A política é uma causa. E quem luta por uma causa não envelhece. Além de enfatizar seu bem-estar físico, aos 80 anos, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou, nesta quarta-feira, 5, que vive “um momento especial da vida”, está bem na política, feliz, e sente orgulho por ter “conseguido incluir o pobre no orçamento” ao retornar, em 2023, para um terceiro mandato presidencial. Porém, sonha ainda em implementar muitas coisas, como um plano de segurança pública que garanta a paz nos territórios.
“Então me sinto feliz. Falta muita coisa para fazer. Agora tenho que apresentar um programa para o próximo mandato; estou definindo quatro ou cinco coisas muito importantes”, afirmou, em entrevista conjunta ao canal Meteoro Brasil e ao podcast Os Três Elementos.
Sobre sua motivação para entrar na vida pública, Lula disse que quando uma pessoa entra na política apenas para disputar a eleição, “não tem compromisso com nada”. Esse, declarou, não é o seu caso.
“Mas eu não estou na política para disputar uma eleição. A eleição é apenas o resultado de um objetivo que eu tracei na minha vida. Eu acreditei que era possível mudar a história do sindicato, e nós mudamos. Eu acreditei que era possível criar um partido quando ninguém acreditava, e nós criamos um partido político. Então, a política para mim é uma causa. E eu posso te dizer hoje: eu vivo hoje, aos 80 anos de idade, o meu melhor momento na passagem pelo planeta Terra. Vivo um momento muito especial na minha vida. Sou um cara que tem uma mulher que amo muito e a gente se cuida muito. Eu estou bem na política.”
Lula listou avanços significativos do Brasil em diversas áreas, com políticas públicas que promoveram a inclusão social e econômica da população mais vulnerável. “Quando voltei em 2023, tinham 33 milhões de pessoas passando fome; acabamos [com a fome] em 2 anos e meio. E eu tenho orgulho porque nós conseguimos — e é o modelo para o mundo — incluir o pobre no orçamento do país com múltiplas políticas. Não é só o Bolsa Família; é aumento real do salário mínimo, isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5.000, Gás do Povo, Luz para Todos… Tudo isso significa aumento indireto de renda para o povo”, definiu o presidente.
“Fim da violência nas periferias”
O presidente abordou o tema da segurança pública e reiterou que aguarda a votação, no Congresso Nacional, da PEC da Segurança Pública, a proposta de emenda constitucional que reformula e deixa claro os papeis das forças de segurança na União, estados e municípios.
“Estou esperando que o Congresso Nacional aprove a PEC da Segurança Pública para que a gente possa apresentar ao Brasil um programa chamado SUS da Segurança — um sistema único de segurança pública – para que a gente possa interferir na violência na periferia, não apenas para combater, mas para recuperar o território para que a sociedade possa viver dignamente”, afirmou o presidente.
Numa referência às milícias e facções criminosas, Lula disse que os bandidos não podem tomar conta de bairros, ruas, interferir no cotidiano da vida das pessoas, “na mulher que vai comprar o gás ou na pessoa que recebe a família”.
O presidente enfatizou que o combate ao crime precisa ser feito nos territórios e também “no andar de cima, onde os chefes mandam”. “Os engravatados, que moram em apartamento de cobertura, em mansões, onde nem sempre a polícia vai. Para vencer o crime, precisamos vencer esses de cima, porque são eles que irrigam a droga e o dinheiro ilícito junto ao pessoal mais pobre”, defendeu.
Os mais necessitados em primeiro lugar
Lula falou sobre os desafios de governar e ressaltou que governos anteriores nunca pensaram em fazer um governo para todos.
“Por que nós começamos dizendo “vamos governar para todo mundo, mas começando primeiro pelos mais necessitados”? Eu dizia: se você quiser aprender a governar, tem que olhar o comportamento de uma mãe. Uma mãe pode ter 10 filhos. Se os 10 estão na mesa para comer, todo mundo vai ter um bife; se for ovo, todo mundo vai ter um ovo. Mas se tiver um doentinho, mais fragilizado, é aquele que a mãe vai pegar no colo e dar comidinha na boca, porque ele precisa mais do que os outros. Governa-se assim”, definiu.
