídio atingem mulheres negras, o que exige que as políticas de prevenção também enfrentem o racismo institucional. A deputada chamou atenção para as situações em que mulheres negras procuram os serviços públicos e encontram instituições sem preparo adequado para reconhecer as especificidades do racismo e da violência de gênero, o que pode resultar em revitimização.
Presente na Assembleia, a Secretária das Mulheres do PT Paraná, Marilda Ribeiro, destacou também a importância do Governo Lula ter enfrentado a pauta da violência contra a mulher. “O Governo do Presidente Lula deu um passo muito importante ao lançar o Pacto Nacional e envolver os poderes da República. E sabemos o quanto a participação política das mulheres, nos diversos espaços, é essencial para que o enfrentamento às violências seja compromisso de toda a sociedade e do poder público,”disse.
A audiência terminou com um desafio que atravessou as diferentes falas: transformar a união entre os Poderes em uma política permanente de Estado. O Pacto Brasil contra o Feminicídio já estabeleceu uma estrutura nacional de articulação.
Agora, a tarefa colocada ao Paraná e todos os estados é construir sua própria estratégia integrada, capaz de prevenir a violência, proteger as mulheres e agir antes que a ameaça se transforme em mais uma morte.