O presidente Luiz Inácio Lula da Silva celebrou, nesta segunda-feira, 17, a descoberta de petróleo em águas ultraprofundas do Amapá como resultado da retomada dos investimentos da Petrobras e da decisão de recolocar a estatal no centro do desenvolvimento brasileiro. Durante visita ao navio-sonda NS-42, na Margem Equatorial, Lula comparou a importância do achado à descoberta do pré-sal, anunciada em 2007.
Com uma amostra de óleo nas mãos, o presidente afirmou que a riqueza encontrada pode financiar a industrialização do país, gerar empregos, ampliar a produção de conhecimento e garantir recursos para políticas públicas.
“Isso aqui pode chamar ‘passaporte para o futuro deste país’. E, quando eu falo passaporte para o futuro, não estou negando a minha luta para que um dia a gente não precise utilizar combustível fóssil”, declarou.
Lula visitou o navio-sonda acompanhado da primeira-dama Janja Lula da Silva, da presidente da Petrobras, Magda Chambriard, do ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, e do governador do Amapá, Clécio Luís, entre outras autoridades.
A Petrobras identificou a presença de hidrocarbonetos durante a perfuração do poço Morpho, no bloco FZA-M-59. O poço está a aproximadamente 175 quilômetros da costa do Amapá e a quase 500 quilômetros da foz do Rio Amazonas, em uma lâmina d’água de 2.886 metros.
A presidente da estatal confirmou que há petróleo, mas explicou que ainda não é possível dimensionar o volume da descoberta. A perfuração prossegue para avaliar a qualidade, a extensão e a viabilidade econômica da área. Não há produção comercial nessa fase.
Segurança ambiental
Lula assegurou que a pesquisa continuará acompanhada de medidas rigorosas de proteção ambiental. O presidente ressaltou que o poço fica distante da costa e da foz do Rio Amazonas e explicou o funcionamento do BOP, equipamento de segurança instalado na cabeça do poço, no fundo do mar.
O equipamento é capaz de isolar o poço diante de uma alteração de pressão ou de um incidente, evitando a perda de controle da operação e um eventual vazamento de petróleo.
“Qualquer incidente que houver, essa máquina chamada BOP fecha o poço imediatamente. O Brasil está preparado para fazer muito mais e para fazer coisas que o mundo inteiro tem que aprender”, afirmou.
A licença ambiental para a perfuração foi concedida após quase cinco anos de análise. A Petrobras cumpriu as exigências estabelecidas pelo Ibama e realizou uma avaliação pré-operacional em campo, durante a qual foram testados o plano de resposta a emergências, a mobilização de equipes e o atendimento à fauna.
A operação dispõe ainda de Centros de Atendimento à Fauna em Oiapoque e Belém, além de equipamentos, embarcações e profissionais preparados para atuar em uma eventual emergência. A empresa informou que a perfuração vem sendo conduzida com segurança e respeito ao meio ambiente e às pessoas.
“Não digam que a gente não vai cuidar do meio ambiente. Nós vamos continuar cuidando”, reforçou Lula.
O presidente lembrou que 87% do território do Amapá é protegido e que cerca de 90% de sua floresta permanece preservada.
Lula rejeitou a ideia de que pesquisar petróleo signifique abandonar a transição energética. O presidente afirmou que o Brasil continuará investindo em biocombustíveis, energias renováveis e tecnologias de baixa emissão, ao mesmo tempo que utiliza suas reservas para financiar o desenvolvimento nacional.
“Não estou negando a minha luta para que um dia a gente não precise utilizar combustível fóssil. O Brasil vai continuar sendo o país da inovação nos biocombustíveis e vai continuar muito grande na questão do combustível renovável”, disse.
Pesquisa é investimento, não custo
Lula destacou que a descoberta só foi possível porque o Governo do Brasil voltou a tratar pesquisa, tecnologia e prospecção como investimentos estratégicos. Para ele, uma empresa de petróleo que deixa de procurar novas reservas compromete o próprio futuro e a segurança energética do país.
“Não é possível imaginar que uma empresa de petróleo consiga sobreviver se ela não pesquisar. E pesquisar significa fazer investimento, um investimento que você não tem certeza se vai dar resultado”, afirmou.
Em outra declaração durante a visita, Lula reforçou que setores interessados na privatização da estatal tentam apresentar o dinheiro destinado à pesquisa como despesa.
“Se a Petrobras não tivesse pesquisado, se não tivesse investido muito dinheiro aqui, isso não teria acontecido. Alguns dos que querem vender a Petrobras acham que isso é custo. Para nós, é investimento. Quando pesquisa e não encontra, valeu a pena porque pesquisou. Quando encontra, valeu duas vezes a pena”, destacou.
O presidente disse ter sentido a mesma emoção de 2007, quando os então dirigentes da Petrobras José Sergio Gabrielli e Guilherme Estrella comunicaram a descoberta do pré-sal. O resultado no Amapá, segundo ele, representa outra demonstração da capacidade científica e tecnológica construída pelos trabalhadores da estatal.
“Isso se chama Brasil, isso se chama Petrobras, isso se chama conhecimento científico e tecnológico. Isso significa competência”, resumiu.
A Petrobras detém 100% de participação no bloco FZA-M-59, adquirido em 2013. A busca por novas reservas é necessária para preservar a autossuficiência brasileira diante do declínio natural dos campos atualmente em produção e atender à demanda nacional durante a transição energética.
Petrobras é do Brasil
O presidente relacionou a pesquisa no Amapá à estratégia mais ampla de reconstrução da Petrobras e retomada da indústria nacional. Lula lembrou que governos anteriores venderam a BR Distribuidora, a Liquigás e refinarias, além de paralisar fábricas de fertilizantes em um país fortemente dependente de importações.
“Eu gostaria de saber o que o povo brasileiro ganhou com a privatização da BR, com a refinaria da Bahia e com a refinaria do Amazonas. Em vez de ser um bom gestor e fazer funcionar o que não funciona, o sujeito tenta resolver vendendo”, criticou.
Lula afirmou que o poder de compra do Estado e de empresas públicas deve ser usado para gerar empregos, renda, tecnologia e capacidade produtiva dentro do Brasil. Como exemplo, citou a retomada da construção naval, setor que voltou a receber encomendas da Petrobras e da Transpetro.
“O Estado tem que aproveitar o poder de compra dele para incentivar a produção nacional. Pode ser mais barato importar, mas nós precisamos gerar emprego aqui dentro, salário aqui dentro, desenvolvimento aqui dentro e conhecimento científico e tecnológico aqui dentro”, disse.
Lula recordou que a indústria naval brasileira saiu de menos de 6 mil trabalhadores no início de seu primeiro governo para 82 mil em 2014. Após o desmonte promovido nos anos seguintes, o setor voltou a se aproximar desse patamar com a retomada das encomendas nacionais.
O presidente também defendeu investimentos na indústria de defesa, em refinarias e na produção de fertilizantes. Segundo ele, o objetivo é reduzir a dependência externa e impedir que o país continue exportando recursos naturais sem agregar valor, produzir equipamentos ou dominar as tecnologias necessárias.
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