O presidente reconheceu, ainda, que ainda há muito a fazer pelo Brasil e pelo povo brasileiro, e que os desafios são muitos. Mas deixou claro que a construção de universidades, institutos federais, hospitais universitários, reconhecimento de terras indígenas, assentamentos quilombolas, criação de reservas florestais, e tantas outras iniciatias, são recompensadoras: “Ou seja, eu estou conseguindo fazer tudo aquilo que foi a razão pela qual me coloquei como candidato pela primeira vez”.
A destruição do governo Bolsonaro
O presidente enumerou ações do governo passado, do extremista de direita Jair Bolsonaro, que levaram à destruição de políticas públicas implementadas com muito custo.
“Eles desmontaram quase todos os ministérios. Não tinha mais Ministério da Cultura, Ministério do Trabalho, Ministério da Igualdade Racial, Ministério dos Direitos Humanos… simplesmente acabaram. Nós tivemos que trazer tudo isso de volta. O Ibama, em 2023, tinha 700 funcionários a menos do que em 2010.”
As obras do Minha Casa, Minha Vida, pontuou Lula, estavam paralisadas. “Como um governo deixa casas sem construir? Encontramos quase 6.000 obras de creches e escolas paralisadas. Destruir é muito fácil. Destrói-se um castelo que levou um século para fazer em meia hora.”
Mudanças climáticas
Com o apoio da ex-ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima Marina Silva, afirmou Lula, foi possível incentivar parcerias entre União, estados e municípios para atuar na prevenção e mitigação de desastres climáticos.
“Neste mandato, combinei com a ministra Marina Silva que deveríamos transformar os entes federados em parceiros. O prefeito e o governador estão próximos de onde ocorre o desmatamento ou a queimada. Criamos parcerias com incentivos financeiros, e o resultado foi a queda do desmatamento na Amazônia e em outros biomas em mais de 50%”, celebrou.
Lula apontou como um avanço o sistema de alerta sonoro em áreas de risco de desastre iminente, que funciona em todo o Brasil. “Além disso, atuamos com transversalidade: me reuni com 24 ministros para planejar o enfrentamento aos efeitos do El Niño.”
O país está preparado para enfrentar os efeitos nefastos do El Niño, com mais equipamentos – helicópteros, aviões e caminhões para combate a incêndios e resgate –, mais brigadistas formados, grupos de saúde de prontidão, além de um estoque regulador com 180 mil toneladas de milho, 310 mil toneladas de arroz e a aquisição de 350 mil cestas básicas pelo Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), citou o presidente.
Paz e diplomacia
A ideologia não deve pautar a relação entre os países, disse Lula, pregando uma convivência saudável entre os países e pragmatismo, em especial na América Latina, mesmo com governantes de direita.
“No meu segundo mandato, convivi respeitosamente com presidentes de direita, como Uribe na Colômbia e Piñera no Chile. Ninguém precisa gostar pessoalmente de ninguém; temos que defender os interesses dos nossos países. Conseguimos fechar o acordo Mercosul-União Europeia após 25 anos de negociação. Vou continuar conversando com todos os presidentes da região pragmaticamente.”
Lula voltou a criticar o Conselho de Segurança da ONU: “Não funciona como deveria porque os membros permanentes (EUA, Rússia, China, França e Reino Unido) não se reúnem para decidir o fim do conflito”.
O presidente enfatizou que vai continuar trabalhando pela paz e observou que fez contatos com o presidente da China, Xi Jinping, da Rússia, Vladimir Putin, e antecipou que vai voltar a falar com o Donald Trump para que os países optem pela paz. “O dinheiro que deveria ir para a saúde e educação está sendo gasto em armas.”